Os ídolos nunca saem de cena – Entrevista a João Benedito

    BnR: Na entrevista de há cinco atrás, um dos momentos que nos cativou foi quando disseste que foste ver um jogo a Alvalade e viste o Rui Patrício ser assobiado. A primeira coisa que fizeste foi pedir o número dele para falares com ele. Agora o Rui foi nomeado para a Bola de Ouro, algo que não acontecia a um jogador da liga portuguesa há nove anos, ainda por cima sendo guarda-redes. Tu, como sportinguista que és, e tendo assistido ao crescimento do Rui, sendo também tu um guarda-redes e uma figura do Sporting, qual o sentimento que tens ao ver o Rui nomeado para os trinta melhores jogadores do mundo?

    JB: O facto de um guarda-redes estar nos trinta melhores jogadores de futebol do mundo é já uma grande vitória. É difícil, como é lógico, ver um guarda-redes a conquistar esse prémio. Mas acho que a base de todo este sucesso e este orgulho que nós, hoje em dia, temos na referência que está na baliza do Sporting se deve a um percurso não de raivas mas sim de trabalho, porque ser assobiado em casa, seja para o atleta, para a equipa, o treinador ou o diretor, é algo semelhante a chegares a casa depois do trabalho e a tua mulher, ou a tua família, não te dar aquele apoio de que tu necessitas. Não acredito que alguém dentro do campo faça de propósito para errar ou não dê o máximo, ou não queira agradar aos adeptos. Há casos individuais, mas aquelas ovelhas negras tem sempre tendência para sair do rebanho. E, aí, há alguém que os tira ou os põe no sítio. Acho que este percurso do Rui Patrício não foi baseado nessa raiva do assobio, do “Toma lá, estão a ver como consegui?”. O Rui focou-se no trabalho e faz muito bem; tenho muito orgulho em que esteja ali uma pessoa na equipa do Sporting que possa ser uma referência, quer em termos desportivos como em termos sociais, a abdicar de outras propostas que tenha para poder sair. Ele abdica mas também se nota o esforço do clube para o manter, e acho que o Rui Patrício continua no Sporting por vontade dele.

    BnR: Tu também trabalhaste com muitos jovens. Atualmente o Sporting tem o Marcão, mas depois tem também o Gonçalo Portugal. Vês o Gonçalo como alguém com potencial para assumir no futuro a baliza do Sporting e da seleção?

    JB: Não sei, não tenho atestado a evolução, não sei quais os planos do clube para o atleta. Acho que existem muitos bons valores para a posição de guarda-redes em Portugal, dada a competitividade. Para além dos jogos normais, a qualidade de qualquer atleta tem de ser avaliada nas decisões, quando estão sob pressão, e aí ha que perceber se são efetivamente bons, se têm um interior e uma forma de estar ganhadores. Tudo o resto é estar a tentar prever coisas que são imprevisíveis.

    Retirado da alta competição, João Benedito pensa agora experimentar alguns desportos radicais
    Retirado da alta competição, João Benedito pensa agora em experimentar alguns desportos radicais

    BnR: Quem para ti é o melhor jogador do campeonato português, e também do Mundo?

    JB: Assim como eu disse para a parte dos ídolos, há sempre jogadores muito bons para várias posições. Há pessoas que eu gostei muito de ver jogar, pessoas que me dizem bastante. Estar a falar de alguém que esteja ainda no ativo é um bocadinho redutor para as pessoas que eu conheço e depois, se calhar, ainda se chateiam comigo os outros todos (risos). Mas posso destacar, em termos de jogadores que já deixaram de jogar, que gostei muito de jogar com o Pedro Costa. Havia um pivô na Ucrânia, que era o Koridze, que era um goleador nato, que me marcava golos de todo o lado, de todas as maneiras e feitios. Prefiro ver o que está para trás. Nós estamos num patamar em que a necessidade de encontrar o melhor, o Deus, o atleta, o número 1, tolda-nos o raciocínio e cega-nos em relação a percebermos que, se calhar, dois números 2 juntos são melhores que um número 1. É assim que se começa a fazer as equipas. Esta cultura que está enraizada hoje em dia, de ter o melhor, incapacita-nos em relação a ver outras promessas, outros atletas que sejam tão bons. Ponham o Ronaldo e o Messi, e coloquem-nos numa equipa de terceira divisão, e eles não vão ganhar a Champions, não vão ter o protagonismo que têm. Tem de haver referências? Claro que sim, como o exemplo do Rui Patrício. Para um jogador marcar golos, tem de haver outros que lhe passem a bola, que a recuperem e não a deixem entrar na baliza. Se as orquestras fossem só de um violino, não eram tão requisitadas. Acho que, aqui, nós temos de ver que existem outras pessoas que são igualmente boas. Estávamos a falar de Messi e Ronaldo, mas depois aparece o Griezmann a jogar de forma fantástica, aquela equipa do Atlético Madrid, que são só trabalhadores. A Alemanha, sem Messi, sem Ronaldo e sem Neymar, é campeã do Mundo. Hoje, o atleta é algo que pode ser cultivado e trabalhado, mesmo não tendo aquela técnica que antigamente se preconizava.

    BnR: Para finalizar, uma última pergunta mais a nível de brincadeira. Na entrevista anterior, disseste que, quando acabasses a carreira, querias fazer férias na neve e desportos radicais. Já concretizaste isto?

    JB: Confesso que já tinha feito algumas férias, mas curtas, de poucos dias, só para ir ver a neve. Agora vou iniciar-me nesses desportos radicais e todas essas coisas que não têm a pressão competitiva, que eu sei que me vai fazer falta daqui a uns tempos. Agora o momento é para relaxar e tentar encarar aquilo que aí vem.

    Foto de Capa: João Benedito

    Entrevista conduzida por: Diogo Janeiro Oliveira e Rodrigo Fernandes

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