Cabe a mim a difícil tarefa de analisar o Benfica vs Sporting de ontem. Vou fazê-lo por pontos de forma a tentar não desvalorizar nenhum dos aspectos que considero relevantes mas, ao mesmo tempo, não dissociar tudo aquilo que, no seu total, compõe um jogo de Futebol.

É por aí que começo: aquilo a que nós assistimos ontem não é uma brincadeira, um hobby ou uma forma de passar o tempo onde o mais importante é todos nos divertirmos. O mais importante é ganhar. Em questão estão jogadores, treinadores, dirigentes e todos os restantes membros que tornam possível que haja uma equipa de Futebol profissional. A palavra, sublinho, profissional. Portanto, desculpem-me os adeptos Benfiquistas e os Sportinguistas, o que interessa não é “termos assistido a um grande jogo de Futebol”. O que interessa é que uma equipa cumpriu os seus objectivos e a outra não. Este foi um ponto que quis assentar antes de falar do jogo em si porque notei por aí uma leveza na análise do jogo que quase me fez parecer que estaríamos a falar de um amigável, que não existiu.

Agora sim, o jogo do ponto de vista das duas equipas. Em primeira instância não falarei dos lances relativos à arbitragem. Houve muito mais do que isso nos 120 minutos de ontem. Contudo, seria não mais do que displicente se os ignorasse. Portanto terão a minha visão sobre a exibição da terceira equipa no final.

O Sporting entrou mal. Com dificuldades na primeira fase de criação, com a repetida ausência de Adrien do jogo, tal qual tinha sucedido no Dragão. Na altura referi que talvez tivesse sido a chave que nos faltou, e na primeira parte a minha ideia reforçou-se: Adrien é quem pode, ou não, desbloquear o jogo ofensivo do Sporting contra as grandes equipas. O crescimento da equipa a ele muito deveu, mas já lá iremos. O jogo era fácil de controlar por parte do Benfica dadas as poucas soluções que o Sporting ia apresentando, com um jogo lento e, sobretudo, fácil de prever e aniquilar. Defensivamente, outro erro repetido: houve muita falta de agressividade sobre o portador da bola. O segundo e terceiro golos nascem através dessa lacuna defensiva.

Tanto a equipa da casa como a visitante foram muito eficazes no primeiro tempo. Cardozo esteve inspirado; o Sporting voltou a facilitar ao saltar na barreira quando as regras dizem que isso não se deve fazer; Maurício revelou algumas limitações que tinha conseguido esconder por, até ao momento, ter sido colocado poucas vezes à prova. Montero foi, na primeira parte, o melhor do Sporting a par de Capel. Recuou muitas vezes e ajudou a criar superioridade numérica no meio, contrariando a aposta de Jesus em colocar 3 naquela zona do terreno. Foi assim que nasceu o golo leonino. Sobre o espanhol, mais um grande golo e entrega, como costume, de tudo o que tem em prol do colectivo. No fim dos 45 havia um resultado pesado mas equivalente à falta de ideias da equipa de Leonardo Jardim.

De regresso, o Sporting precisava de uma força anímica grande mas também de mudar a forma como ia abordando o jogo. Wilson Eduardo, volto a dizer, é útil actuando da esquerda para o meio de forma a potenciar o aparecimento em zonas de finalização, em que é forte. Mas se jogar na direita vai muito raramente ser influente. A assistência para o golo de Capel é um rasgo que apenas nos poderá ajudar a manter errados por mais algum tempo. E foi, aliás, a entrada de Carrillo, para o lugar de Wilson, que deu alma ao jogo. O Sporting tinha voltado a entrar mal e, não fosse aquela substituição aos 60 minutos, dificilmente teria ido ao prolongamento. Carrillo entrou em dia sim, mexeu no jogo e apenas dois minutos depois de entrar, Maurício aproveitou as debilidades encarnadas nos lances de bola parada defensivos e reduziu. As bancadas reanimaram, os jogadores sentiram que era possível e o jogo abriu. O Benfica poderia ter morto com Markovic a acertar na barra e com Cardozo a ver o seu 4º golo ser negado por Patrício; o Sporting poderia ter empatado mais cedo não fosse Slimani ter, também ele, acertado no poste. Os jogos acabam quando o árbitro apita e, portanto, aos 92, Slimani voltou a mostrar a sua superioridade no jogo aéreo e recompensou o esforço e o acreditar que se manteve apesar da desvantagem por dois. Sublinhar, de novo, as boas mexidas de Leonardo Jardim. Mané e Slimani entraram bem e foram mais-valias no ataque leonino.

No prolongamento o Sporting até entrou melhor, mais motivado pelo golo marcado no fim do tempo regulamentar, mas foi o Benfica que marcou num lance caricato e onde Rui Patrício – tantas vezes herói – deixou muito a desejar. O Sporting voltou a saber reagir, o que tem sido uma constante ao longo da época, e poderia ter empatado com Slimani a cabecear a bola e a fazê-la passar muito, muito perto do poste de Artur. Ivan Cavaleiro e André Gomes também quase marcaram, mas primeiro Patrício com uma fantástica defesa e depois o poste mantiveram o suspense até final. A última oportunidade surgiu para Montero que, mesmo tendo quebrado no prolongamento, teve forças para rematar cruzado e proporcionar a defesa ao guarda-redes benfiquista. Em suma, as oportunidades poderiam ter ditado tanto uma vitória do Sporting como uma do Benfica por maior vantagem. As equipas foram equilibradas e, não fosse a actuação de Duarte Gomes, a justiça da vitória não mereceria discussão.

A arbitragem

Este capítulo tem de começar muito antes das 19:45 de ontem. Marco Ferreira era o árbitro nomeado para o derby. Deixou de o ser porque a sua presença foi antecipadamente divulgada? Isto começou a não cheirar bem desde cedo. Num país em que o Futebol não conhecesse casos de corrupção e suspeitas de muitos mais, talvez este fosse um pormenor irrelevante. Assim sendo… Como não há fumo sem fogo, o escolhido foi, provavelmente, o árbitro que piores recordações pode trazer ao Sporting e, pelo contrário, um dos poucos que vimos nos últimos anos a prejudicar o Porto em benefício do Benfica. Agressões ao treinador de guarda-redes do Sporting, comentários em tom de gozo para com o clube de Alvalade nas redes sociais e o assumir da preferência pelo clube da Luz são apenas alguns casos que inviabilizam a credibilidade da escolha por Duarte Gomes.

Duarte Gomes a amarelar Slimani por protestar sobre o penalty de André Almeida / Fonte: Maisfutebol
Duarte Gomes a amarelar Slimani por protestar sobre o penalty de André Almeida / Fonte: Maisfutebol

No campo consumou-se apenas aquilo que os mais atentos previam. Enquanto o Benfica ganhava e controlava, o árbitro soube-se manter à distância que a sua profissão aconselha. Quando o Sporting equilibrou, Duarte Gomes entrou em acção: um penalty claro sobre Montero, de Luisão, aos 52 minutos, por marcar; outro, escandaloso, de André Almeida, no prolongamento. Disparidade reveladora no critério às sanções disciplinares: foram pelo menos três os amarelos por mostrar aquando das faltas que travavam contra-ataques do Sporting. Para o lado contrário, um erro… que os beneficia. Ficou um penalty por marcar sobre Luisão… que acabou por marcar golo num lance que deveria ter sido parado devido à inexistência da lei da vantagem dentro da grande área. O mais provável era o Benfica ter conseguido marcar, na mesma, de penalty. Mas nada o garante. Pelo meio, e porque devemos sublinhar o que foi bem feito, no lance do 3º golo do Benfica o passe para Cardozo é feito para trás e assim não há fora-de-jogo. No lance do 4º, a bola entra por pouco, mas entra totalmente.

O jogo, pelo contexto que envolvia, era demasiado importante para o Benfica para o poder perder. Dentro de campo até o poderiam ter ganho de forma limpa. Mas não quiseram arriscar. Houve quem quisesse manipular o resultado de um jogo que tinha tudo para ter sido muito bonito. Assim também o foi, mas apenas para aqueles que se recusam a aceitar que entre o Futebol e o Teatro há muitas vezes um traço em comum: o guião.

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Adepto das palavras e apreciador de bom Futebol, o João deixou os relvados, sintéticos e pelados do país com uma certeza: o futebol joga-se com os pés mas ganham os mais inteligentes.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.