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Defesas-Laterais: O Tempo e o Modo

Ricardo Gonçalves Dias · 4 min

A crença dos adeptos leoninos nos seus jogadores tem sido inesgotável Fonte: Sporting CP

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Talvez o futebol nunca chegasse ao seu estado actual caso a evolução táctica não se registasse. Falemos também da técnica, claro, mas essa, com mais ou menos drible e mais ou menos bolas paradas com precisão no peito, sempre existiria para embelezar a contemporaneidade futebolística. Por estar menos associado ao talento espontâneo. O lado teórico do Desporto Rei precisou de tempo e estudo para evoluir.

Durante anos ouvíamos falar do Nº 10 – essa pérola que qualquer boa equipa teria que ter para apurar a qualidade táctica. Mas hoje, em tradução dessa referida evolução, há outras posições que sofreram com o processo evolutivo da geometria em movimento dentro das quatro linhas.

Ser defesa-lateral está muito para além da simples função de fazer as dobras e ter atenção ao espaço traseiro. Uma ideia clara: durante muito tempo pensou-se que no futebol os defesas tinham apenas a sua função: defender. Vice-versa com os avançados, restando-lhes atacar. Hoje, por exemplo, um ponta-de-lança só será completo se souber interferir na primeira fase de pressão defensiva, sendo Slimani um paradigma desta ideia. Contudo, este comportamento é pontual, já que um avançado só defende quando é necessário. Agora denote-se aquilo que os defesas-laterais têm de fazer ao longo de 90 minutos, numa obrigação de consecutivos fluxos defensivos e ofensivos muitas vezes num só minutos de jogo.

Por ser tão factual já o escrevera antes: Jorge Jesus é exímio no tratamento desta posição. Entenda-se, também, que caso qualquer equipa tenha no plantel defesas-laterais indiscutíveis na sua qualidade, a titularidade perde discussão. No Sporting deste ano há, em análise pessoal, dois factores determinantes para a alternação, prendendo-se um com o equilíbrio de valências entre os jogadores disponíveis, estando o outro relacionado com a postura de Jorge Jesus, que têm dado preferência à escolha para a titularidade em função das características do jogo que se irá jogar, e não do jogo que se disputou antes. É viável, no entanto, sintetizar as ideias possíveis sobre cada alternativa:

Fonte: Sporting CP
Fonte: Sporting CP

Já no final da época passada Jorge Jesus apostara em Bruno César para o lado esquerdo da defesa. Destaque-se que Bruno César, tacticamente, sabe tudo. Tem, a par disso, corpulência para o confronto físico, técnica e precisão assídua no passe e no remate. Eleva-se, porém, uma limitação: em determinados jogos, um lateral sem velocidade pode ser letal no resultado. E assim aconteceu no jogo contra o Rio Ave, não tendo Bruno César capacidade para acompanhar o extremo adversário. Muitos disseram: “se ele não tinha velocidade, não podia subir tanto” – mas isto, digo eu, não é atitude para nenhum defesa-lateral em alta competição. O erro foi outro, e o culpado não foi Bruno César.

Fonte: Sporting CP
Fonte: Sporting CP

 Jefferson é um daqueles jogadores com elevadíssima taxa de sucesso no passe longo. Com um Bas Dost gigante na área seria espectável a utilização constante do Brasileiro, apelando ao cruzamento guiado. Mas, e aqui nasce o pormenor, no mesmo lado de Jefferom jogo Bryan, que sendo para mim um Mestre com a bola nos pés, não é parecido com Gelson na dinâmica de sub-organização ofensiva, que acontece no penúltima zona do ataque. Bryan, por exemplo, não foge da mesma forma que foge Gelson para o corredor central, dando liberdade ao lateral para explorar a linha de fundo. Para comprovar esta ideia, convido quem for ao estádio a reparar nas diferenças do lado esquerdo do Sporting em comparação com o lado direito do Sporting.

Fonte: Sporting CP
Fonte: Sporting CP

Terá sido a capacidade de marcação no espaço que fez de Marvin Zeegelaar um jogadore apetecível no campeonato português. Quis o destino que viesse para o Sporting e que fosse, mais tarde, titular em Madrid. Nos últimos anos lembro-me de terem passado pelo Sporting bons jogadores com características idênticas, que embora assertivos defensivamente, eram menos participantes na manobra ofensiva. Marvin, apesar de fiel nos princípios defensivos, não dá garantias nas respostas no ataque.

Fonte: Facebook Oficial de Schelloto
Fonte: Facebook Oficial de Schelloto

Por ter características que admiro, sempre considerei Schelloto um jogador útil. É rápido e conserva durante muito tempo os índices de aceleração, e embora não possa parecer, para um extremo, ter um companheiro na ala com estas características é um luxo. Explique-se porquê. Primeiro, porque tendo um defesa-lateral que permanece na zona atacante dá liberdade para andar pelo espaço central (tal como falei no caso de Gelson e tal como sucedeu no primeiro golo em Guimarães); depois, porque naquilo a que se chama “combinações secundárias” na táctica a pares, a qualidade atacante do defesa-lateral dificulta a acção defensiva da equipa contrária, perdendo esta eficácia na marcação naquela zona do terreno.  Problemas? Alguns. Perde-se a conta às vezes que Schelloto não é capaz de cumprir simples processos defensivos, tão elementares, como o alinhamento da defesa ou a marcação antecipada no espaço. Só nos últimos jogos foram três os golos que o Sporting sofreu e em que Schelloto esteve directamente envolvido.

Fonte: UEFA
Fonte: UEFA

Não seria justo se não confessasse a admiração que sinto por um jogadores desta génese, que conquista as bancadas pela raça e pelo espirito. João Pereira será, por ventura, o defesa-lateral do Sporting que condensa maior equilíbrio no rigor do desempenho das tarefas que lhe são exigidas. Passemos ao lado menos bom da balança. João Pereira peca pela diminuição da disponibilidade física, não sendo possível pedir a um ser esgotável que aguente ritmos para a eternidade.

E talvez aqui esteja um bom exemplo daquilo que está mencionado no começo deste artigo, ao referir-se que, ao contrário de outras posições, o defesa-lateral está em serviço permanente o jogo todo em acções de cariz táctico que diferem de minuto a minuto e de adversário para adversário.

 

Sem pretensão de bajulação ao treinador do Sporting, e legitimando o apontar de dedos que qualquer analista possa fazer, creio que a atitude de Jorge Jesus em relação aos defesas-laterais é totalmente compreensiva. E talvez ela somente se altere quando (e se) algum dia o balneário leonino vir chegar um jogador tão indiscutível para a posição ao ponto de não deixar margem para dúvidas.

Ricardo Gonçalves Dias

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