Luis Suárez | O “9” que faz jogar

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Poucos esquecerão a novela de Viktor Gyokeres. Não só durou um par de semanas, como desgastou a relação entre adeptos leoninos e um dos avançados mais decisivos e concretizadores do século XXI em Portugal. Para além de 97 golos marcados num total de 102 jogos, aos quais se juntam 26 assistências, o avançado sueco, em apenas duas temporadas, levou para Alvalade dois campeonatos nacionais e uma Taça de Portugal. Quando o Arsenal bateu à porta e Gyokeres saiu sem hesitar, a relação de cumplicidade entre o emblema lisboeta e o agora avançado dos gunners rapidamente entrou em rotura. Estaria Conrad Harder pronto para se tornar no novo robô nórdico?

Na pré-época, a intenção de Rui Borges em alterar o sistema tático e algumas rotinas coletivas ficaram patentes. Não só a mudança de uma estrutura base de 3-4-3 para um 4-2-3-1 – mais dinâmico, maleável e com capacidade para se transformar em 3-4-3 ou 3-2-5 -, como também uma maior associação do ponta-de-lança, funcionando como elemento de ligação. Como tal, tanto na pré-época, como, mais tarde, na Supertaça, ficou claro que Harder não tinha capacidade para, devido a limitações técnicas fundamentais, ser o avançado ideal para o novo sistema sportinguista.

Naturalmente, outras qualidades eram-lhe amplamente reconhecidas, nomeadamente o remate espontâneo e as diagonais curtas, mas o raio de ação era pouco para o que Rui Borges exigia. No decorrer da partida frente ao Benfica no Estádio do Algarve, entrou o recém-contratado Luis Suárez. Mesmo sem ter feito preparação para a época que se iniciava com os novos colegas de equipa, em apenas 22 minutos de jogo, pôde ser vislumbrado o toque refinado, a capacidade para se envolver no processo de criação e tabelar, a habilidade para receber, fintar ou passar em espaços reduzidos, entre outros pormenores técnicos de elementar importância.

Luis Suárez Sporting
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Os atributos referidos eram, contudo, redutores para aquilo que o novo ídolo de Alvalade acrescenta ao futebol leonino. Rapidamente se percebeu que Suárez garantiria ao Sporting ainda mais golos. Os números são avassaladores. Com certeza, nem o adepto mais confiante esperaria que, depois do domínio de Gyokeres na Primeira Liga, surgisse um jogador com um rendimento que fizesse esquecer o sueco. De um ponto de vista meramente estatístico, o camisola 97 já bisou em cinco partidas desta temporada – numa das quais para garantir a vitória histórica diante dos campeões europeus em título, PSG -; marcou um hat-trick; marcou quatro golos ao cair do pano; leva quatro tentos na Champions League (e está a apenas dois dos melhores marcadores da história dos leões, Liedson e Gyokeres); leva 20 golos marcados e quatro assistências em 22 jogos na Primeira Liga; dois golos em quatro jogos na Taça de Portugal; e um golo em apenas um jogo na Taça da Liga. 

Ainda que as exibições do Sporting entre meados de janeiro e de fevereiro não tenham sido as mais convincentes – muito pelo desgaste físico acumulado e adversários que condicionaram muito bem as referências e dinâmicas sportinguistas em ataque posicional -, é notória a evolução do processo ofensivo dos leões da época transata para a atual. A mudança no perfil de avançado prende-se com a intenção de o Sporting melhorar como coletivo. Da mesma forma que o atual avançado do Arsenal não tinha – nem tem – à vontade natural para se relacionar com os colegas a um ou dois toques ou para jogar entrelinhas diante de blocos baixos e compactos, Suárez não garante a mesma verticalidade, não permite esticar tanto o jogo e raramente conseguirá resolver uma partida através de um sprint de 40 metros. Todavia, os bicampeões nacionais parecem hoje transmitir mais confiança como equipa e, na mesma face da moeda, aparentam criar ainda mais medo aos adversários.

Luis Suárez Sporting
Fonte: João Freitas/Bola na Rede

Trincão, Pote e Geny, não raras vezes, a partir de posições mais recuadas, serviam de quarterbacks para que o ‘homem da máscara’ pudesse galgar metros a seu bel-prazer, explorando blocos que, não havendo ameaça iminente, estavam mais subidos em campo. Atualmente, há mais armas no jogo do Sporting – porque Suárez assim o permite – e, por consequência, o seu futebol tornou-se mais difícil de prever. Com o avançado colombiano o jogo verde e branco tornou-se mais perfumado, mais dinâmico e menos viciado. É evidente que, em jogos mais disputados, é ótimo ter uma lança apontada à baliza adversária e que, com a utilização do avançado nórdico, o Sporting foi bicampeão pela primeira vez em mais de 70 anos. Não sendo fácil encontrar quem conjugue as caraterísticas físicas e técnicas de Gyokeres com a eficácia que o mesmo apresentava, a aposta num perfil como o de Suárez foi a mais lógica, atendendo inclusive à realidade do campeonato português. 

Parafraseando Johan Cruyff, se “jogar futebol é simples, mas jogar futebol simples é extremamente difícil”, Luis Javier Suárez tem-no simplificado ao máximo, fazendo o difícil parecer fácil, através de toques requintados, de ligações inteligentes e que desbloqueiam, de um futebol de rua tantas vezes ignorado, aos quais junta golos de um nível técnico e artístico ao alcance de muito poucos. Uma crítica feita a este avançado colombiano é a inconsistência na hora de finalizar porque, tendo em conta o volume ofensivo do Sporting, poderia até já ter mais golos. Não deixa de ser verdade. Porém, se a taxa de acerto fosse ainda maior, aos 28 anos Luis Suárez já poderia ter seguido as pisadas do seu homónimo.

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