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Desde a época de 1973/74 até hoje o Sporting só foi campeão nacional de seniores por cinco vezes. Entre essa mesma data e a temporada de 2003/04, os leões festejaram o título de juniores por quatro vezes. Tanto num caso como no outro, é manifestamente pouco. Mas não se pode analisar o primeiro caso nos mesmos moldes com que se interpreta o segundo. No que diz respeito aos seniores, a falta de títulos deve-se a vários fenómenos – as décadas de corrupção portista, os anos de direcções incompetentes, a falta de qualidade de alguns plantéis, etc. – com que todos os Sportinguistas estão familiarizados. Já a realidade das camadas jovens deve ser olhada sob um outro prisma.

Este ano, apesar de ainda não haver campeões em nenhum escalão, o Benfica tem-se superiorizado ao Sporting tanto em juniores como em juvenis e iniciados. Na última sexta-feira, o clube da Luz despachou o Real Madrid (4-0) na recém-criada UEFA Youth League, tendo depois perdido na final com o Barcelona (0-3). Os leões, por seu turno, ocupam o 3º lugar do Campeonato Nacional de Juniores, atrás do Braga e a cinco pontos dos encarnados. Nos juvenis, a 2ª fase da Zona Sul terminou com o Benfica em primeiro (27 pontos) e o Sporting em segundo (20); no que toca aos iniciados, a mesma fase da competição viu as águias terminarem com três pontos de avanço face aos leões (27 pontos contra 24).

Será isto motivo para alarme? Na minha opinião, não. Por uma razão muito simples: tal como a designação indica, o principal objectivo da formação não é ganhar títulos, mas sim descobrir, educar, trabalhar e polir os craques do futuro. Fazendo aqui um paralelismo com outros sectores da sociedade, sempre me irritaram os analistas para quem os números significam tudo. Essas pessoas são capazes de dizer, por exemplo, que os tempos difíceis de Portugal já fazem parte do passado, quando todos os dias a realidade se encarrega de os desmentir. No caso do futebol de formação é idêntico: face aos bons resultados destas temporadas, muitos adeptos do clube da Luz – e até o próprio treinador principal, com a humildade que o caracteriza – têm vindo a reclamar o estatuto de “melhor formação de Portugal”. Porém, acontece que estes benfiquistas cometem a proeza de errar duplamente: segundo o seu argumento meramente “matemático”, a melhor formação de Portugal é o Porto (56 campeonatos, somando juniores, juvenis, iniciados e infantis, contra 49 do Benfica e 41 do Sporting); se, por outro lado, o epíteto de “melhor formação do país” couber ao clube que mais craques deu ao futebol português e mundial, como defendo, aí nem é preciso dizer quem lidera isolado.

João Mário será um dos próximos valores a despontar no Sporting, já a partir da próxima época  Fonte: Zerozero
João Mário será um dos próximos valores a despontar no Sporting, já a partir da próxima época
Fonte: Zerozero

Nesse período entre 1973 e 2004, o Sporting conquistou os tais quatro campeonatos de juniores, por oposição aos oito do Benfica e aos 12 do Porto. Aliás, até o Boavista festejou o mesmo número de vezes que o clube de Alvalade. Quer isto dizer que a formação do Sporting é inferior às dos rivais e é equiparável à do Boavista? Só alguém mal-intencionado poderá afirmar tal coisa. Durante esses pouco mais de 30 anos, os leões lançaram para a ribalta do futebol mundial nomes como Futre, Figo, Simão, Quaresma, Cristiano Ronaldo, Nani e Moutinho. O Benfica, por seu turno, produziu Rui Costa, Paulo Sousa e João Pereira, enquanto o Porto terá em Fernando Couto e Bruno Alves porventura os únicos atletas dignos de registo. Até o Boavista forneceu alguns nomes que nada ficam a dever aos de Benfica e Porto – casos de João Pinto, Petit, Nuno Gomes, Bosingwa e Raul Meireles. Quererá isto dizer que os axadrezados têm uma formação superior às dos dragões e águias? Claro que não. Mas deveria ser suficiente para os adeptos e responsáveis do Benfica pensarem duas vezes antes de se autoproclamarem os novos “reis das camadas jovens”.

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A superioridade do Sporting neste capítulo está patente, aliás, no facto de muitos pais e mães benfiquistas preferirem confiar os filhos ao clube de Alvalade do que ao emblema do seu coração. Mesmo sendo adeptos de um clube rival, sabem que no Sporting a aposta nos jovens é séria, sistemática e frutuosa. É também por isso que quando, há uns meses, o Benfica passou a ser o clube mais representado nas selecções jovens, esse facto foi notícia de jornal. É uma realidade estranha, e todos o sabem. Não gosto de pegar num caso específico para depois o extrapolar, mas aqui fá-lo-ei porque penso que é elucidativo: para quem não sabe ou não se lembra, João Moutinho era invariavelmente suplente de João Coimbra nas selecções jovens. Hoje, o ex-Benfica está no Estoril e raramente joga; o ex-Sporting tem lugar cativo no onze da Selecção Nacional. Claro que o Sporting se deve manter alerta e não se deixar ultrapassar, ainda que não acredite que isso vá acontecer tão cedo.

Há pouco referi que uma das tarefas dos clubes formadores é educarem os seus atletas. Nesse sentido, o nome de João Moutinho serve de mote para abordar um assunto que me preocupa bem mais do que a classificação das equipas jovens do Sporting: a questão da formação pessoal. Bem sei que os futebolistas são profissionais e que, nesse sentido, procuram as melhores opções para as suas carreiras. Também não ignoro que os leões são o clube que forma mais e melhores atletas, havendo por isso uma maior probabilidade de alguns deles virem a jogar no Benfica ou no Porto. Mas tem de se incutir em todos aqueles “miúdos” que representar esses clubes é pior do que roubar uma carteira a uma velhinha. São os nossos rivais, portanto jogar por algum deles é trair e defraudar o clube que fez deles jogadores. O Sporting não pode continuar a formar atletas para a concorrência. Bruno de Carvalho parece já ter tomado medidas nesse sentido, como é exemplo a cláusula que impede Bruma de ingressar no Benfica e no Porto até 2018.

O Sporting é o único clube do Mundo que formou dois Bolas de Ouro: Luís Figo (2001) e Cristiano Ronaldo (2008 e 2013)
O Sporting é um dos únicos clubes do Mundo que formaram dois Bolas de Ouro: Luís Figo (2001) e Cristiano Ronaldo (2008 e 2013)

Ainda a respeito dos títulos, claro que estaria a mentir se dissesse que tanto me faz se o Sporting ganha ou não campeonatos nas camadas jovens. É óbvio que prefiro ganhar, mas esse objectivo não é nem de perto nem de longe o mais importante. A este propósito, Carlos Mané afirma, na penúltima edição do Jornal Sporting, que “a equipa B não serve para ganhar campeonatos, mas sim para formar jogadores”. Mais do que a ânsia de incutir um espírito ultra-competitivo em adolescentes, é este modo de ver as coisas que deve imperar em Alvalade. Relativamente ao clube da Luz, tenho para mim que ou Luís Filipe Vieira está implicitamente a dar razão a Bruno de Carvalho no que diz respeito ao desinvestimento que o Benfica terá de fazer (vendo-se obrigado a apostar mais nas camadas jovens), ou os tão propalados “60 ou 70%” de jogadores da formação no plantel principal dos encarnados em 2020 nunca serão mais do que um devaneio.

Termino com uma observação: há dois anos entrevistei Aurélio Pereira, responsável máximo do Departamento de Prospecção do Sporting. Em conversa, esta figura emblemática do futebol nacional disse-me que tinha recebido um homólogo seu do Barcelona poucos dias antes, tendo o catalão afirmado que a única diferença entre as formações do Sporting e do Barcelona é que os culés têm a capacidade financeira para segurar as suas pérolas e, assim, poder construir equipas fenomenais. Dito isto, pouco mais haverá a acrescentar. O problema é que, tal como acontece na discussão sobre quem é o melhor futebolista português de todos os tempos, também no que diz respeito à melhor formação do país só em Portugal é que parece haver margem para dúvidas. Se, lá fora, a ideia de que Cristiano Ronaldo é não só o melhor jogador português de sempre mas também um dos melhores executantes que o futebol mundial já viu parece ter cada vez mais adeptos, por cá há quem ainda insista que Eusébio é superior. Da mesma forma, basta um ano de bom nível do Benfica para todo o trabalho da formação do Sporting ser colocado em causa, inclusive por alguns Sportinguistas. Pela minha parte, se estiver errado, cá estarei daqui a uns tempos para o reconhecer. Mas há que olhar para a realidade, e ela recorda-nos que a formação do Sporting continua a fornecer à equipa principal inúmeros jogadores – só este ano, Patrício, Cédric, Dier, William Carvalho, André Martins, Adrien, Mané e Wilson Eduardo desempenharam um papel importantíssimo. Já o Benfica tem em Sílvio e Ivan Cavaleiro crónicos suplentes, os únicos exemplos de atletas das camadas jovens – isto num clube em que nenhum jogador português marca um golo para o campeonato desde 27 de Outubro de 2012. Quando a diferença em termos de qualidade e aproveitamento na formação é tão gritante, só apetece dizer: há realmente dúvidas sobre quem é o melhor?

P.S.: escolhi analisar as épocas apenas até 2004 porque esse período coincide com os anos de menor fulgor do Sporting em termos de títulos nas camadas jovens. Ainda assim, a quantidade de grandes jogadores saídos da formação do clube é impressionante. De 2004 para cá, em nove campeonatos possíveis, o Sporting ganhou seis. Mais um facto que não favorece os argumentos benfiquistas…

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O João Sousa anseia pelo dia em que os sportinguistas materializem o orgulho que têm no ecletismo do clube numa afluência massiva às modalidades. Porque, segundo ele, elas são uma parte importantíssima da identidade do clube. Deseja ardentemente a construção de um pavilhão e defende a aposta nos futebolistas da casa, enquadrados por 2 ou 3 jogadores de nível internacional que permitam lutar por títulos. Bate-se por um Sporting sério, organizado e vencedor.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.