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Nos bastidores da corrupção – A Nova Ditadura

António Gonçalves · 10 min

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Os actores já são conhecidos da mais recente polémica do futebol português. A sensação que fica é que a controvérsia chega com largo período de atraso. Falta apenas saber o modus operandis de todo este esquema que envolve não só as arbitragens mas muito mais. Aos poucos, é com relativa facilidade que o puzzle é montado e as peças se encaixam com perfeição.

Retornamos à década de 80. Luís Filipe Vieira tem um negócio de pneus, o negócio é tão bem-sucedido que o apelidam de “Kadhafi dos pneus”. Mas os pneus geravam pouco lucro para quem ambicionava mais. Cedo percebeu que as progressões social e económica nunca passariam por práticas comuns e idóneas. Mais tarde passou a gerir uma empresa de construção civil e imobiliária. Uma das empresas geridas foi a CIMOVENDA, que entrou em insolvência através uma acção movida pela CITAC por incapacidade total de pagar as dívidas aos seus credores. Outra das empresas que teve o mesmo destino sob a administração de LFV foi a EDIVERCA, entre outras que faliram sob sua gestão.

Avancemos até 1991. É neste ano que Luís Filipe Vieira é eleito presidente do Futebol Clube Alverca. O empresário começa, então, a montar um esquema bem delineado para um clube que nunca tinha atingido o primeiro escalão do nosso futebol. Mas antes de o Alverca conseguir atingir esse feito, LFV foi preso em Julho de 1993 por roubar um camião. Conta a história que o Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, condenou-o a vinte meses de prisão, sendo sentenciado juntamente com mais cinco arguidos. A sorte surgiu quando as duas leis da amnistia, uma de 1986 e outra de 1991, lhes valeram o perdão das penas de prisão aplicadas por aquele tribunal. O juiz-presidente, Afonso Ferreira, destaca o facto de LFV ter sido o único que não se declarou arrependido pelo crime cometido. Esta história, “digna da sétima arte”, poderá ser analisada na íntegra na publicação de “O Independente”, de 2001.

A polémica já eclodiu há duas semanas e Vieira ainda não reagiu publicamente Fonte: SL Benfica
A polémica já eclodiu há duas semanas e Vieira ainda não reagiu publicamente
Fonte: SL Benfica

O Alverca cresce a olhos vistos e, em Fevereiro de 2000, LFV é reeleito para o biénio. Nesta altura, o Alverca abunda na primeira liga portuguesa e o seu presidente começa a ser questionado pela forma como geria as transferências do clube, nomeadamente os negócios com o FC Porto. Foram prometidos centros de estágio e melhores infraestruturas para a continuidade do seu mandato, até que, em 27 de Maio de 2001, o então presidente do Alverca despede-se para ingressar num novo projecto a convite do presidente do Benfica, Manuel Vilarinho.

“Estou de partida porque há outros projectos que me motivaram. Mas a nossa instituição irá continuar com o projecto Alverca, geração do futuro. A estrutura vai mudar, com a minha saída e a do professor Jesualdo, mas o pensamento continuará o mesmo”. Sabendo deste projecto, LFV comete a primeira fraude dois meses antes de o aceitar. Vende Pedro Mantorras ao desbarato para o Benfica, sem confirmar os valores envolvidos, ficando o Alverca com cerca de metade do valor de uma futura transferência.

Foto de Capa: SL Benfica

«Achámos logo que o Benfica era o melhor.»

A 12 de Novembro de 2002, a manchete do jornal “Diabo” revela que foram desviados 750 mil euros no passe de Mantorras. Os contornos do estilo do empresário, agora nos quadros do Benfica, começam a ser desvendados. Ao que tudo indica, o diretor desportivo dos encarnados teria comprado 60% do passe do jogador, fazendo a transferência dois meses antes de se mudar para a Luz. Do Alverca, levou todo o dinheiro consigo, incluindo investidores e empresas externas que injectavam capital no clube, deixando os Ribatejanos com uma dívida de 2,5 milhões de euros. Em Outubro de 2005, o presidente do Alverca António Manuel Fernandes informa que o clube não irá conseguir manter-se na primeira divisão devido à divida contraída. Como LFV já tinha retirado todos os negócios inerentes ao seu mandato, os activos do Alverca não eram suficientes para cobrir todo o dinheiro em falta. A impossibilidade de vender jogadores, de arranjar patrocínios e investidores levou o clube à segunda divisão portuguesa e posterior nova descida de divisão.

No mesmo ano de 2005, Hérman José convida LFV para o seu programa. Na apresentação dos convidados, o agora presidente do Benfica informa que na plateia estavam várias pessoas consigo, incluindo José Santos. (Para quem não está a par, José Santos, mais conhecido como “Zé do Benfica”, é o ex-motorista de LFV condenado em 2016 por tráfico de droga.) No programa, LFV refere que “Zé é um dos meus melhores amigos, quem me atura todos os dias e ouve os meus desabafos”. Portanto, o melhor amigo de LFV, o Zé do Benfica, é apanhado com droga no porta malas do carro que normalmente transportava o presidente encarnado. Sendo os “melhores amigos”, LFV não sabia que José Santos traficava droga? Não sabia que o melhor amigo estava a passar por dificuldades económicas como alegou em tribunal?

O negócio de Pedro Mantorras ainda deixa dúvidas no dia de hoje Fonte: Facebook Oficial Sport Lisboa e Benfica
O negócio de Pedro Mantorras ainda deixa dúvidas no dia de hoje
Fonte: Facebook Oficial Sport Lisboa e Benfica

Outra prova da gestão danosa de LFV pode ser consultada no “Semanário do Mirante”, datado a 11 de Janeiro de 2006:

“(…) Depois de Luís Filipe Vieira ter abandonado o barco e ter levado consigo para o Benfica o Manuel Ribeiro. Segundo o actual presidente afirmou ao vosso jornal, Luís Filipe Vieira demitiu-se e retirou as assinaturas de todas as responsabilidades que tinha. Uma atitude pouco digna de um homem que se serviu do Alverca para se aproximar dos poderosos, projectar-se e chegar a presidente do maior clube português, o Benfica.” É facilmente percetível que o melhor património que Manuel Vilarinho deixou no Benfica foi LFV. Vilarinho não tinha a capacidade de poder comandar o futebol português de forma clara e transparente. Teve, sim, a clarividência de que para ser presidente de um grande clube em Portugal era preciso ser pior ou igual ao Presidente de FC Porto, Pinto da Costa. Para LFV, o futebol era visto como um meio acessível e de fácil ascensão, foi o palco ideal para conseguir atingir o seu objetivo primordial: de forma legal ou ilegal, enriquecer.

Enquanto presidente do Alverca, Vieira era sócio dos três grandes clubes portugueses, numa tentativa de se tentar aproximar de algum deles. Durante esse tempo, a amizade com outro dos maiores corruptos da história, Pinto da Costa, foi crescendo à medida que eram feitos negócios de jogadores para o FC Porto. Apesar desta franca amizade, surgiu a proposta do Benfica para integrar a direcção. Até à altura deste convite, LFV nunca tinha estado presente em assembleias do clube ou sequer ter ido ao estádio. O negócio da transferência de Pedro Mantorras foi a prova cabal suficiente para se abrirem as portas da Luz. Para não serem criados atritos ou suspeitas em assembleias gerais, foi atribuído a LFV um número de sócio de uma pessoa já falecida.

No dia que é nomeado presidente do Benfica, contrata Paulo Gonçalves, ligado à SAD Portista e do Boavista, grande amigo de Valentim Loureiro e Pinto da Costa, e contrata também José Veiga, que era a pessoa que servia como elo de ligação ao FC Porto quando presidia em Alverca. A sua admiração pelo FC Porto e, nomeadamente, por Pinto de Costa, serviu de inspiração ao esquema que foi montado com alicerces de mentiras e comportamentos deploráveis.

Em meados de 2009, surge uma notícia no jornal “Correio da Manhã” em que Vieira terá solicitado ao comandante da polícia para facilitar o controlo da claque benfiquista. A estrutura encarnada decidiu avançar com processo crime contra o jornal e, ao mesmo tempo, o autor da notícia desapareceu da redação e da própria notícia publicada, não se sabendo quem a partilhou nem o seu paradeiro. É desta forma que a comunicação social começa a ter pouca capacidade de gerir notícias contra o Benfica. A última notícia deste jornal sobre LFV foi em Dezembro de 2014 quando surge numa capa de um jornal uma dívida de 600 milhões de euros ao BES.

A rede começava a funcionar e as artimanhas muito bem oleadas. Elementos ligados à claque encarnada estavam a ser “contratados” para terem cursos de árbitro e, mais tarde, poderem estar na primeira divisão nacional a prejudicar adversários directos, beneficiando quem investiu na sua formação. É notório que juízes como Rui Oliveira, Manuel Mota, Luís Ferreira, Jorge Ferreira, Nuno Almeida, Fábio Veríssimo e João Pinheiro são árbitros com cursos e ascensões totalmente suportadas pelo clube encarnado. Quem não teve, por exemplo, acesso à foto de Rui Oliveira no Facebook no estádio do Jamor com a camisola do Benfica vestida? Além desta rede, juntamos as prendas aos árbitros. O mítico caso dos vouchers foi arquivado como se nunca tivesse existido. Se não era cometida qualquer ilegalidade, por que é que foram retirados os vouchers das ofertas aos árbitros antes dos jogos?

Finalmente, o recente caso dos e-mails. Estes e-mails vêm apenas confirmar a veracidade de toda a corrupção que hoje envolve o futebol português. Corrupção que teve mais impacto internacional, preenchendo até capas de jornais, do que em Portugal. A imprensa tentou ao máximo encobrir e dar pouco ênfase ao assunto. As contribuições monetárias para propaganda gratuita que se tinham submetido ao clube da Luz são de tal forma ilícitas que preferiram fazer manchete sobre a possível entrada na universidade do maior calote do futebol Português. Não satisfeitos com o tema e o esquema que tinha acabado de ser desfraldado, são lançadas bicadas ao presidente do Sporting e ao FC Porto não só pela proibição dos cigarros electrónicos e das alegadas comissões às transferências de Bruno César e Alan Ruiz, como também pela reabertura das escutas ao processo Apito Dourado. Tentativa clara, mas descabida, de ocultar a informação para se perceber qual a dimensão e impacto que esta denúncia de prática de corrupção poderia atingir.

Alguns dos emails que confirmam o que se suspeita há muito tempo
Alguns dos emails que confirmam o que se suspeita há muito tempo

A envolvência nesta desvirtuação é apelidada de Apito Amolgado. É tão díspar nos alvos que alcança, que até o nome do Primeiro Ministro estava mencionado como um elemento facilitador ao serviço do clube da Luz. A procuradoria-geral da República foi TÃO célere que emitiu um aviso sobre as denúncias de “esquemas de corrupção”. Após emitir o aviso efectua uma publicidade a informar que iriam ser feitas buscas para confirmar as denúncias. Fará “sentido” que seja esta a forma de agir? A ser tomada uma atitude tinha de haver, principalmente, o factor surpresa às buscas montadas. Foi claramente uma forma idêntica de avisar os infratores aos grupos de Operações STOP.

O esquema está tão bem montado que não terminam aqui as ligações de terceiros. Jorge Mendes, o verdadeiro patrão do clube da Luz, é quem gere, movimenta e traz retorno aos cofres da Luz. Em Portugal, há pelo menos três clubes que são geridos pelo empresário: Rio Ave, SC Braga e SL Benfica. Em Espanha, surge a ligação a clubes como o Valência e Atlético de Madrid. Em França, Mónaco e Nantes. Em Inglaterra, o Wolverhampton e qualquer clube treinado por José Mourinho. Analisem quantas transferências já foram feitas entre estes emblemas. Analisem que quantia entrou nos cofres da Luz na transferência de Ivan Cavaleiro para o Mónaco por 15 milhões de euros. Verifiquem as transferências do jogador Danilo do Braga para o Valência e do Valência para o Benfica por empréstimo com valor monetário envolvido.

Analisem por que é que depois de acabar a ligação de Jorge Mendes ao FC Porto, para ter exclusividade com o Benfica, José Mourinho só contrata jogadores ao clube da Luz, fazendo grandes investimentos a jogadores que poderiam ser negociados a preços inferiores. A lavandaria de Jorge Mendes é de tal modo eficaz e comprometida a LFV que consegue fazer aparecer e desaparecer valores sem que alguém consiga decifrar os erros e as fraudes cometidas. É extremamente difícil poder compactuar contra este tipo de operações. É quase impossível haver competitividade no futebol havendo um esquema deste montado e muito delineado que filtra jogadores, valores monetários e qualquer outro investimento que queira ser feito nestes clubes ou em atletas vinculados a estes emblemas.

Jorge Mendes, aqui com Cristiano Ronaldo, tem feito muitos negócios com um certo número de clubes Fonte: Facebook de Cristiano Ronaldo
Jorge Mendes, aqui com Cristiano Ronaldo, tem feito muitos negócios com um certo número de clubes
Fonte: Facebook de Cristiano Ronaldo

Sabemos perfeitamente como vai terminar esta história. A justiça é lenta e, muitas vezes, não funciona. Quando avança, colabora no sentido oposto. Aproveitando isso, tudo é protagonizado de forma bem visível, de modo clamoroso, como se estas pessoas fossem blindadas por uma protecção super impenetrável, motejando a liberdade e aquilo que se lutou durante épocas, brindando-a por fraudes, eliminação de provas e ocultação da verdade.

A ditadura é apenas uma expressão para alguns. Para outros, um capítulo da nossa história. Para muitos é a actualidade do futebol português. Políticos, comunicação social, forças da segurança nacional, árbitros, banqueiros e empresários fazem parte deste carrossel, são as figuras ousadas e privilegiadas deste bastidor intocável e absolutista sob a tirania de apenas uma personagem: Luís Filipe Vieira.

Foto de Capa: SL Benfica

António Gonçalves

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