Escolhi díficil. O fácil é de todos

Não sei se aqueles que viram o clássico do passado Domingo na TV tiveram oportunidade de assistir às sucessivas manifestações de garra e de emoção de Marcos Rojo, no final da partida, no relvado de Alvalade. Quem lá esteve, no estádio, não me deixa mentir: o argentino era um dos mais efusivos perante o aproximar da vitória. No fim, deslizou de joelhos tal qual faria o mais ferrenho dos adeptos sportinguistas, se tivesse oportunidade. Mas o que há, no central internacional argentino, além do querer e da vontade?

É com estranheza que constato que os órgãos de comunicação social não têm dado realce à que tem sido uma das melhores épocas defensivas do Sporting: em 28 jogos oficias realizados, a equipa de Leonardo Jardim sofreu golos apenas em metade, 14. Em 50% das partidas oficiais desta época, o Sporting não sofreu qualquer golo. Se nos focarmos apenas no campeonato, temos de recuar até à época de 2008/2009 para encontrar um ano em que os leões tivessem concedido menos golos à 24ª jornada. Na altura, o Sporting de Paulo Bento tinha sofrido 15 golos. Este ano, a equipa sofreu 16. Apenas mais um.

Rojo foi dos melhores em campo frente ao melhor marcador do campeonato, Jackson Martinez  Fonte: foradejogo08.blogspot.com
Rojo foi dos melhores em campo frente ao melhor marcador do campeonato, Jackson Martinez
Fonte: foradejogo08.blogspot.com

Estes são os dados factuais, mas são também consequências do que tem sido feito e alterado no conjunto verde e branco. O que terá sido? Esta é a pergunta que dá espaço a todas as especulações, conjecturas e opiniões que, cada uma delas, vale o que vale. Apesar de nem só o ataque ser responsável pelos golos marcados, nem só a defesa o ser pelos sofridos, a construcção de uma equipa edifica-se através de bases sólidas, ou acabará por ruir. O Porto que foi a Alvalade é exemplo disso: Abdoulaye nunca transmitiu a segurança necessária e acabou por ser ele a falhar na marcação a Slimani, no lance do golo.

A meu ver, é aí que reside uma das alterações fulcrais no Sporting de 2013/2014. Marcos Rojo foi, a par de Adrien, aquele que mais subiu de rendimento se tivermos a época passada como ponto de comparação. Proveniente do Spartak de Moscovo, o nº 5 do Sporting apresenta, já aos 23 anos, números de cariz excepcional: desde que se tornou sénior (aos 19), Rojo só jogou menos de 24 partidas no Spartak. Pela selecção, já leva 20 presenças, todas (!) como titular. Tudo isto tendo em consideração que os defesas são os que mais tarde se costumam impor nas suas equipas. Por exemplo Garay, que hoje tem 27 anos, ainda só foi internacional por 18 vezes. 

Marcos Rojo ao serviço da sua selecção, frente à Arábia Saudita  Fonte: Olé
Marcos Rojo ao serviço da sua selecção, frente à Arábia Saudita
Fonte: Olé
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Estes números, muito embora a comunicação social e a generalidade dos adeptos não o admitam, têm explicação: Rojo tem qualidades que o podem elevar a um nível muito próximo dos melhores da Europa, se conseguir continuar a evoluir como até aqui. Forte no ar e com poder de choque para marcar pontas-de-lança possantes, com os quais se sente mais confortável; mas também rápido e com capacidade de antecipação para marcar os mais velozes, onde ainda sente mais dificuldades. Com bola, é evoluído tecnicamente, forte no cruzamento e dono de um remate poderoso, características que o fazem jogar também na lateral esquerda (onde é titular na Argentina, ao invés de Insúa ou Ansaldi). Pelo contrário, apresenta ainda um temperamento vincado e falta de clarividência que o levam ao excesso de agressividade e má avaliação de lances que podem comprometer aquilo que de bom faz. Esses são os factores que mais rapidamente tem de alterar se quer dar o salto qualitativo que o tornariam num dos melhores. Em entrevista recente ao jornal O Jogo, foi ele o primeiro a admitir isso mesmo, o que só prova que tem a consciência e a humildade necessárias à evolução. 

Recuando à questão de partida: em Rojo há muito além do querer e da vontade. Mas num clube em que, no ano passado, existiam tantos jogadores – estrangeiros, principalmente – com falta de atitude e de amor à camisola, esta entrega que o argentino revela deve ser mais valorizada. Parece-me que, de entre colegas, treinadores, adversários e adeptos, são estes últimos os que menos reconhecem as qualidades do jogador do Sporting. Nos últimos anos, quantos centrais melhores tem tido a equipa de Alvalade?

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