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Eu Acredito

Ricardo Gonçalves Dias · 4 min

Eu Acredito

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Prefiro sempre acreditar.  Quando uma revista de suposta reputação coloca o nosso treinador em décimo lugar da tabela Mundial eu acredito. Acredito com a mesma força com que ainda acreditava na última jornada em Braga. Outro exemplo: mesmo nas épocas em que, a meio do campeonato, já estávamos a vários pontos eu também acreditava. Um fanático acredita sempre: eis uma regra.

Há uns meses escrevi que ser Sportinguista, hoje, não é uma tarefa fácil, sendo, por isso, digna para muito poucos. Tenho um vizinho que gosta tanto do Balakov e do Acosta como da própria mulher. Quando me encontra no prédio, diz-me sempre que antigamente é que era. Repete sempre as mesmas demandas: a história do célebre golo que a estrela Búlgara marcou ao Benfica e, depois, a primeira época despercebida do Argentino, seguindo-se a história que se sabe na época do milénio. Nesse texto, há meses atrás, salientei também a sorte dos sportinguistas que, em plena constituição cerebral capaz de adquirir e registar, puderam guardar na memória o sabor de ter duas vitórias em dois campeonatos quase seguidos. Devo frisar que não trocava de lugar com o meu vizinho, servindo-me bem esta ansiedade que se redobra a cada época, sempre na certeza de que, mais tarde ou mais cedo, vou ver o sucessor do Iordanov a pedir licença ao Marquês de Pombal enquanto lhe mexe no pescoço.

Uma das eternas figuras no reino do Leão Fonte: Fórum SCP
Uma das eternas figuras no reino do Leão
Fonte: Fórum SCP

Isto é apenas uma forma de, chegando até aqui, voltar a escrever: eu acredito. Parece um slogan batido, uma expressão romântica, um prenúncio de epopeia. Mas é tudo aquilo que digo quando me pedem expectativas sobre aquilo que vai começar para o mês que vem. Eu acredito. E, se noutros anos a esperança era menos sustentada, este ano o argumentário é forte. Como se não bastasse ter a espinha dorsal da melhor equipa da Europa (para não doer tanto aos cépticos, vamos poupar a história da formação em geral), temos também o décimo melhor treinador do Mundo, que conseguiu esta proeza não sendo campeão. Imaginemos caso tivesse sido. Realçou a revista, como critérios, que Jorge Jesus fora capaz de bater recordes no Sporting, de atingir uma pontuação considerável e de ter sido preponderante na final afirmação de alguns dos melhores jogadores portugueses da actualidade. Aqui está um dos elementos que, sportinguistas, bem nos pode deixar com as costas quentes.

Temos um dos melhores meios-campos que passaram por Alvalade nos últimos tempos, claramente porque ao nível táctico, na dinâmica da zona fulcral de qualquer equipa, temos jogadores perfeitos a desempenhar as acções exigidas. A defender e a interceder, a distribuir e conter e a desenvolver e a avançar. Vou voltar a aludir ao passado para ilustrar o presente. Também escrevi uma vez que João Mário é espantoso devido a muita coisa, destacando-se, porém, a maturidade do seu jogo. É difícil encontrar a sua inteligência, a capacidade de verticalizar o jogo (que se perdeu em certa prática do futebol europeu) e a sua estabilidade competitiva ao longo de muitos jogos. Para além disto, existe ainda outro caso prático. Portugal sempre teve grandes génios no meio-campo e não é preciso recuar muito para completar o painel. Mas nenhum deles, embora alguns tenham morrido na praia, foi campeão europeu. Singularizei há pouco o João Mário porque a propositada instabilidade que se cria ameaça piorar com a sua partida. Pode-se dizer muita coisa, embora eu só tenha a certeza de uma: é importante que João Mário permaneça. Eu, mais uma vez, acredito que irá permanecer. Ser campeão da Europa por Portugal foi único, mas, como ser campeão pelo Sporting também será, é importante que não esqueças, João, e desculpa o romantismo, que tens a vida pela frente.

É claro que o primeiro texto que antecede o arranque da competição a doer não podia acabar sem algumas impressões. Tenho as minhas, como qualquer sportinguista terá as suas. Se na baliza a conversa está encerrada, o eixo defensivo não lhe fica atrás na convicção. Este é o teu ano, Rúben, mas um ano inteiro, e não só metade. O Jorge, o décimo melhor treinador do Mundo, adora-te porque fazes bem aquilo que ele sempre admirou em qualquer central: a pressão alta, a presença ofensiva e a estatura. Aconselho-te a ires escolhendo o número que queres meter na camisola da selecção. Schelloto, meu querido amigo, há quem goze contigo pela maneira como corres enquanto eu gozo com quem se ri por não perceber que és um perigo se tiveres juízo. Para falar do meio-campo, e qualquer sportinguista concordará comigo, basta fazer uma vénia e o assunto arruma-se. Uma pequena anotação para ti, puto Gelson, que tens tudo o que sabemos ser preciso.

Este pode ser o teu ano Fonte: Sporting CP
Este pode ser o teu ano
Fonte: Sporting CP

Talvez um pouco de sorte, é claro. A gente vai fazendo figas. Para o meu Magrebino vai o maior dos aplausos, porque não admito que haja alguém que ainda não te tenha pedido desculpas por ter perdido a paciência com os teus primeiros jogos de leão ao peito. Trezentos mil euros: a primeira vez que vi o meu Sporting roubar. Por fim, e quase jurando pôr as mãos no fogo, um voto de confiança nesse rapaz que tem apelido de craque. É de lembrar que o Jorge, o décimo melhor treinador do Mundo, não só é brilhante a trabalhar os jogadores como também o é a encontrá-los. Se recordarmos o que aconteceu na concorrência, havia uma astro argentino que nem uma ocupação de espaço sabia fazer e que aos pouco, contigo, Jorge, se tornou num jogador-automático. Faltam três quilos, segundo a tua ideia, para o Alan ser tão craque como o outro Ruiz. Estive atento ao último jogo em Alvalade. Tens razão: tem tudo para que tudo corra bem. Aquele toque não engana, Jorge. Tu sabes e eu acredito. Acredito sempre.

 

Foto de Capa: Sporting CP

Ricardo Gonçalves Dias

Redação Bola na Rede · ver artigos