A identidade do Sporting sempre assentou no ecletismo, que foi sendo desmantelado desde Roquette até 2013. Nesse período, tirando vitórias em Atletismo e Ténis de Mesa, nada alicerçava esta “teoria” que muitos Sportinguistas usavam (incluindo eu) para argumentar contra a falta de vitórias no futebol. A verdade é que esse ecletismo durante muitos anos começou a ser esquecido, tentando apostar-se tudo no futebol, e destruindo por completo o ADN do Sporting Clube de Portugal. Foi quando se demoliu a Nave de Alvalade, sem haver projecto para a substituir, que se percebeu que a identidade do clube estava a mudar. As prioridades estavam a mudar.

Por muito que se diga que o futebol é o que suporta financeiramente um clube, e movimenta as massas (adeptas), e concordando eu que muitos adeptos e sócios o são apenas por causa do futebol, têm sido, desde há muitos anos, os títulos nacionais e internacionais ganhos pelas modalidades. que têm mantido a chama acesa (não devia escrever isto, que parece um lema de outro clube) e ainda mantém os adeptos e sócios ligados ao clube.

Mesmo os que dizem que o que importa é o futebol, com certeza não ficam indiferentes quando o seu clube ganha uma competição internacional em Andebol, Hóquei em Patins, Atletismo, Futsal ou mesmo quando estas equipas têm grandes vitórias internas. E é isso que mantém o nosso clube com o título de massa adepta mais fiel, apesar dos longos anos sem vitórias no futebol.

É o futebol que atrai, mas são as modalidades que fidelizam. Pelo menos no nosso clube. Porque se não fosse assim, não acredito que o Sporting se mantivesse tão vivo em termos de associados. O Sporting não é um clube “da terra” em que os adeptos apoiam por ser o clube de uma vila, aldeia ou cidade. O Sporting tem adeptos e sócios em todos os cantos do país e do mundo. Os adeptos e sócios do Sporting são-no porque se identificam verdadeiramente com valores que existem neste e não em qualquer outro clube.

Isto porque o Sporting foi criado para ser “um clube tão grande como os maiores da Europa”. Não foi para ser um clube de futebol tão grande como os maiores da Europa. E felizmente depois de termos passado a ser, voltamos a deixar de ser apenas e só um clube de futebol. E nos últimos 20 anos, ou mais, só houve uma direção que resgatou essa identidade. A de Bruno de Carvalho. Depois disso já ganhámos vários títulos nacionais e internacionais. Também o podíamos ter conseguido no futebol, se tivesse havido o mesmo compromisso, de atletas e técnicos, como houve e há nas modalidades. Mas surgiram suores frios e outras condicionantes que não o permitiram.

A identidade Sporting é algo que extravasa o estádio de Alvalade
Fonte: Sporting CP

Assim, se pensarmos bem, porque nós ainda pensamos pela nossa cabeça, o que alguns “opinion makers” (curiosamente ligados a clubes rivais) ou “notáveis” (curiosamente ligados ao Sporting) dizem não tem qualquer sentido quando afirmam que Bruno de Carvalho destruiu a identidade do Sporting. Com certeza não é com má intenção que o fazem. Talvez seja apenas por desconhecerem a verdadeira identidade do clube leonino. É normal que desconheçam, uma vez que se regem por valores que em nada representam o Sporting (felizmente).

Não foi no tempo de Bruno de Carvalho que vimos um estádio meio cheio. Não foi no tempo de Bruno de Carvalho que vimos claques do mesmo clube a agredirem-se (um dos lemas da atual direção é Unir o Sporting). E nem vou falar em termos financeiros, porque aparece logo quem diga que as despesas de agora foram feitas anteriormente. Curiosamente, a direção de Bruno de Carvalho herdou uma situação bem mais grave que a apresentada agora, o que leva a pensar que se quando Bruno de Carvalho saiu, deixou problemas financeiros por resolver, mas não tantos como os que herdou, aliás mostrou que se fez alguma recuperação. (Ai se aquela reestruturação financeira se tivesse concretizado. Mas de certeza que a culpa também foi de Bruno de Carvalho). (Já se vão ouvindo vozes e saindo algumas opiniões de como seria bom vender o Sporting. Tudo ocasional e sem objectivos. Apenas opiniões de populares.)

Mas foi no tempo de Bruno de Carvalho que voltámos a vibrar com grandes vitórias do Hóquei, do Andebol, do Futsal. Tudo isto dentro de um pavilhão nosso. E por acaso foi também no tempo de Bruno de Carvalho que vi a maior comunhão dos adeptos com o clube, depois de muitos anos em que éramos apenas adeptos resignados, em que por cada época que recomeçava se gerava o sentimento inicial de “este ano é que é” e terminava em  “para o ano é que vai ser”, muito antes do fim dos campeonatos.

Dito isto, devo dizer que não queria mais falar de Bruno de Carvalho, mas não consigo ficar calado com tamanhos desplantes . Porque podem culpar o homem de muita coisa, mas não o podem culpar de tudo o que de mal acontece. É só estúpido, principalmente para quem ouve, aceita e replica. Deixemos o homem em paz. Esperemos que seja julgado (raio do julgamento nunca mais sai para prenderem o homem. Se calhar não podem). Vamos deixar que a actual direção faça, pelo menos, tão bem como a anterior.

Tenho estado a dar o beneficio da dúvida, mas começo a pensar em sentar-me que já me estou a cansar. Entretanto aguardemos. Estaremos atentos, como diria alguém.

Foto de Capa: Sporting CP

artigo revisto por: Ana Ferreira

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