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O futebol hoje em dia já não é só um desporto; é um negócio que movimenta milhares de milhões de euros todos os anos, onde muitas pessoas enriquecem e onde outras, na esperança de enriquecerem também, se afundam ainda mais. É quase como o novo “sonho americano”: àqueles que se aplicam pode sair o que muitos consideram ser a sorte grande. Dinheiro, fama, mulheres (ou homens), reconhecimento, luxo, admiração, e sabe-se lá que mais, tudo coordenado pelo mundo que rodeia o desporto do pontapé na bola.

Dinheiro movimentado em quantidades astronómicas é como o cheiro a sangue num oceano carregado de tubarões brancos, e rapidamente chegam os fundos de investimento ou os milhões árabes ou asiáticos. E, quando assim é, como é que são geridos psicologicamente miúdos a quem só falam em milhões, quando talvez até muitos deles passaram fome na infância? Porque hoje em dia é assim, e os miúdos aliciados pelas perspectivas milionárias acabam quase como jogadores mercenários.

É por isso que tenho uma extrema admiração por jogadores como Steven Gerrard e outros, que são poucos hoje em dia mas dedicaram a sua carreira a um clube e tornaram-se ícones no clube, lendas no futebol, ganharam dinheiro à mesma e reconhecimento, mas acima de tudo ganharam o respeito e a admiração dos adeptos, que também dão tudo pelo clube. Nestas situações, adeptos e jogadores tornam-se semelhantes, porque ambos dedicam a sua vida ao clube, de forma diferente: uns nas bancadas, outros no campo. Mas estão lá, sempre leais ao clube que apoiam.

Mas agora o normal é vermos os clubes a comportarem-se como meninos ricos e mimados. Fazem a birra do “eu quero, eu quero” e de repente já gastaram 300 milhões para comprarem jogadores, porque acham que os problemas do clube estão sempre nos jogadores. Se a equipa não joga, compra; se continua sem jogar, compra mais. Actualmente existem equipas que mais parecem uma Boys Band, mas que em vez de cantarem jogam futebol. E existem clubes que continuam a pensar que a solução dos seus problemas está em pagar milhões a jogadores, sem que eles tenham qualquer compromisso ou admiração emocional pelo clube e tornando-os em mercenários, achando que é com uma equipa de mercenários extremamente bem pagos que se ganha campeonatos e competições europeias.

As equipas são construídas com tempo, dedicação, garra e harmonia entre os jogadores. É preciso saberem que o clube, a instituição, é maior do que eles; é inclusive maior do que os treinadores e presidentes, sem haver egos superiores ao clube, e os únicos jogadores insubstituíveis são aqueles dispostos a dar tudo pelo clube, mesmo que sejam os menos talentosos. Isso é o que eu tenho visto no Sporting CP e que Bruno de Carvalho soube incutir. Fê-lo saber a Marcos Rojo, a Slimani, a Jefferson, a Bruma e a André Carrillo, que acharam que os seus egos e as suas vontades podiam sobrepor-se ao compromisso e ao peso de vestirem a camisola verde e branca. Só são bem vindos jogadores dedicados e comprometidos em representar o clube antes de se representarem a eles próprios.

O facto de o investimento não justificar o rendimento mostra que o Sporting é superior a milhões, nacionalidades ou egos
O facto de o investimento não justificar o rendimento mostra que o Sporting é superior a milhões, nacionalidades ou egos
Fonte: Sporting CP

Neste campo é bem visível o síndrome do menino rico e mimado em clubes como o Manchester United, que ainda está chorão porque já não é o mais popular da escola e acha que se gastar centenas de milhões por época vai voltar aos tempos de glória. Em contrapartida está o brilhante Leicester, que dá uma lição à liga inglesa: não são os milhões que fazem uma equipa jogar à bola. Em Espanha temos o caso do Real Madrid, em relação ao qual creio nem ser preciso entrar em pormenores, tendo em conta o investimento na equipa e o rendimento. Não fosse quem nós sabemos e gostaria de ver por que ruas da amargura andaria o clube. Em Portugal temos uma situação idêntica, que creio também ser facilmente reconhecível. Os milhões do Norte são também a prova viva de que dinheiro compra jogadores mas não faz equipas, e o FC Porto tem jogadores fantásticos mas uma equipa terrível.

Para terminar, quero apenas destacar um outro detalhe que comprova o que aqui disse. Há um treinador que, apesar da forma como terminou a relação com o Sporting, eu admiro bastante. O trabalho que Marco Silva fez no Estoril foi fantástico e a mentalidade que ele colocava nos jogadores era um exemplo de que uma equipa é mais do que jogadores bem pagos. Numa conferência de imprensa antes da deslocação do Estoril ao Dragão Marco Silva disse que sabiam da dificuldade de ir jogar em casa do Porto, mas que, como em qualquer outro jogo, iam jogar para ganhar. A verdade é que o Estoril venceu por 1-0 no Estádio do Dragão, assim como o fez em Alvalade e empatou na Luz. Uma equipa recém-chegada à primeira liga, com um orçamento bem mais baixo que o dos três grandes, jogava de olhos nos olhos com qualquer clube. Tudo porque os milhões não fazem equipas.

Foto de Capa: Sporting CP

 

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