Vivemos numa era do futebol na qual o conhecimento sobre o jogo e sobre os adversários é tal que a nota dominante é a organização das equipas. No nosso campeonato isso é notório, mesmo as equipas com menos recursos e com jogadores não tão bons tecnicamente, denota-se nelas uma organização nas suas linhas meritória que é fruto de muito e bom trabalho. O futebol dos dias de hoje é o futebol do pouco espaço para jogar e neste qualquer detalhe conta para decantar o marcador para um resultado positivo.

Assim sendo, é imperativo ser competente em todos os momentos do jogo, sejam eles ofensivos, defensivos ou de transição. Aqui emerge o, já denominado, quinto momento do jogo: os esquemas táticos ou bolas paradas, no texto focar-me-ei principalmente nas bolas paradas ofensivas . Os cantos, livres e lançamentos assumem uma importância acrescida na atualidade do jogo. Se num jogo dinâmico como o futebol, temos a possibilidade de, numa certa situação, beneficiar de momentos de pausa, para executar com tempo e espaço, sabendo que não se corre o risco de perder a bola até que esta seja cobrada, seria ingénuo não aproveitar esses momentos. Os esquemas táticos são momentos muito peculiares no desenrolar do jogo. Neles não há superioridade numérica que valha, não há grandes contra pequenos, tudo se resume a estratégia e competência. São uma situação à parte na fluidez do jogo mas podem dar pontos valiosos e até decidir jogos, por isso cabe às equipas técnicas e seus jogadores rentabilizar as bolas paradas.

Os esquemas táticos são alguns dos momentos onde os treinadores podem ter algum controlo extra sobre as incidências do jogo e se feito e trabalhado com competência podem subtrair alguma da aleatoriedade do jogo. O treinador tem a liberdade de definir os posicionamentos, as movimentações e os marcadores das bolas paradas, consoante as suas especificidades, e pode criar um sem fim de variantes para aplicar em contexto de jogo. Atualmente, nem tem que ser o treinador a estar incumbido desta tarefa, a equipa técnica pode ter um membro especializado e que trabalha unicamente nessas questões. Por exemplo, o Liverpool conta atualmente com um elemento na equipa técnica, Thomas Grønnemark, que está incumbido, exclusivamente, de preparar e estudar os lançamentos laterais. Parece caricato? A verdade é que foi campeão no Midtyland, o seu clube anterior, e a equipa concretizou nada mais e nada menos que dez golos na sequência destas situações. Tremendamente útil, afinal.

Marcel Keizer terá que pôr mãos à obra, as melhorias no futebol leonino são urgentes
Fonte: Sporting CP

As bolas paradas, tal como os outros momentos de jogo, envolvem uma análise detalhada do adversário sobre esta vertente e ainda uma adaptação constante jogo a jogo, até para não tornar essas situações em algo previsível. Portanto, esta criatividade da equipa técnica aliada a um trabalho efetivo nos treinos e à competência dos que estão no terreno de jogo – os jogadores – podem-se originar dividendos importantes e decisivos para o desenrolar da temporada de uma equipa.

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Desta forma, não são raros os exemplos de equipas que se fazem valer nestas situações. O Mundial na Rússia foi elucidativo nesse sentido, os golos de bola parada aconteceram de forma quase sucessiva com seleções como a Inglaterra e Uruguai a exibirem uma competência assinalável neste momento do jogo. Equipas como o Atlético de Madrid, com jogadores como Godín, Giménez e Diego Costa a “voarem” consoante os lances desenhados por Simeone e “Mono” Burgos na sua “pizarra” ou, já dentro da nossa realidade nacional, o próprio Santa Clara é também um bom exemplo de aproveitamento efetivo desta situação particular, inserida na dinâmica do jogo e que depois se reflete na tabela classificativa.

Volvidas dez jornadas do nosso campeonato, o Sporting CP aparece em segundo lugar, para surpresa de muitos. A verdade é que a turma de Alvalade tem estado longe de ser uma equipa regular, seja nas exibições ou nos resultados, mas a verdade dos factos é essa: segundo lugar a dois pontos do líder FC Porto. No entanto, é evidente que há muito espaço para melhorias neste Sporting CP versão 2018/19.

A questão do pobre ou inexistente fio de jogo apresentado pelo Sporting CP de José Peseiro foi um dos fortes motivos do seu despedimento e se virarmos o foco para áreas como esta das bolas paradas, onde se poderiam colmatar algumas lacunas a nível ofensivo, observa-se que neste parâmetro a formação leonina também deixa muito a desejar.

Aliás, em 18 golos marcados no campeonato, cinco foram de grande penalidade e somente dois foram marcados na sequência de lances de “laboratório”, o que resulta num 10º lugar na tabela quanto a este parâmetro em específico. Um deles foi apontado por Fredy Montero em Alvalade frente ao Marítimo ao “caçar” uma bola perdida na área após um livre lateral, já o outro nasceu de um lançamento de linha lateral e culminou com um cabeceamento de Acuña que acbou por garantir a difícil vitória nos Açores. Estes números do Sporting CP são tremendamente escassos, principalmente quando comparados aos cinco golos já conseguidos pelo FC Porto e SC Braga ou aos impressionantes sete golos marcados pelo Santa Clara a partir de bolas paradas.

Tendo em conta as inúmeras possibilidades que o plantel verde e branco é capaz de oferecer neste momento de jogo, torna-se ainda mais constrangedora a incapacidade demonstrada nos esquemas táticos. Ora vejamos, nas suas fileiras o clube de Alvalade conta com batedores de qualidade como Nani, Mathieu, Bruno Fernandes e até Jefferson e Acuña, todos muito capazes a rematar mas também no cruzamento. Quanto ao jogo aéreo, a qualidade também não diminui e aos já referidos Mathieu e Nani, também capazes neste momento, juntam-se ainda os gigantes Dost, Coates e Battaglia, agora lesionado para o resto da temporada.

Parece que ao nível de quantidade e qualidade há recursos suficientes para melhorar o aproveitamento leonino nestas situações de bola parada. Estas são muito mais do que o acumular jogadores na área adversária, trata-se principalmente de mostrar capacidade de chegar à baliza adversária pelos mais variados caminhos e por isso mesmo, as bolas paradas não podem ser descuradas. Como referido anteriormente, a esta qualidade existente no plantel, é preciso conjugar-lhe ideias criativas e eficazes no que toca a bolas paradas e que depois de trabalhadas possam tornar-se mais valias para almejar o momento mais desejado no futebol: o golo e consequentemente aproximar a equipa da vitória. Posicionamentos estratégicos, movimentações diversas e uma agressividade acima da média para atacar a bola são alguns dos aspetos que devem ser trabalhados e variados ao longo da época para rentabilizar ao máximo estes momentos.

Para ser a melhor equipa, é necessário ser competente em todos os momentos de jogo e o aproveitamento eficaz das bolas paradas pode ser muitas vezes a diferença entre um empate e uma vitória. É preciso ser perfecionista nesse sentido porque estas situações podem ser a solução até naqueles jogos mais “estancados”, pois os esquemas táticos permitem essa pausa para pensar e executar da forma mais livre possível.

No futebol de hoje em dia é obrigatório ser exigente e cuidadoso com todos os detalhes, pois são esses que podem mudar o rumo de uma partida. Atualmente, poucas coisas serão mais difíceis do que surpreender o adversário. É também verdade que os números são só uma parte do que acontece dentro das quatro linhas mas estes deixam entrever de forma clara que o “laboratório de Alcochete” está a precisar de horas extra. Agora a bola está em Marcel Keizer.

Foto de Capa: Sporting