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Ensaio sobre a Cegueira é um romance do aclamado escritor português José Saramago, publicadoem 1995, e que se tornou, com o passar dos anos, uma das obras mais famosas do autor natural doRibatejo. Sobre o livro em si, Saramago retrata-o falando em 300 páginas de “constante aflição”.Através da escrita, segundo o próprio, a obra é uma tentativa de dizer que “não somos bons” e que
“é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”.

Não deixa de ser irónica esta descrição ideológica, se nos lembrarmos de Francisco Geraldes. Não porque ele não é bom, porque é, mas sim pelo sururu sobre a qualidade do mesmo nesta pré- época. Há quem defenda que ele precise de um ano de maturação, porque nesta altura “o importante mesmo é jogar”, e há quem defenda que mereça jogar ao lado de Adrien e William, já “para ontem”.

Admito que Francisco Geraldes cativa-me. Não só a mim, presumo. Não porque o rapaz gosta de ler ou porque gosta de andar de metro, mas sim porque a sua personalidade acompanha a sua personalidade futebolística. Trata-se de um jogador – e isso notava-se há já um par de anos – que quer e sabe pegar no jogo, mas por vezes parece “falar sozinho” no meio-campo. A sua leitura transpõe-se para uma leitura de jogo fora de comum. A sua capacidade de decisão transpõe as qualidades técnicas que evidencia ter. São qualidades que “amarram” qualquer romântico do futebol. No entanto, é preciso, nesta fase da sua carreira, que encontre uma equipa que “pense” como ele. Que, em suma, leiam o mesmo livro, quando a bola é a protagonista.

Francisco Geraldes já trabalha em Vila do Conde Fonte: Rio Ave Futebol Clube
Francisco Geraldes já trabalha em Vila do Conde
Fonte: Rio Ave Futebol Clube

Acredito que independentemente da gestão da sua evolução nos últimos anos – que foi má, na minha opinião – o empréstimo ao Rio Ave possa ser importante para a sua evolução. Porque lhe dará a oportunidade de jogar regularmente, de se adaptar a um processo de jogo em que a saída de bola é feita pelo chão (jogar ao lado de Tarantini e Pedro Moreira será vital nesse aspeto) na maioria dos jogos, e dá-lhe a oportunidade de seguir um processo evolutivo que permitiu a jogadores como João Mário, Rúben Semedo, Podence (e companhia) voltar a Alvalade com outra maturação.

Não sei qual é a opinião de Jorge Jesus sobre Geraldes, sinceramente. Nem consigo arriscar que o próprio terá a oportunidade que merece na próxima época. Nem digo sequer que Geraldes tenha vivido, até este momento, num mundo de cegos. Mas nesta altura precisa, definitivamente, de alguém que olhe para ele com outros olhos.

Diz Saramago, na respetiva obra, que “quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústica, então é que se vê o animalzinho que somos”. Que seja então – e agora é meramente o coração do autor a falar – a altura de Francisco Geraldes mostrar o verdadeiro leão que é.

Foto de Capa: Rio Ave Futebol Clube

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