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Escreveu-se ontem mais uma página na longa História da fábrica de extremos de Alvalade. Ano após ano verificamos a excelência da formação leonina, com esta posição do terreno a receber um especial destaque.

Comecemos pela época de 1983/1984, ano da estreia profissional de um menino formado na cantera do Sporting, um menino que se transformaria num dos melhores extremos da sua era e que viria a ser segundo classificado na eleição da Bola de Ouro de 1987. Este jogador, que infelizmente teve os melhores anos da sua carreira no rival Porto (clube pelo qual, de forma atribulada, trocou o Sporting) e no Atlético de Madrid, inaugurou, a um nível superior, a magnífica fábrica de extremos do Leão. Falo-vos, obviamente, de “El Portugués”, Paulo Futre, um dos melhores jogadores portugueses de sempre, craque da conquista da primeira Taça dos Campeões Europeus por parte dos portistas.

Paulo Futre
O jovem Futre de leão ao peito
Fonte: Record

Cinco anos passados, a fábrica cria outro protótipo letal de um super-extremo ao nível planetário. Classe para dar e vender, velocidade, visão de jogo, finalização apurada: estas características fizeram dele um ídolo em três dos maiores clubes do mundo – Barcelona, Real Madrid e Inter de Milão – e levaram-no a erguer com toda a justiça e legitimidade a Bola de Ouro do ano 2000. Luís Figo, uma lenda viva, o grande capitão da selecção nacional, odiado por uns e amado por outros; porém, de uma excelência indiscutível. Quem não se lembra do “golão” a Inglaterra no primeiro jogo do Euro 2000? E daquele golo marcado a Schmeichel, num Portugal vs Dinamarca? Que recordações! Um dos melhores jogadores de futebol que o planeta Terra conheceu.

Luís Figo
Luís Figo: Um dos melhores de sempre
Fonte: Blog Tribunal do Futebol

Na época de 1996/1997 nasce mais um produto de qualidade extrema pelos lados de Alvalade. Um jogador de qualidade inegável, velocidade estonteante, com uma técnica não alcançável por qualquer atleta, bastante acarinhado durante a sua caminhada de Leão ao peito. Completou uma transferência de sonho para o gigante Barcelona, e por conseguinte adivinhava-se uma carreira magnífica para este jovem extremo. Tal facto não se viria a verificar, pois pouco tempo após a sua chegada à Catalunha este jovem voltou a Portugal para envergar as cores do rival eterno do seu clube de formação. Esta traição nunca foi perdoada a Simão Sabrosa, que se tornaria num símbolo de um Benfica completamente desprovido de classe. Apesar de tudo, foi sem dúvida um grande futebolista, passeando os dotes que absorveu em Alvalade por vários e importantes palcos mundiais.

Simão Sabrosa
Simão e a mudança para Barcelona
Fonte: Revista Mundial

No início do milénio nasce um novo filho, com um trajecto infelizmente parecido com o último atleta descrito. Pessoalmente, este extremo foi um dos jogadores que mais prazer me deu ver jogar em Alvalade. Valia bem o preço do bilhete! Uma técnica impressionante, fintas que eram novidade e que cortavam a respiração a qualquer adepto de bom futebol. Irreverente, foi lançado pelo treinador romeno Laszlo Boloni, que lhe deu a alcunha de “Mustang”, por ser uma força da natureza difícil de domar. Campeão nacional na sua primeira época de sénior, ainda jogou a temporada seguinte de leão ao peito, tendo viajado na época seguinte para Barcelona. Anos mais tarde, serve de moeda de troca no “negócio Deco” e assina pelo FC Porto, onde voltou a mostrar toda a sua magia: velocidade, técnica, finta, remate fácil, finalização apurada – o extremo com que todos os treinadores sonham. Apesar de todas estas qualidades, Ricardo Quaresma não está a ter a carreira que se esperava: entre a partida e o regresso ao Porto passou por clubes como Inter de Milão, Chelsea, Besiktas e Al Ahli do Catar, com pouco ou nenhum sucesso.

Ricardo Quaresma
Ricardo Quaresma e mais um golo pelo Sporting
Fonte: Blog Futebol Mais

Uma época depois do aparecimento do “Mustang” nasce o expoente máximo, a “jóia rara” desta fábrica de talentos. Quando um jogador, no seu primeiro jogo como sénior (um amigável frente ao Bétis), faz um golo daquele calibre, algo de especial se passa. Mais um tremendo velocista, sempre com uma finta fantástica na manga; porém, no caso deste menino, a técnica e a velocidade aliavam-se à força e poder de choque de uma forma estranhamente harmoniosa. Só jogou uma época de leão ao peito, pois, quando estava para começar a segunda temporada como profissional leonino, resolveu deslumbrar o mundo com uma exibição de sonho frente ao Manchester United, na inauguração do novo Estádio José Alvalade. Dias mais tarde viaja para Old Trafford, onde acabaria por se tornar um deus e cumprir um dos sonhos da sua carreira: vencer a Liga dos Campeões. Foi um deus em Old Trafford e viria a sê-lo também em Madrid, onde alcançou números sobre-humanos e onde se viria a afirmar de uma vez por todas como o melhor jogador do mundo. Cristiano Ronaldo: duas Bolas de Ouro, o atleta mais mediático do planeta, o futebolista mais bem pago do mundo. CR7, pelo seu esforço, dedicação, devoção e glória já alcançada, personifica o mítico lema leonino, sendo o maior símbolo da “cantera” verde-e-branca. A meio da carreira, tem a possibilidade de se tornar no melhor jogador de futebol de todos os tempos, se é que ainda não o é…

Ronaldo
CR7 com Boloni, o técnico que o lançou.
Fonte: World Soccer Talk

E quando se pensava que, após tanto craque seguido, dificilmente apareceria outro extremo de nível mundial, como que surge mais uma pérola. De origem cabo-verdiana, este menino aparece com pêlo na venta, jogando com qualidade e facilidade em qualquer uma das alas e até no centro do terreno. Mais um autêntico sinónimo de rapidez, técnica e visão de jogo, cedo se afirmou de leão ao peito, tendo feito duas temporadas de grande qualidade até protagonizar o maior encaixe de sempre para os cofres leoninos. Nani seguiria o caminho de Cristiano Ronaldo, rumando a Old Trafford para representar o Manchester United, onde proporcionou aos adeptos ingleses grandes momentos de magia. Há vários anos nos “Red Devils”, e apesar de alguns altos e baixos, Nani é dono de uma grande carreira futebolística e um alvo bastante apetecível para qualquer emblema europeu. O actual técnico do United, David Moyes, não conta com ele, e já se fala num possível regresso ao Sporting por empréstimo, ficando o clube inglês com o direito de opção de compra de William Carvalho.

Nani
Os festejos de Nani no seu ano de estreia.
Fonte: Site Super Sporting

No mesmo ano do lançamento de Nani, e depois de um empréstimo ao Casa Pia, surge outro grande extremo, nunca aproveitado pelos lados de Alvalade. É difícil descrever a sua história de leão ao peito, pelo simples motivo de que quase tudo se resume a empréstimos: duas épocas consecutivas no Vitória de Setúbal e uma temporada em Espanha, no Recreativo de Huelva. O desejo de voltar ao Sporting não se cumpriria, pois Paulo Bento (técnico do Sporting na altura) viria a dispensá-lo no ano de 2008. Silvestre Varela assinaria pelo Estrela da Amadora, onde brilhou, chamando a atenção do FC Porto, que o contratou na época seguinte. Varela construiu uma bela carreira de dragão ao peito, onde já milita há cinco temporadas, tornando-se num dos grandes jogadores da Liga Portuguesa e da Selecção Nacional.

Varela
Varela brilhou no Estrela da Amadora, após ser dispensado por Paulo Bento
Fonte: Futebol Mundial

Na época transacta, assistimos ao nascimento, pelas mãos de Jesualdo Ferreira, de mais um extremo tremendamente promissor. Numa época terrível para o Sporting, os rasgos desta pérola luso-guineense arrancaram alguns sorrisos aos milhares de adeptos verde-e-brancos orgulhosos com a qualidade da sua formação. Depois de diversos jogos brilhantes na equipa B, e de outras tantas jogadas memoráveis na equipa profissional do leão, Bruma explode e mostra ao mundo toda a sua magia num mundial sub-20 onde foi considerado o segundo melhor jogador da competição. Percorrido este ainda curto caminho, o jovem jogador foi mal aconselhado por advogados, tutores, empresários, e acabou por protagonizar uma novela que terminou na sua venda aos turcos do Galatasaray, onde tem dado boas indicações, apesar das escassas oportunidades de jogar os 90 minutos. Se trabalhar arduamente e tomar as decisões certas, acredito que possa chegar ao nível de, pelo menos, um Nani.

Bruma joga agora no Galatasaray Fonte: Futebolportugal
Bruma joga agora no Galatasaray
Fonte: Futebolportugal

O mais recente capítulo desta bela História foi escrito ontem, no Sporting – Marítimo a contar para a Taça da Liga, quando um menino de 19 anos assina uma obra de arte fenomenal, abrindo caminho à contundente vitória leonina. Um dos mais influentes em todas as camadas jovens que percorreu, integrou a equipa de juniores com idade juvenil, integrou a equipa B com idade júnior, e mais recentemente tem sido lançado, jogo após jogo, por Leonardo Jardim, demonstrando sempre um toque de bola fora do comum. Carlos Mané demonstrou de uma vez por todas, ontem, que merece a oportunidade proporcionada pelo “Mister” Jardim, e mesmo depois do golo não se deslumbrou, jogando com responsabilidade, pondo a equipa sempre à frente do seu benefício pessoal. Este “puto” tem tudo para ser como todos os outros jogadores que referi anteriormente, e não tenho dúvidas de que dentro de alguns meses passará de uma promessa a uma clara afirmação.

É impressionante o reportório de extremos de nível mundial saídos da fábrica de Alcochete. Enumerei nove, mas podiam ter sido mais, não fossem algumas decepções como Fábio Paím, Edgar Marcelino, Vasco Matos, David Caiado ou Diogo Salomão. Espero e acredito que esta saga em busca do extremo perfeito não termine, e aposto em Iuri Medeiros como protagonista do próximo capítulo.

“Não podemos ter receio de lançar os nossos talentos” – concordo com o mister. Afinal são eles que têm escrito a História do futebol…

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