O holandês Marcel Keizer chegou a Alvalade numa fase claramente positiva da equipa leonina. O Sporting encontra-se a apenas dois pontos do líder, FC do Porto, e o empate em Londres frente ao Arsenal elevou as expectativas para o apuramento para os dezasseisavos-de-final da Liga Europa. O primeiro jogo para o campeonato nacional será contra o Rio Ave mas a estreia como técnico verde e branco está marcada para o próximo sábado, 24, frente ao Lusitano Vildemoinhos para a Taça de Portugal.

Muitos comentadores têm levantado bastantes dúvidas acerca das qualidades do técnico leonino: dizem eles, enfim, que Keizer ainda não deu garantias de ser alguém com créditos firmados no mundo do Futebol. Efetivamente, o que de mais relevante fez na sua parca carreira foi ter orientado o Ajax algo que também não correu como desejado. Mas estes “profetas da desgraça” veem apenas uma parte da equação. Esquecem-se sistematicamente da outra. Vamos, por isso, a ela.

Marcel Keizer é um herdeiro da Escola Holandesa. Só isto deveria bastar para que se tenha algum cuidado nas apreciações negativas ao técnico recém-chegado. Qualquer adepto que esteja minimamente por dentro do fenómeno futebolístico reconhece as qualidades que essa Escola teve para o Futebol Mundial. Iniciou-se num clube (Ajax), ramificou-se numa seleção (Holanda), numa geração (Anos 70) e num homem em particular (Johan Cruyff) mas disseminou-se por várias partes do mundo. Ora, quando analisámos o “estilo Keizer” vemos claramente que as características desta escola estão lá todas: destaque para a aposta na formação, a metodologia rigorosa dos treinos e a cristalização de um modelo de jogo que autonomiza processos e dinâmicas.

Quanto ao primeiro aspeto, Keizer fez já algo importante a esse respeito: olhou “para baixo”, viu o que tinha nos escalões inferiores à sua disposição e “subiu”, para já apenas para os treinos da formação principal, dois jovens: Euclides Cabral e Abdu Conté. Não podemos olvidar o facto de ter sido o “olho cirúrgico” de Keizer que se traduziu no lançamento de jogadores que atuam hoje nos melhores campeonatos e equipas da Europa: falo, particularmente, de Justin Kluivert (filho da estrela holandesa Patrick Kluivert) que joga atualmente na AS Roma e de Matthijs de Ligt, central com uma capacidade técnica incrível e titularíssimo do Ajax com apenas com 19 anos de idade.

O plantel leonino forma-se na “Escola Holandesa” com Marcel Keizer ao leme
Fonte: Sporting CP

Os treinos de Kieser são minuciosos, rigorosos e intensivos. A Escola Holandesa é sobejamente conhecida pela atenção que dá aos pormenores e aos diferentes aspectos e momentos de um jogo. Tal cenário exige modalidades de treino diversas e específicas para cada situação. Ao nível do sistema tático preferencial, e se repetir o que fez nos outros clubes por onde passou, Keizer atuará num 4x4x3. Mas o que caracteriza verdadeiramente a escola holandesa (veja-se o exemplo da “Laranja Mecânica”) não é tanto o sistema tático mas antes a interiorização de processos e filosofias de jogo, um futebol agressivo quando não tem bola e suave, seguro, de posse, quando a tem. Como exemplo mais recente e refinado desse postulado temos o Manchester City de Guardiola e o seu futebol “toca-toca”, de apoios constantes, a aguardar o momento certo para a rutura e o desequilíbrio.

Keizer priveligia a agressividade dos avançados nos momentos defensivos o que exigirá a Dost, Montero e companhia uma atitude diferente da de meros “mirones” do jogo. Por outro lado, esse futebol de propensão ofensiva só poderá ser executado na sua plenitude com uma boa organização e eficácia defensivas, principalmente nos momentos de transição ataque-defesa. Por muito paradoxal que possa parecer, uma equipa só se afirma verdadeiramente no ataque quando os homens mais recuados garantem a “liberdade” aos homens da frente. Olhando para a equipa leonina, as desatenções e precipitações constantes de André Pinto e, por algumas vezes, de Sebastián Coates, poderão ser letais à luz da filosofia keizeriana.

Além disso, e tal como já salientei aqui no Bola na Rede, falta um seis a esta equipa do Sporting que funcione como pêndulo nos momentos de transição. Com a vinda cada vez mais remota de Stefano Sturaro para Alvalade, os responsáveis leoninos já arrepiaram caminho e sondaram, ao que parece, o médio defensivo do Desportivo de Chaves, Stephen Eustáquio. Este internacional sub-21 por Portugal apresenta efetivamente boas qualidades, mas é ainda um jogador em formação e dificilmente pegará de estaca no Sporting. Será necessário um nome com outra tarimba e, sobretudo, com as qualidades técnicas e táticas já adquiridas e amadurecidas.

Em resumo, o Sporting pode ter muito a ganhar com Marcel Keizer ao leme. Mas o técnico holandês também pode ter muito a ganhar com o Sporting, ou não se desse o caso de também ele estar forçado à conquista de títulos. Eis uma perfeita coincidência que pode muito bem beneficiar ambas as partes.

Foto de Capa: Sporting CP

artigo revisto por: Ana Ferreira

 

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