Escrevi aqui mesmo no Bola na Rede no passado mês de abril que após a saída de Adrien Silva da equipa leonina se gerou um buraco no meio-campo da equipa de futebol do Sporting. Desde a saída do internacional português que a formação de Alvalade jamais encontrou um oito com as mesmas características e a qualidade de jogo que Adrien possuía.

Nesta temporada, a “cratera” continua no meio-campo mas, desta vez, deslocou-se um pouco para trás, precisamente para a posição seis, a de médio-defensivo. A abundância de jogadores na posição oito – casos de Misic ou Gudelj – leva a crer que, mais cedo ou mais tarde, o problema de um oito competente e eficaz se encontra finalmente resolvido. Ainda que tenhamos algumas incertezas acerca das capacidades técnicas de Misic, Gudelj parece vir a ser um jogador bastante capaz neste meio-campo do Sporting. Apesar do sérvio poder atuar a seis, prefere antes a posição oito, procurando inclusivamente várias vezes o remate. As suas declarações na entrevista ao Jornal Sporting na edição de 13 de setembro não deixam qualquer dúvida acerca isso. Dizia a dado momento o jogador contratado esta temporada aos chineses do Guangzhou Evergrande: “A oito participo mais ofensivamente e defensivamente. Gosto de fazer ambas as coisas. E, claro, permite-me rematar com mais regularidade. São esses os motivos pelos quais prefiro jogar a oito, mas a seis também não existem problemas” (p. 10).

Mas dizia que a cratera se deslocou esta temporada da posição oito para a posição seis. Com a saída de William Carvalho para os espanhóis do Bétis de Sevilha no defeso e dadas as parcas alternativas disponíveis no plantel para essa posição – só mesmo Petrovic é um seis puro e, mesmo este, não oferece garantias para uma equipa “grande” como o Sporting – José Peseiro tem ensaiado várias alternativas neste setor. Mas esses ensaios mais não são do que tentativas goradas em mascar um problema latente nesta equipa. A dupla argentina Battaglia – Acuña, que tem atuado nos últimos jogos, espelha essas fragilidades, pois é sabido que Battaglia rende muito mais se estiver liberto das tarefas defensivas (algo próximo de um oito, mais um!) e Acuña demonstra muita rapidez e agressividade pelo lado esquerdo, seja a extremo seja a lateral. No jogo da passada quinta-feira para a Liga Europa, Peseiro parece ter tomado consciência dessa situação e “arrastou” Acuña para a posição de lateral-esquerdo deixando o meio-campo constituído por um triângulo cujos vértices mais recuados eram ocupados por Gudejl e Battaglia e o mais avançado por Bruno Fernandes.

Os últimos jogos têm mostrado que Gudelj é mais um oito do que um seis. Mas as circunstâncias têm-no levado para setor mais recuados do meio-campo leonino
Fonte: Sporting CP

Então e Wendel? É sabida das suas competências técnicas e táticas, indiscutíveis e valorizadas por qualquer observador minimamente atento ao futebol, mas parece-me um jogador mais vocacionado para a posição oito do que seis (mais um!). Além disso, tem de confirmar ainda a sua adaptação ao futebol europeu que, como se sabe, é mais rápido e tático do que o brasileiro onde jogava.

A esperança, quando analisámos os médios disponíveis por José Peseiro, recai em Stefano Sturaro, esse sim, um seis puro, com claras vocações defensivas no auxílio à defesa nos momentos de maior aperto. Experiência e tarimba europeia são coisas que não lhe faltam mas as suas condições físicas parecem deixar muito a desejar. Como é sabido, o jogador foi operado no pretérito mês de agosto uma vez que apresentava complicações no tendão de Aquiles. Sousa Cintra advertiu isso mesmo a 21 de agosto: “O nosso departamento médico não aprovou a vinda do Sturaro. Tinha razão e ele, entretanto, já foi operado em Itália. Virá para o Sporting quando estiver em condições para jogar” (declarações recuperadas pela edição online do Jornal Record do dia 22 de agosto). De momento, resta aos adeptos e sócios leoninos continuar a aguardar a recuperação deste reforço.

Em suma, o Sporting 2018-19 apresenta parcos recursos no seu plantel para a posição de médio defensivo. Essa é uma realidade que, por muitas tentativas e máscaras que possam ser ensaiadas por José Peseiro, pode muito bem vir a ser uma grave lacuna. Pois é nessa posição que reside muito do jogo defensivo de qualquer equipa sendo também a base e o alicerce do processo ofensivo durante a fase de construção. Esperemos que isso não traga dissabores maiores à formação do Sporting.

Foto de Capa: Sporting CP

Artigo revisto por: Beatriz Silva

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