sporting cp cabeçalho 1

Sejamos sinceros: há muito tempo que o Sporting Clube de Portugal apresentava défices de qualidade nos seus pilares defensivos, com apostas persistentes em atletas subjetivamente medianos e/ou medíocres que, previsivelmente, resultariam em passagens curtas por Alvalade face à diferença de amplitude entre o desempenho pretendido e o obtido. É obvio que esta situação irá originar numa remodelação constante do plantel ano após ano, um modelo de gestão altamente insustentável para as contas do Clube, mas de alta rentabilidade para os comissionistas empresariais do futebol.

Aliás, é preciso recuar ao verão da longuincua época 2003/2004 orientada pelo treinador Fernando Santos, para recordar a transferência sonante de um defesa internacional brasileiro de 24 anos, jogador que tinha feito parte da comitiva vencedora do Mundial’02 na Coreia/Japão, o Brasil de Ronaldo “o fenómeno”, Roberto Carlos e Ronaldinho.  Falo, claro, de Anderson Polga, o primeiro futebolista campeão mundial a atuar nos planos lusitanos. O brasileiro rapidamente assumiu a batuta defensiva do Sporting Clube de Portugal e acabaria por se tornar num dos melhores centrais do sector recuado leonino desde o inicio do melénio, tendo protaginizado notórios 342 jogos de leão ao peito em nove temporadas desportivas.

Face à introdução do artigo, podemos concluir que Anderson Polga foi uma carta fora do baralho da mediocridade, a aquisição do jogador fugiu ao critério das políticas das contratações do Sporting Clube de Portugal e nunca teve um companheiro à sua altura durante os noves anos de verde e branco.

Tal como em 2003, esta época o Sporting Clube de Portugal voltou a fugir da sua política e apostou realmente no que interessa: no verão convenceu o internacional francês de 33 anos, com oito anos de futebol espanhol ao mais alto nível, três dos últimos em Barcelona a lidar diariamente com a irreverencia e drible de Neymar, Messi e Suárez, para se juntar ao plantel leonino a custo zero até 2020. Aliás, a aquisição de Jérémy Mathieu veio, finalmente, revogar a máxima da aposta em defesas centrais pouco promissores, que era seguida religiosamente pelas direções do Sporting Clube de Portugal sempre que o mercado de transferências abria.

Contudo, o que difere dos anos anteriores é que esta época já lá mora Sebastian Coates, titular e patrão indiscutível na defesa, internacional uruguaio de 27 anos e ex-Liverpool que o adquiriu com 20 anos de idade no verão de 2011 ao Nacional de Montevideu por 8 milhões de euros e que na época transata teve muitas dores de cabeça ao compensar as falhas de Ruben Semedo.
O mesmo que foi vendido no verão passado ao Villareal por uns disparatados 14 milhões de euros.

Sebastian Coates bem pode agradecer esta prenda da Administração Leonina até 2020, pois Jérémy Mathieu veio para o Sporting Clube de Portugal acrescentar ainda mais qualidade e firmeza ao sector recuado, elevando o mesmo para o topo do futebol nacional.

Sejamos sinceros: a aquisição do Jérémy Mathieu podia ter sido um tiro no pé. O internacional francês de 1,89 metros assinou pelos leões com 33 anos de idade, com uma utilização decrescente no Barcelona, um historial nada agradável de problemas musculares, principalmente no tendão de Aquiles, e aufere um vencimento anual muito significativo na folha salarial leonina: quatro milhões de euros brutos. Para terem uma ideia das lesões de Jérémy Mathieu, em três anos do Barcelona esteve 313 dias entregue ao departamento clínico catalão, o que lhe custou uns incríveis 46 jogos de fora da convocatória, o que poderia indicar que o francês viria para Lisboa usufruir de um contrato de “pré-reforma”.

Mathieu tem feito uma dupla de aço com Coates Fonte: Sporting Clube de Portugal
Mathieu tem feito uma dupla de aço com Coates
Fonte: Sporting Clube de Portugal

O que não podia estar mais errado: Jérémy Mathieu não é desse tipo de jogador e a sua atitude em campo reflete por completo a sua ambição e motivação para continuar a vencer todos os jogos. Jérémy Mathieu, com os seus 34 anos realizados em meados de outubro, continua a impressionar o Treinador, os seus colegas de balneário e os seus adversários com a sua impressionante capacidade física, atributo que já lhe era reconhecido desde que era utilizado a lateral esquerdo no modesto Sochaux, numa altura que ainda militava a League 1.

O francês nascido na cidade de Luxeuil-les-Bains é um verdadeiro exemplo a seguir para os atletas das camadas jovens e para o restante plantel do Sporting Clube de Portugal pela sua mentalidade vencedora e perseverança na soma dos três pontos, carregando consigo um estatuto respeitável e um palmarés com títulos internacionais: uma Champions League, uma supertaça europeia, um Campeonato do Mundo de Clubes, duas ligas espanholas e algumas taças nacionais. É um jogador que possui uma vontade constante de mostrar serviço de leão ao peito, clube que apostou nele numa fase esperada de declínio de rendimento. Mas será esse declínio evidente?

Não. E os adeptos sabem disso.

Jérémy Mathieu tem a capacidade e uma frescura física de um “puto” de 18 anos acabadinho de sair da equipa dos juniores, é muito forte na recuperação posicional e com qualidades defensivas muito acima da média para o nosso campeonato português, executando exibições positivas e com muito critério, com uma leitura muito eficiente das quebras de jogo da equipa e sabe perfeitamente quando tem que ser ele a transportar a bola desenfreadamente pela linha, criando situações de desequilibro. Além disso, é mais uma aquisição de excelência para a conversão das bolas paradas, tendo já feito o gosto ao pé num livre direto frente ao Tondela, não tendo dado hipóteses de defesa ao guarda-redes Cláudio Ramos.

Sejamos sinceros: se o francês continuar com este ritmo até ao final do contrato, arrisca-se a ser considerado um dos melhores centrais que vestiu a camisola verde e branca, apesar de já se encontrar em final de carreira o que, na minha opinião, é algo preocupante: esta possibilidade deverá permitir retirar algumas elações relativamente à política de contratação de defesas centrais do Sporting Clube de Portugal.

Porém, tal como a célebre citação do Sir Winston Churchill, político conservador e primeiro-ministro inglês, O sucesso consiste em ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo” aplica-se perfeitamente ao assunto: os erros acumulados e a aprendizagem deles permitiram chegarmos ao sucesso. E que sucesso.

Velhos são os trapos.

Fotode capa: Sporting Clube de Portugal

 

 

Comentários