A actual Direcção do Sporting CP apresentou aos sportinguistas um documento através do Jornal Sporting no qual expõe uma “Visão Estratégia para o Futuro”. Um título que sugere tratar-se de um reset da Administração Varandas, uma varredela para debaixo do tapete dos últimos dois anos de mandato e de promessas eleitorais que ficaram na gaveta.

Em suma e em síntese, a Direcção do Sporting CP apresenta uma “Visão” assente em três pilares “invisíveis” que sustentam um quarto que é a “Interacção com o Sócio”. Será isto uma ironia? De facto, num Clube em que apenas os Sócios com mais de “x” votos têm “visibilidade” e que suplica por transparência na forma como a sua gestão é conduzida, não deixa de ser irónico este apologismo à invisibilidade. Talvez seja uma alusão ao manto da invisibilidade, não o do Harry Potter, mas o de Frederico Varandas que tem o condão de tornar invisível, por exemplo, a célebre auditoria, os conhecimentos sobre a época 2015/2016 que dizia ter e que nunca revelou, etc.

Mas eu gostaria de começar, não pela mensagem do documento em si, mas antes pelo mensageiro. E com uma nota de pesar pelo Jornal Sporting: pela degradação e até achincalhamento a que tem sido sujeito. Recordo-me quando o meu Avô comprava às terças-feiras o jornal clubístico mais antigo do mundo. Um jornal quase centenário que informava os Sportinguistas sobre a vida do clube e realizava um importante trabalho de cobertura alargada das mais diversas modalidades desportivas nos seus vários escalões competitivos. O Jornal Sporting foi de facto um pioneiro na imprensa clubística.

Os Sportinguistas mais atentos e, em especial aqueles que, como eu, são subscritores ou leitores assíduos do Jornal Sporting devem ter dado conta que a sua última edição fez desaparecer a palavra “JORNAL”. E não deve ter sido obra do acaso, pois o “conteúdo” da edição n.º 3776 assemelha-se mais a um panfleto de propaganda do que propriamente a um jornal, começando logo pela capa monopolizada por uma única machete “Visão Estratégica Para o Futuro”, que ofusca toda e qualquer notícia que realmente mereça ser destacada para os sportinguistas.

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A “Razão de Ser” do Jornal Sporting, tal como definida no primeiro artigo da sua primeira edição saída a 31 de Março de 1922 com o preço facultativo de dois escudos, morreu em definitivo na semana passada para dar lugar à propaganda descarada e barata. E eu que acreditava que quem recorria à propaganda era o rival do outro lado da segunda circular.

Julgo que até um “caloiro” do curso de Marketing faria um trabalho de PowerPoint melhor.

Não vou tecer grandes considerações sobre o conteúdo dessa “Visão”. Quem não apresenta obra feita, tem de apresentar documentos “faz-de-conta”, visões, estratégias, o que quiserem chamar… O documento em si é uma inanidade.

Um conjunto de ideias soltas, estrangeirismos e de chavões supérfluos, alguns que até remontam ao programa eleitoral, acrescido de um arrazoado de contas muito poetizadas que bem escrutinadas mais parecem contas de mercearia. Por exemplo, o documento enuncia uma avaliação sobre a receita líquida da venda de jogadores sem sequer considerar as comissões, as despesas de intermediação ou os custos fiscais associados. E estamos a falar de jogadores como Bas Dost, Raphinha e Bruno Fernandes, que foram vendidos por verbas muito abaixo dos valores das respectivas cláusulas de rescisão.

Todavia, para além das referências bem manifestas ao caso de Alcochete e à própria COVID-19, qual “herança pesada”, retive algumas paragonas do texto do documento como “Caso a actual pandemia tivesse ocorrido em 2018, o Clube teria colapsado financeiramente”. Felizmente, segundo o documento, foi esta Direcção que conseguiu reverter todo o mal… Recordemos que se trata da apresentação de uma visão estratégica para o futuro.

Depois reparo que toda esta moção de estratégia passa por investimentos como a substituição de cadeiras e do material informático, para não falar dos habituais clichés sobre a aposta na Academia e que eram promessas eleitorais.

E quanto às cadeiras… Gostaria de uma vez por todas que a Direcção do Sporting CP percebesse ou quisesse perceber o seguinte: se o estádio estivesse sempre cheio durante os jogos, como acontecia noutros tempos, a cor das cadeiras deixava de ser o problema central desta Direcção para passar a ser um não-problema.

O problema não é a cor das cadeiras, mas sim o facto de cada vez menos adeptos se sentarem nelas
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

O mais engraçado é que dois dias depois da divulgação desta moção de estratégia, o novo membro da Administração verde e branca, André Bernardo, dá a entender que, devido à COVID-19, o mais certo é que alguns dos projectos definidos ficarão na gaveta.

Tudo isto é inenarrável e constitui uma falta de respeito pelos adeptos e sócios sportinguistas. E se estes tivessem, na generalidade, um sentido de exigência rigorosa perante a governação do Clube deveriam questionar os órgãos sociais eleitos, em especial, a Direcção sobre o exacto cumprimento do programa com que se apresentaram nas últimas eleições. É que o mandato desta Direcção começou há dois e não com o surgimento da pandemia.

Por fim, dizer que o documento não só é gongórico, como também encerra em si algo profético. Na verdade, pode ler-se no fim do editorial da última edição do Jornal Sporting o seguinte: “O Sporting CP de amanhã será a consequência das decisões de hoje”.

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

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