O Sexto Violino

Novembro de 2011. O Sporting vence a União de Leiria em casa e termina o primeiro terço do campeonato com 23 pontos, a um dos líderes Porto e Benfica. O golo de Wolfswinkel e o bis de Matías Fernández davam ao clube a sétima vitória consecutiva para o campeonato e colocavam os adeptos em festa, ainda que esta fosse refreada pela grave lesão contraída por Rinaudo dias antes. Mas apesar de todos os contratempos e não obstante ter sido gravemente prejudicado pela arbitragem em duas das três primeiras jornadas – nunca é demais lembrar que este é, muito provavelmente, o único clube do mundo que já foi alvo de dois boicotes por parte dos árbitros, o último dos quais em Agosto desse ano –, a verdade é que o Sporting estava, por essa altura, colado aos rivais, e não lhes dava descanso.

O clube tinha ido a votos escassos meses antes. Godinho Lopes havia ganho a presidência de forma polémica, mas tinha investido na equipa de modo a muni-la de jogadores com qualidade suficiente para conseguir, pelo menos, a qualificação para a Liga dos Campeões. As exibições dos homens de Domingos Paciência entusiasmavam os adeptos como há muito não se via e quase tudo parecia estar a correr bem, ao ponto de haver até quem já falasse no título. Mas a lesão de Rinaudo tinha sido um prenúncio do que aí vinha. No dia 26 desse mês de Novembro (curiosamente cumprem-se hoje dois anos sobre essa data) o Sporting foi jogar à Luz, sabendo que uma vitória significava ficar dois pontos à frente do Benfica. Porém, os falhanços de Elias, um penalti não assinalado sobre Onyewu e uma falha de marcação numa bola parada ditaram a derrota por 1-0. A partir daí, as exibições do Sporting, que já tinham vindo a perder gás, tornaram-se cada vez mais cinzentas. Um mês depois, a equipa já estava a 6 pontos do líder, e, em Fevereiro, uma sequência de três vitórias em 13 jogos motivou a saída de Domingos e a entrada do novato Sá Pinto. O Sporting acabou o campeonato em quarto lugar, a 16 pontos do Porto e sem direito a participar na Liga Milionária.

Serve esta viagem no tempo para recordar os sportinguistas mais eufóricos de que a fase que vivemos hoje está longe de ser irreversível, como nos provam os acontecimentos de há dois anos. É certo que muita coisa mudou entretanto no Sporting e que há várias diferenças entre estes dois casos: Bruno de Carvalho não é Godinho Lopes (com tudo o que isso implica); a época e os gastos que lhe são adjacentes foram planeados com muito mais rigor e contenção do que em 2011; e ninguém da actual estrutura ou equipa técnica falou na conquista do título como um objectivo a atingir. Mas as semelhanças também são evidentes, sobretudo no que diz respeito às expectativas que as boas exibições foram criando nos adeptos, e não me sentiria bem se não alertasse para os perigos que, a meu ver, essa realidade acarreta.

Há duas épocas, o optimismo excessivo deu lugar à desilusão. É isso que devemos evitar este ano / Fonte: ojornalismoeodesporto.blogspot.pt/
Há duas épocas, o optimismo excessivo deu lugar à desilusão. É isso que devemos evitar este ano / Fonte: ojornalismoeodesporto.blogspot.pt/

Hoje, como há dois anos, estamos com os mesmos 23 pontos ao cabo das mesmas 10 jornadas, e de novo a um ponto do topo. Leonardo Jardim tem feito mais do que eu julgaria possível, e o triunfo em Guimarães, conseguido com ajuda da famosa “estrelinha” que há tanto tempo nos fugia, fez vários adeptos admitirem pela primeira vez que consideram o Sporting candidato ao título. É óbvio que nada me faria mais feliz do que olhar para a classificação no fim de Maio e ver o Sporting em primeiro lugar, mas até lá há ainda um longo caminho a percorrer. Não nos podemos esquecer de que a maior parte dos jogos está ainda por disputar e, sobretudo, de que há escassos seis meses estávamos a concluir a nossa pior época de sempre. Há uma razão simples para o presidente e o treinador se recusarem a assumir a candidatura: um punhado de vitórias não apaga quatro anos desastrosos, e ambos sabem que o Porto e o Benfica continuam alguns degraus acima de nós. Talvez neste momento essa realidade esteja um pouco mais esbatida – até porque temos jogado tão bem ou melhor do que eles –, mas, pelo menos a nível de experiência e consolidação de estruturas (para não falar na parte financeira), o Sporting está ainda num patamar inferior. É, portanto, mais do que natural que não sejamos campeões.

Assim sendo, a última coisa que quero, enquanto sportinguista, é que o meu clube seja atingido por aquilo a que chamo o “síndrome benfiquista”, ou seja, milhares de adeptos de peito inchado a falar antes do tempo e a celebrar desde antes do Natal conquistas que acabam por não se concretizar. Foi esse desfasamento da realidade de que muitos benfiquistas padecem que, mesmo depois de uma época terrível do Sporting, me deu motivos e alento para entrar nas picardias da praxe quando chegou a hora. Mas é também esse desfasamento da realidade que não podemos deixar que tome conta dos nossos adeptos. O Sporting não está habituado a ganhar, pelo que uma série de resultados menos positivos pode fazer com que os mesmos adeptos que hoje nos colocam no grupo dos candidatos entrem numa depressão exagerada e com consequências nefastas para a equipa. Em parte foi isso que aconteceu há dois anos. Nem somos a melhor equipa do mundo em Novembro, nem seremos com certeza um clube de coitadinhos em Maio. Temos, isso sim, de percorrer o nosso caminho com realismo e com a mesma humildade de sempre, pois só assim poderemos voltar a encarar os bons resultados com a naturalidade característica dos adeptos de grandes equipas.

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O João Sousa anseia pelo dia em que os sportinguistas materializem o orgulho que têm no ecletismo do clube numa afluência massiva às modalidades. Porque, segundo ele, elas são uma parte importantíssima da identidade do clube. Deseja ardentemente a construção de um pavilhão e defende a aposta nos futebolistas da casa, enquadrados por 2 ou 3 jogadores de nível internacional que permitam lutar por títulos. Bate-se por um Sporting sério, organizado e vencedor.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.