O Sexto Violino

O dia 25 de Fevereiro de 2009 foi um dos mais negros da história do Sporting. Tive a infelicidade de ir ver o célebre jogo com o Bayern de Munique ao estádio e, pela primeira vez, tive vergonha da equipa que apoio. A seguir ao jogo, lembro-me perfeitamente de estar a descer as escadas do estádio e de ter dito que nunca mais voltaria a Alvalade. Pouco interessa para o caso o facto de, logo na semana seguinte, ter quebrado essa impossível promessa e de ter ido ver o Sporting-Paços de Ferreira. A verdade é que o meu clube envergonhou os seus adeptos perante a Europa inteira, num resultado nada condizente com a grandeza do Sporting. No jogo de Munique, nova humilhação e a consequente eliminação da mais importante prova de clubes do mundo.

Nesse ano o clube ainda terminou em segundo lugar no campeonato, mas a atmosfera já estava longe de ser a ideal. A era de Paulo Bento atingia uma fase de saturação, o então presidente Soares Franco delapidava o património do Sporting, planeava o fim das modalidades e admitia despreocupadamente que gastava “pouco mais de uma hora por dia com o clube”. As finanças deterioravam-se e as “equipas de tostões” revelavam-se, como se viu, claramente insuficientes para dignificar o Sporting na Europa. Na época seguinte, fruto do tal segundo lugar, o clube ainda teve direito a disputar o playoff de acesso à Liga Milionária, mas foi eliminado pela Fiorentina sem perder qualquer jogo (2-2 em Alvalade e 1-1 em Florença). Depois disso, o vazio. Nunca mais Alvalade teve o privilégio de ouvir o arrepiante hino da Champions.

"Da última vez que os leões participaram na fase final da Liga dos Campeões, Liedson e Moutinho eram duas das figuras de destaque. Muita coisa mudou desde então... Fonte: Bolanaarea.pt
“Da última vez que os leões participaram na fase final da Liga dos Campeões, Liedson e Moutinho eram duas das figuras de destaque. Muita coisa mudou desde então…
Fonte: Bolanaarea.pt

Passei todo o meu tempo de faculdade sem poder ver o clube que amo na prova rainha do futebol europeu, e com a dor acrescida de ver os rivais triunfarem em vários estádios do Velho Continente. Os anos sucessivos de má gestão financeira e desportiva em Alvalade tiveram consequências nefastas, e a perda de competitividade que já começava a verificar-se nas últimas épocas tomou proporções inimagináveis em 2012/13. O Sporting terminou o campeonato em sétimo lugar (a sua pior classificação de sempre), e os adeptos partiram para a nova época com a certeza de que os esperaria um ano inteiro a ver as competições europeias pela televisão. Assistir a jogos da Liga dos Campeões tornou-se algo penoso, quase um assunto “dos outros” para o qual não éramos chamados. Com todo o respeito que o clube me merece, ver o Paços de Ferreira na Champions e o Sporting afastado da alta-roda europeia era surreal. Algo não batia certo.

Lá fora o campeonato português não tem grande visibilidade, pelo que, face à ausência leonina, Benfica e Porto passaram a ser vistos como as duas únicas grandes equipas do nosso país. O Sporting ficou esquecido. É um facto e não há que escamoteá-lo. Aliás, mesmo em Portugal isto aconteceu, se bem que por cá tudo tenha sido muito menos inocente. Algumas pessoas ligadas ao futebol deliciaram-se com a desgraça do Sporting e tentaram promover uma reconfiguração do futebol português, dizendo que o Braga já se tinha juntado ao grupo dos “grandes”. Em certos casos, o delírio e as provocações chegaram ao ponto de apelidar o clube minhoto de “terceiro grande” – facto que pressupunha, claro, que o Sporting já teria deixado de o ser. São apenas pormenores que acontecem facilmente em momentos de fraqueza, mas os Sportinguistas não devem nunca esquecê-los.

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Contudo, injustiçado ou não, a verdade é que um clube como o Sporting não pode estar tanto tempo arredado de uma competição tão ilustre como a Liga dos Campeões. A época actual tem sido a prova de que, quando as coisas são bem feitas, os resultados saltam à vista. Agora que temos um presidente que não faz do Sporting um hobby mas sim uma profissão, e que podemos contar com uma estrutura e um treinador que conseguem encontrar bons jogadores a baixo custo e desenvolver os que já cá estavam, tudo o resto vem por arrasto. Depois de vários anos em queda livre, o clube de Alvalade está a conseguir finalmente uma temporada acima das expectativas, em que só não se encontra ainda a lutar pelo título devido ao jogo em Setúbal (isto para não ir buscar casos mais distantes como com o Rio Ave, Nacional, Académica, etc…).

Faltam quatro jogos e cinco pontos para garantir a presença na fase de grupos. Uma vitória contra o Gil Vicente significará mais um passo de gigante nesse sentido, e o tão ansiado apuramento directo poderá ficar selado na partida contra o Belenenses. Até seria desejável que assim fosse, uma vez que os dois últimos jogos da época serão teoricamente mais complicados. Para já, porém, é tempo de celebrar o apuramento para os playoffs. Cinco anos depois da fatídica eliminatória com o Bayern, o Sporting voltou a garantir um lugar na competição onde tem de marcar sempre presença. Estamos de volta!

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O João Sousa anseia pelo dia em que os sportinguistas materializem o orgulho que têm no ecletismo do clube numa afluência massiva às modalidades. Porque, segundo ele, elas são uma parte importantíssima da identidade do clube. Deseja ardentemente a construção de um pavilhão e defende a aposta nos futebolistas da casa, enquadrados por 2 ou 3 jogadores de nível internacional que permitam lutar por títulos. Bate-se por um Sporting sério, organizado e vencedor.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.