sexto violino

Sete anos depois, o Sporting volta a estar onde merece. A espera não valeu a pena porque nunca vale a pena entregar mais de meia década de bandeja aos rivais, mas tudo isso já acabou. A eleição da actual direcção constituiu um corte com o passado que vai sendo cada vez mais visível. O jogo de ontem marcou o fim de um período negro sem troféus, com a pior classificação de sempre no futebol pelo meio e com o futuro do clube seriamente comprometido. Esta taça foi muitíssimo importante para quebrar o enguiço, para que jogadores e adeptos tenham voltado a sentir o que é ser o melhor e, também. para alimentar a maior potência desportiva nacional, que vive de títulos.

Já muito se falou do jogo em si, por isso digo apenas que seria muito injusto perder a final uma vez que, mesmo com 10 jogadores, o Sporting foi a melhor equipa. Quero somente destacar a qualidade de Rui Patrício, decisivo no fim do prolongamento e nos penáltis, a segurança de Paulo Oliveira e Ewerton, que estiveram enormes e compensaram as más exibições dos laterais, o sentido de oportunidade de Slimani e de Montero, que resgataram a partida, e o Esforço, Dedicação e Devoção de todos, mesmo quando talvez já não acreditassem, que levou a que o clube voltasse a atingir a Glória. A entrega dos jogadores, sem excepção, foi fulcral para a reviravolta. Mais do que quererem ganhar a Taça, fizeram por isso e foram recompensados.

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Pela primeira vez, a Taça de Portugal foi decidida através de penáltis
Fonte: Sporting CP

Ora, tendo em consideração o nível exibicional e a atitude da equipa, a eventualidade de uma derrota seria duplamente injusta. Tive oportunidade de ir ao Estádio do Jamor pela primeira vez na minha vida e, para meu próprio espanto, o resultado que se verificou até aos 93 minutos não motivou em mim revolta, mas sim uma enorme tristeza que me roubava praticamente qualquer reacção. Felizmente, no domingo a equipa teve a ponta de sorte que lhe escapou tantas vezes nesta época plena de auto-golos, golos sofridos de forma bizarra e/ou no último minuto. Mas também só a teve porque acreditou, porque foi para cima do Braga, porque suou até não poder mais. Quem não soubesse que os minhotos estavam em superioridade numérica, nunca acreditaria.

Fora de campo, foi extraordinário ver a comunhão entre jogadores e adeptos. Que os Sportinguistas são os mais fiéis do país já não é novidade, mas é incrível testemunhar tamanha capacidade de mobilização por causa de uma taça. A festa em Alvalade foi o exemplo mais recente e apetece perguntar o que acontecerá no dia em que se conquistar o tão ansiado campeonato…! A este propósito, aliás, boas notícias parecem anunciar-se: Bruno de Carvalho foi agora muito mais cauteloso a lidar com a questão da candidatura ao título na próxima época do que havia sido no lançamento desta última. Essa atitude é a única que faz sentido, porque protege o grupo de trabalho e leva as coisas jogo a jogo. E não assumir a candidatura é diferente de não querer ser campeão.

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Antes de terminar, não consigo deixar de dizer o bem que me sabe esta vitória não só pelo que ela significa para o Sporting mas, também, por tudo o que uma derrota acarretaria. Arrisco dizer, não querendo parecer ingrato, que perder esta Taça faria ainda mais mossa do que o bem que nos fez ganhá-la. Morrer na praia seria letal do ponto de vista psicológico e reforçaria a ideia de que o Sporting estava condenado a não ser feliz.

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Primeiro no Jamor e depois em Alvalade, os adeptos protagonizaram mais um momento único

Perder para o Braga faria o gáudio dos tais “seis milhões” de que falava António Salvador, muitos dos quais dizem que só os outros é que são “antis” mas vivem para pisar o Sporting. Nos media, não faltaria quem recomeçasse cinicamente a reforçar a ideia lunática, e adormecida desde que o Sporting deixou de andar à deriva, de que o Braga roubou aos leões o estatuto de clube grande. Lamento, mas quem já tinha afiado as facas vai ter de guardá-las para uma outra altura.

No último domingo foi dado mais um grito de revolta, o maior desde 2013. Daqui para a frente, o percurso leonino só pode continuar a ser o mesmo: realismo, pés assentes no chão mas uma vontade enorme de melhorar cada vez mais. Sabemos que não vai ser fácil, porque o clube dispõe de menos argumentos do que os rivais tanto a nível financeiro como de bastidores, mas não pode ser de outra forma. O Sporting é um clube diferente dos outros, um clube sobre o qual já não faz sentido dizer-se que nunca vai acabar, mas sim que está a ressuscitar. Estamos vivos!

                                                                                           .

P.S.: pode haver quem diga que é fácil ter-se fair play nos bons momentos mas, assim como disse que seria injusto o Braga vencer a Taça, não quero terminar este texto sem deixar uma palavra de apreço pelo finalista vencido. Os arsenalistas têm vários jogadores de qualidade, fizeram um grande percurso e sei, por experiência própria, o que é perder uma final de forma dramática.

Foto de capa: Sporting Clube de Portugal