Faça-se justiça a Aurélio Pereira

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Em 1988, o treinador inglês Keith Burkinshaw chegou ao Sporting e contratou um compatriota para orientar as camadas jovens, pelo que Aurélio Pereira abandonou essas funções e passou a dedicar-se em exclusivo à prospecção. O olheiro do Sporting foi pioneiro em Portugal, e nem as dificuldades logísticas o demoveram: Pedi na secretaria do clube os nomes e moradas de todos os sócios do Sporting. Estamos a falar de 60 mil pessoas, ou mais! Enviei, a todos eles, uma carta a pedir nomes de possíveis talentos na sua área de residência que pudessem interessar ao Sporting. Era eu que levava aquilo tudo no carro para casa e que estava com as minhas filhas a organizar, a colar, e tal. Estávamos nisto todos os dias até às «quinhentas»… Deu um trabalho enorme, mas foi sempre tudo feito com paixão. E qual não foi o meu espanto quando certo dia me vieram dizer: «Sr. Aurélio, nem imagina! Estão ali centenas de respostas!» Esperámos até que parassem de enviar, tivemos de seleccionar 30 ou 40 pessoas por distrito – aquelas que nos pareciam mais interessantes – e eu liguei-lhes para reunir informação. Depois, eu ou outra pessoa deslocávamo-nos até lá.”. Foram a paixão, a persistência e o brio de Aurélio Pereira, secundados mais tarde por uma equipa cada vez mais profissional, que mudaram para sempre não só o Sporting mas também o futebol português – e até mundial, se nos lembrarmos de Cristiano Ronaldo. É por isso que é imperativo que o pioneiro da detecção de talentos futebolísticos em Portugal seja homenageado pela selecção e por todos. Isto vai muito para lá de questões clubísticas.

aurelio pereira
Aurélio Pereira foi entrevistado pelo Bola na Rede (a entrevista que se cita no texto não é a mesma)

Quanto ao Sporting, um clube não pode viver só dos méritos da sua formação, é certo. Nem é esse o Sporting que quero. Mas o tempo em que este era o único consolo dos Sportinguistas também já ficou para trás. Ao mesmo tempo, esta questão também não é tão pouco importante como alguns rivais por vezes querem fazer supor. Piadas como as que dão início a este artigo, bem como o incómodo de José Marinho, de Jorge Mendes e de alguns adeptos rivais, são a maior prova da importância de se apostar na formação de jovens atletas, como o Sporting faz e fez de forma pioneira em Portugal.

E não, José Marinho, ninguém quer “à força toda transformar a vitória de Portugal numa outra vitória”. A vitória de Portugal é de Portugal, e é assim que deve ser celebrada. Queremos simplesmente dar mérito a quem o tem, e é normal que se fale mais de um clube que forneceu 10 jogadores à melhor campanha de sempre da selecção do que de um que apenas tenha dado dois, um ou nenhum. Queremos evocar aqueles que diziam que com jogadores do Sporting a selecção nunca conseguiria nada (e que agora dizem que “essas coisas da formação não interessam”, que “é uma vitória de Portugal”, que “os lagartos são ridículos por ligarem a isto”, etc.), mostrando com orgulho que estavam errados. Queremos poder falar à vontade de um tema importante, sem que haja um José Marinho a fazer disso tabu. Queremos, no fundo, exaltar uma faceta importante desta selecção, que estará para sempre ligada ao sucesso da Academia Sporting, e homenagear Aurélio Pereira, a figura mais visível de um trabalho de décadas, muitas vezes feito por amor ao clube e à profissão, e que deve ser reconhecido e aclamado por todos.

Enche-me de orgulho ter tido 10 jogadores da formação do meu clube no lote de 23 (não esquecendo Eric Dier, titular da selecção inglesa), que, desses 10, todos tenham jogado a final (!), que 8 desses 10 tenham sido titulares no jogo decisivo (!!), que 4 desses 10 ainda joguem no Sporting e que um dos 10 da formação seja o melhor jogador português de sempre e um dos melhores futebolistas de todos os tempos. É por tudo isto que, depois d´Os Magriços e d’Os Patrícios, baptizar esta selecção como Os Aurélios é uma bonita e carinhosa homenagem ao departamento de prospecção do Sporting, e em particular a Aurélio Pereira. Ninguém consegue imaginar uma selecção portuguesa sem este trabalho pioneiro – ou, pelo menos, uma selecção portuguesa com capacidade para ser campeã da Europa, como esta foi. Faça-se, portanto, justiça a Aurélio Pereira, o mais antigo olheiro de futebol do país. Esta taça também é dele.

Redação BnR
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