sexto violino

O Sporting está a dez pontos do líder. Não sei se os jogadores se ressentem dos jogos a meio da semana por não estarem habituados, se só jogam quando sabem que a Europa está de olho neles ou se, simplesmente, não são tão bons como se quer fazer crer. Mas não irei falar das incidências da partida com o Moreirense. Farei antes, e perdoem-me os mais impressionáveis ou os mais crentes, uma espécie de “exorcismo” de algo que já me vem apoquentando há algum tempo: o próprio ADN dos Sportinguistas ou, por outras palavras, “a massa de que somos feitos”.

Por norma não gosto de pôr todos os adeptos de um clube no mesmo saco. Há pessoas tão diferentes entre si, tanto em termos de idade como de origem social, de grau de envolvimento com a “causa”, de convicções religiosas, políticas, etc., que se tornaria artificial e até ridículo fazê-lo. Contudo, há certas coisas que me fazem confusão em adeptos do Sporting – não digo que sejam todos porque isso seria entrar numa generalização que não corresponde à verdade, mas é um número considerável e com relevância suficiente para ser mencionado. Falo da forma como lidamos com os nossos sucessos e fracassos e do modo como olhamos para os nossos rivais, sobretudo o Benfica.

Enquanto Sportinguista, no futebol há poucas coisas de que gosto menos do que do Benfica. E, se não nos restringirmos ao desporto, isto continua a ser verdade. É normal, faz parte daquilo que é uma rivalidade, a maior de um país. Esta atitude, claro está, também existe de benfiquistas face a Sportinguistas, por muito que aqueles gostassem que a sua máxima “o maior clube em Portugal é o Benfica e o segundo é o anti-Benfica” fosse verdadeira. Mas há coisas que me ultrapassam. Chego à conclusão de que há adeptos do meu clube que têm um complexo mal resolvido com o rival, complexo esse que, a meu ver, começa na falta de conquistas por que a secção de futebol se tem pautado nas últimas (já largas) décadas.

O Sporting já não é campeão há quase 13 anos. Antes disso, tinha cumprido 18 anos de seca. Se excluirmos os dois últimos títulos nacionais, temos de recuar a 1982 para podermos falar de um Sporting dominador em Portugal. É verdade que o poder no futebol é hegemonizado por dois clubes, Porto e Benfica, que têm muito mais influência de bastidores do que o Sporting, com tudo o que isso implica. Não reconhecer isto é não ser sério. É também verdade que se o Sporting, enquanto único clube grande que não tem o poder do futebol nas suas mãos, não fosse o principal prejudicado desta bipolarização do desporto-rei português, muito provavelmente teria ganho mais campeonatos nos últimos anos – nomeadamente em 03/04 (em que se descobriram escutas com indicações de que o Sporting “era o clube para martelar”, e que acabaram arquivadas), em 04/05 (onde, para além do polémico e tão badalado golo de Luisão, houve também um jogo com o Braga, muito menos comentado e que terminou 0-0, em que a equipa de Alvalade marcou um golo mal anulado) ou em 06/07 (o célebre ano da “mão de Ronny”, um golo cuja validação seria impensável reproduzir no Dragão ou na Luz). Mas o certo é que os anos de seca foram-se estendendo no tempo, bem como o período negro de direcções suicidas. Com eles, agudizou-se o abastardamento de alguns sectores Sportinguistas.

Anúncio Publicitário
bdc
Bruno de Carvalho (esq.) tem marcado uma era no Sporting, mas terá de adaptar o seu discurso à realidade
Fonte: Facebook do Sporting CP

A realidade do clube merece uma reflexão profunda e isso, a meu ver, terá de começar pelos próprios adeptos. Tal reflexão passará por admitir, com humildade, que o Sporting não é um clube ganhador. Não terá de ser sempre assim, nem esta é de modo nenhum a sentença que o destino nos traçou (embora às vezes pareça). Mas é a nossa realidade. Se é verdade que, no que toca ao universo desportivo, continuamos a ser a maior potência nacional e uma das maiores do planeta, esse facto não pode servir para nos atirar areia para os olhos. O que os Sportinguistas mais querem, mesmo os que, como eu, seguem e vibram com as modalidades, são títulos no futebol. Se estes não aparecem, tanto por razões desportivas como pelos motivos extra-desportivos já indicados, o pior que podemos fazer a nós próprios é fingir que está tudo bem, ao mesmo tempo que damos provas do contrário de cada vez que nos contentamos com ninharias desportivas ou consagramos ao Benfica mais importância do que eles merecem e a rivalidade exige.

Que sentido faz celebrarmos, em 2014, os 7-1 de 1986/87, como se de um título se tratasse? Saberão os Sportinguistas que nessa época ficámos em 4º lugar, mais próximos do Chaves e do Varzim do que do campeão Benfica? Oiço os benfiquistas falar menos dos 3-6 de 1994 em Alvalade, um jogo que por sinal praticamente lhes deu o título. Que sentido faz empatar com o Moreirense e ainda ter coragem para gozar com o facto de o Benfica estar fora da Europa, como vi acontecer? Que sentido faz testemunhar que o cântico com melhor adesão nas bancadas de Alvalade tem na letra “graças a deus não nasci lampião” – na última semana foi entoado no Chelsea-Sporting! – e que se responda invariavelmente a quem critique a música que está a ser obcecado porque esta só fala deles “de passagem”? Terão os Sportinguistas presente que um adepto nascido em 1966 (terá hoje, portanto, 48 anos) só viu o clube ser campeão 6 vezes, menos do que qualquer adolescente portista? E que, apesar de obviamente ser sempre um motivo de orgulho, a famosa formação já deu mais a ganhar aos rivais directos do que a nós próprios?

Urge mudar tudo isto, para bem do próprio Sporting. É certo que o clube passa hoje por uma situação de lenta regeneração, mas o varrer as contrariedades para debaixo do tapete e as invejazinhas bacocas de um rival que, de resto, também já viu melhores dias, não ajudam nada. Assim como não ajuda a postura de Bruno de Carvalho, cuja vitória nas eleições continuo a achar ter sido das melhores coisas que aconteceram ao clube mas que não é imune à crítica, quando diz coisas como [há clubes] que acham que são grandes, uns que gostariam de ser grandes, e depois há um que é grande, que é o Sporting Clube de Portugal”. O perigo de tudo isto é cair-se no ridículo e, pior, perder-se de vista os principais problemas do Sporting.

Como é óbvio, o Sportinguismo não deve crescer nem diminuir ao sabor das conquistas ou da falta delas. Da minha parte, amarei de igual forma o meu clube tanto na Liga dos Campeões como na Distrital (e na Distrital talvez a obsessão e a irracionalidade até crescessem…). Mas tenho, e temos todos, o dever de não perder a realidade de vista. E ela, quer queiramos quer não, diz-nos que perdemos o comboio, e que demorará bastante tempo até que chegue o próximo. É por isso que digo com todas as letras: no futebol, somos actualmente o terceiro clube português, e talvez o continuemos a ser nos próximos anos largos.

Sei que é duro ler isto, tal como para mim também o é escrever. Mas assumi-lo é, parece-me, não só fazer as pazes com a verdade, como também preparar caminho para o possível sucesso futuro. É a expulsão dos nossos demónios interiores (leia-se irracionalidade, “clubite aguda”, etc.), que muitas vezes nos impedem de aceitar a realidade e, portanto, de procurar soluções que a alterem. É por isso que glorificar goleadas antigas, esquecer insucessos recentes ou dedicar músicas ao maior rival em jogos que não sejam contra eles são caminhos a evitar. Que continuem os tradicionais “picanços” com os rivais, mas sempre tendo presente a nossa posição delicada nos dias que correm  – e que, se olharmos para as últimas décadas, já não é propriamente um dado novo. Se já somos os terceiros no palmarés futebolístico, não o queiramos ser também na mentalidade.

 

As fotos foram retiradas do Facebook Oficial do Sporting CP

Artigo anteriorMais banhada do que banho
Próximo artigoA glória da adversidade
O João Sousa anseia pelo dia em que os sportinguistas materializem o orgulho que têm no ecletismo do clube numa afluência massiva às modalidades. Porque, segundo ele, elas são uma parte importantíssima da identidade do clube. Deseja ardentemente a construção de um pavilhão e defende a aposta nos futebolistas da casa, enquadrados por 2 ou 3 jogadores de nível internacional que permitam lutar por títulos. Bate-se por um Sporting sério, organizado e vencedor.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.