Quando se dirigiram a mim e me disseram, pela primeira vez, que a vida estava envolta de surpresa, não acreditei. Já não me vem à memória o momento em concreto ou onde me situava na altura. Sei apenas que era pequeno porque sorria muito, porque brincava na lama sem a mínima preocupação a corroer-me cada neurónio que possuo e porque a energia parecia proveniente de uma tomada elétrica com um fio longo, muito longo. Também nunca convivi diariamente, ainda que enclausurado em casa, com uma pandemia que tem ares de criminoso covarde, facto que acrescento para comprovar a felicidade de outrora.

Até os operários da firma cerebral encetarem o seu trabalho e afinarem bem as máquinas que produzem pensamentos e raciocínios, a ingenuidade de uma criança comove e propaga o seu contágio aos demais. A lição é mister que o imberbe oferece ao adulto, sem que este tenha sequer tempo para ripostar: o modo como se vibra, a descrença e desprezo pela galáxia extrafutebol e os ídolos, fonte de inspiração e imitação. Para eles, os mais sábios sem efetivamente saberem disso (sem dúvida, a parte bucólica) interessa o golo, a finta, o drible, a defesa, o passe. A degradação do espírito é acompanhada pelo crescimento e eu não me quero imaginar com 50 anos…

Infelizmente, o ser humano cresce, priva-se da irracionalidade e adentra, aos poucos, na zona da discussão que em tempos achara maçuda e da qual escapava sem qualquer tipo de dificuldade. E argumenta, e contra-argumenta, e sobrepõe o argumento ao contra-argumento sobre o porquê da grande penalidade que não foi assinalada ou do offside que foi sinalizado e que seria o golo vitorioso da sua equipa. Contudo, a insatisfação parece corroê-lo, ainda não levou a sua avante! Vai buscar o árbitro, o fiscal de linha, o sistema, o Apito Dourado, os e-mails, o Cashball, o Rui Pinto, a corrupção que a tia da prima da cunhada viu na praia de Ipanema, debaixo de uma palmeira, enquanto saboreava um refresco de coco.

O presidente leonino é mais um dos rostos do futebol que se une ao combate à covid-19
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Aí, no seio do turbilhão causado pela pandemia COVID-19, quando o tempo para pensar e repensar é a equação com solução infinito elevado à sua base, depreendemos o frívolo e o vazio da nossa discussão. De entre toda a panóplia de consequências devastadoras que o vírus possa conter no seu sistema operativo, a sua chegada principiou uma atitude que há algum tem residido no meu subconsciente e que se traduz numa súplica ao lado humano e racional (o verdadeiro): de hoje em diante, uma espécie de quaresma futebolística (daí a proximidade temporal com a Páscoa), na qual todos, do dirigente ao adepto banal, realizem uma pausa na atividade farta das alfinetadas e troca de galhardetes mútuos. Que se beneficie a tática, o jogo jogado e a análise de quem o jogou. Urge ao futebol ressuscitar das escrituras!

Como o leitor observou, só uma situação de caráter anómalo distendeu sobre as instituições uma preocupação generalizada e coletiva, uma dedicação genuína à causa pública e um parecer ao exterior de que, afinal, o universo do futebol não é composto por seres tão monstruosos e imbecis como se pensava: doação de ventiladores a hospitais precários, garantia de instalações privadas de clubes, caso os estabelecimentos de saúde não sejam capazes de comportar os infetados, uma verba destinada ao Serviço Nacional de Saúde e um alistamento ao quinhão da área da saúde, garantindo uma ajuda técnica e especializada no combate ao vírus (Frederico Varandas, presidente do Sporting Clube de Portugal).

Dirigentes deste país, se fosse a vocês, preocupava-me em angariar a estima e a admiração dos que, não tarda, crescem e ficam iguais a mim e a muitos outros.

P.S: Crianças sportinguistas, eu previ muita coisa que pudesse antecipar um campeonato do nosso clube. Agora uma pandemia…

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

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