sexto violino

1) AS BOLAS AO POSTE – Quando, em 1995, José Roquette chegou ao cargo de presidente do Sporting, disse que, com ele, o clube seria duas vezes campeão em cada três anos e deixaria de estar dependente das bolas que vão ao poste e não entram. O discurso era tão ambicioso quanto irrealista: o que, na prática, se seguiu foi o esvaziamento do “Sporting-clube” e a criação do “Sporting-empresa”. O emblema de Alvalade perdeu património, associados e competitividade, entrando num ciclo cada vez mais dramático que quase culminou na dissolução do clube, em 2013. Os dois campeonatos ganhos entre 2000 e 2002 serviram de balão de oxigénio às chamadas direcções “roquettistas”, que encontraram nos sócios o apoio de que necessitavam.

Serve tudo isto para falar do dérbi de sábado e, em particular, de um minuto que poderia ter sido decisivo, mas não foi. Começa justamente numa bola ao poste, enviada por Slimani à baliza de Júlio César. A partida tinha começado pouco tempo antes e o Sporting enjeitava, assim, uma possibilidade flagrante de ferir de forma quase irreversível um Benfica já de si fragilizado. Pouco depois, confirmava-se que as consequências do falhanço do argelino eram as piores possíveis: o Benfica chegava ao golo. A equipa de Rui Vitória alcançava, por fim, aquilo que não tinha conseguido obter nos dois encontros anteriores com o Sporting, com a agravante de se ter adiantado no marcador.

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É aqui que entram as inevitáveis comparações do actual Sporting com o Sporting pré-2013. Até há dois anos, num cenário idêntico, a equipa entraria em pânico com o golo sofrido, enquanto o adversário se galvanizava. Agora já não. A primeira parte dos leões não foi bem conseguida mas, ainda assim, chegou para anular a vantagem encarnada e pôr fim ao anti-jogo do adversário – que, de resto, apostou mais nesse esquema do que o Arouca tinha feito contra o Sporting na última ronda. A partir de então a história do jogo mudou, assim como a História recente do Sporting tem mudado muito nos últimos tempos.

Para além da evidente superioridade da equipa de Jorge Jesus face ao rival de Lisboa, a entrega dos atletas permitiu ir buscar um jogo que, até há não muito tempo, estaria irremediavelmente perdido desde o fatídico minuto em que os leões enviaram uma bola ao ferro e as águias marcaram. Afinal de contas, mais do que dizer, para fins eleitorais, que o clube vai deixar de depender dos azares e das bolas nos ferros, é preciso criar condições para que tal aconteça. E, ao contrário do Sporting de Roquette, o actual Sporting está a criá-las, doa a quem doer.

2) O MEDO MUDOU DE LADO – Um outro aspecto que mostra bem a mudança de paradigma actualmente em curso no Sporting são duas declarações de Jorge Jesus. O treinador leonino não as proferiu esta semana, ou sequer este mês, mas elas estão carregadas de carácter simbólico e exemplificam aquilo que era e o que é actualmente o Sporting (e, por arrasto, o Benfica). Infelizmente não consegui recuperar textualmente uma das declarações, pelo que a cito de cor. Numa entrevista nos seus primeiros tempos de leão ao peito, Jorge Jesus mencionou o facto de, quando representava o clube da Luz, ter sempre a sensação de que os verde-e-brancos já partiam para o campo apáticos e psicologicamente condicionados quando jogavam contra clubes grandes. Se este facto era evidente aos olhos do mais leigo dos adeptos, claro que o melhor treinador em Portugal não deixaria de o explorar. E, com efeito, os jogadores do Sporting pareciam encolher quando iam ao Dragão ou à Luz. Isso, obviamente, era meio caminho andado para a derrota.

Agora as coisas mudaram, e aqui entra a segunda frase de JJ que não esqueço: após a conquista da Supertaça, em Agosto, o treinador não se coibiu de dizer que “o Benfica teve medo do Sporting”. Eu, que tinha ido ao Algarve de propósito para ver o jogo e que, nessa altura, ouvia a conferência de Jesus no carro, à espera de poder sair do parque de estacionamento sobrelotado, não pude esconder o sorriso. Para alguém que, como eu, exasperava com o temor com que os jogadores do Sporting defrontavam os rivais, aquele era um momento altamente simbólico. Muito mais do que uma “bicada” no Benfica, aquela frase representava um corte definitivo com o passado recente. A partir daquela noite de início de Agosto, o medo tinha mudado de lado. E os episódios seguintes, tanto dentro de campo como fora dele, só o têm vindo a confirmar.

Slimani é, neste momento, sinónimo de pânico para os benfiquistas Fonte: Sporting CP
Slimani é, neste momento, sinónimo de pânico para os benfiquistas
Fonte: Sporting CP

3) O DÉRBI – Muita da incapacidade do Sporting tinha, portanto, uma dimensão psicológica. Contudo, se os méritos de Jorge Jesus se limitassem a esse campo, ele seria psicólogo e não treinador de futebol. O trabalho que o técnico dos leões tem feito no Sporting, desde o tal campo mental até à imposição do seu esquema táctico e das suas rotinas, merece todos os elogios. No dérbi, Jesus soube ver que o Benfica iria abdicar do ataque organizado e fechar-se no seu meio-campo, pelo que a entrada de Gelson merece todos os aplausos.

A forma como o treinador tem moldado João Mário e tirado partido da sua versatilidade também é digna destaque, não esquecendo ainda o equilíbrio defensivo, que deu alguns dissabores no início da época mas que melhorou com o tempo de trabalho e com os regressos de William e Ewerton. A equipa do Sporting mantém-se serena em qualquer zona e a pressão constante “engole” os adversários. Em suma, o cunho de Jesus é cada vez mais evidente, embora as curtas soluções para as alas sejam um problema. Por último, convém dizer que a linha defensiva que terminou o jogo era composta por João Pereira e Esgaio nas laterais, e Tobias ao lado de Paulo Oliveira. A qualidade individual no sector não abundava, mas as ocasiões consentidas foram poucas ou nenhumas. Mérito para os jogadores e para o treinador.

4) AFINAL, QUEM SÃO OS CALIMEROS…? O glorioso Benfica, aquele que é o maior clube de Portugal (“o segundo maior é o “anti-Benfica”, dizem muitos benfiquistas – ai os complexos de superioridade…) e cujos adeptos dizem nunca falar de arbitragens, tem protagonizado cenas tristes, não só no tratamento a Jorge Jesus como na ressaca das várias derrotas recentes. Desta vez querem a todo o custo castigar Slimani (e provavelmente conseguirão). De nada interessa que o golo do Benfica tenha sido precedido de falta, que Jardel tenha placado Adrien sem bola e quando já tinha amarelo (percebo que Jorge Jousa possa não ter visto estes dois lances, mas isso é mais um ponto a favor do vídeo-árbitro que o Sporting defende mas cuja proposta o Benfica ridicularizou) ou que Samaris tenha feito penálti sobre Slimani (não acho um lance evidente, mas o penálti de que os benfiquistas se queixam sobre o seu capitão também não o é). A conduta de Eliseu também foi irrepreensível. O que interessa é tentar a todo o custo afastar na secretaria um dos jogadores-chave do Sporting. Isto vindo de um clube que até há bem pouco tempo contava com os préstimos de Javi Garcia e Maxi Pereira, é preciso não esquecer. De facto, há situações irónicas.

Este triste espectáculo é, ao mesmo tempo, deprimente e delicioso. Deprimente porque nenhuma outra palavra ilustraria melhor tamanha desorientação e perda de dignidade; delicioso porque aqueles que chamavam “calimeros” aos Sportinguistas estão, eles próprios, a privar-se de um dos seus pseudo-argumentos favoritos. Os benfiquistas que fizeram pouco da proposta sobre o vídeo-árbitro, porque não lhes interessava, talvez para a próxima pensem duas vezes. E já se dá aqui de barato o facto de dizerem que têm mais razões de queixa do que o Sporting .

Depois da queda dos mitos do ano da fundação, do número de sócios, do suposto facto de só os outros serem “antis” e, agora, dos “calimeros”, só falta mesmo cair o mito de Vieira, “o estruturador”. Mas, pela parte que me toca, não há pressa nenhuma.

Para que a memória não se perca, aqui ficam os vídeos de dois dos maiores roubos em dérbis a que já assisti. Aos que hoje se queixam sem razão nenhuma – estão mesmo muito mal habituados – respondo com aquilo que tantas vezes tive de ouvir quando me queixei: “joguem à bola e marquem mais golos do que nós”.

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Foto de capa: Sporting CP