a norte de alvalade

Se não viram o filme que serve de título ao post de hoje, recomendo. Realizado por Ettore Scola, cujo trabalho lhe granjeou o prémio do Festival de Cannes em 1978, o filme conta a história de uma família pobre que mora num subúrbio pobre de Roma em condições degradantes. Por via disso, o filme é um mostruário, em tom de comédia e drama, do que de pior o Homem é capaz de fazer a si mesmo e aos que vivem em seu redor.

Se não viu entretenha-se a ver um desses programas pretensamente sobre futebol que enxameiam as nossas televisões, onde agora vulgarmente conhecidos como programas de paineleiros, porque se aproxima em muitos aspectos do que de pior é retratado no filme de Scola. Sobre o pretexto de analisarem os jogos, os seus intervenientes desfiam entre si rosários de insultos, quase sempre ignorando o que devia ser o assunto central e que afinal lhes proporciona substanciais proveitos económicos: o futebol.

Estes verdadeiros atentados de lesa-futebol são a pedra filosofal das estações de televisão, especialmente de cabo. Não visando esclarecer ou exercer qualquer pedagogia, procuram a polémica em cada frase. Os seus ditos, cujos paineleiros são escolhidos a dedo, havendo até transferências entre canais, como se de artistas da bola se tratasse. É difícil para quem assiste, mesmo que inadvertidamente, não ficar à espera da reacção seguinte no habitual “tiroteio” entre as facções em confronto.

É esse excesso de controvérsia e polémica permanente que lhes proporciona a publicidade grátis, uma vez que é impossível que os adeptos que assistem fiquem indiferentes. Na era das redes sociais os comentários funcionam como focos de incêndio que se propagam como quem rega uma fogueira com gasolina.

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Há muito que deixei de ver qualquer dos programas – novos ou velhos – com assiduidade. As poucas vezes que tenho caído na tentação, não fazendo zapping imediato, só têm contribuído para vincar a má impressão geral e a noção de perda do meu precioso tempo que o seu visionamento implica. Valha a verdade que o facto de normalmente o Sporting estar muito mal representado na generalidade dos programas também não ajudou muito. Do ébrio ao auto confesso praticante de ilegalidades, já tenho cromos que cheguem.

Ora, isto dito, não pude deixar de me espantar quando assisti à última intervenção de Carlos Dolbeth num programa emitido na SportingTV. Mais ainda quando ela não só recolhe aprovação como a seguir pede que se junte a um dos mais histriónicos comentadores da nossa praça, um tal Pedro Guerra. Aqui há que reconhecer o traço de ADN comum deste com o correligionário que na SIC vai destilando fel a cada sílaba.

Estes comentadores não representam o Sporting Fonte: Facebook do Sporting/César Santos
Estes comentadores não representam o Sporting
Fonte: Facebook do Sporting/César Santos

Espero que se tenha tratado de uma vez, sem exemplo. Vai muito mal a direcção de programas do canal do clube se permitir ou até instigar uma espécie de braço de ferro de taberna, ou ping pong de dislates e gritos. É a face oposta do comportamento inerte e poltrão que tantas vezes me revoltou quando o Sporting não era cabalmente defendido, mas igualmente de repudiar. Como dizia a publicidade, tem de continuar a existir uma linha que separa a miséria intelectual, boçalidade e ordinarice do nome Sporting Clube de Portugal.

Embora haja muito quem ache que o Sporting “tem um estigma por ter ligado à sua origem viscondes“, essa é a sua maior riqueza. Não a da classe social dos seus fundadores per si, da sua origem ou do seu carácter restrito e exclusivista. A ser assim o Sporting não seria hoje mais do que uma associação de jogos de bridge, canasta, ou bailes de debutantes.

O Sporting nasceu, cresceu e consolidou o seu estatuto pela qualidade excepcional dos fundadores e sucessores, ao criarem uma identidade muito própria, mas simultaneamente de grande abrangência, arrastando atrás da sua bandeira milhões e acumulando milhares de troféus em dezenas de modalidades. A tal diferença que muitos querem, para nos apoucar, confundir com elitismo bacoco e extinto. O Sporting é indiscutivelmente popular mas não precisa de ser popularucho.

Mais do que ganhar muito ou pouco, creio ser essa a identidade que nos é muito própria e cara que nos tem permitido atravessar os piores dos tempos. Se quisermos ser tão feios, tão porcos e tão maus como os piores arriscamo-nos a confundirmo-nos com eles. E, se assim for, que razões terão os vindouros para querer ser do Sporting?

Foto de capa: Facebook do Sporting