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O Sexto Violino

Terminei o meu texto da semana passada dizendo que o Sporting trava actualmente uma batalha interna de corte com o passado e de reestruturação do clube. E foi justamente este tema que resolvi aprofundar esta semana. Estes quase dois meses de campeonato mostraram-nos claramente que o Sporting está melhor do que no ano passado – pior também era difícil – e deram esperança aos adeptos leoninos de que o passado já tenha sido definitivamente atirado para trás das costas. Mas até onde poderá chegar este Sporting? Esta é a chamada pergunta para um milhão de euros que tem dominado as discussões não só de sportinguistas, mas também dos rivais e dos apreciadores de futebol em geral.

Começo por dizer que a direcção escolheu o caminho que me parece mais lógico e realista, que é afastar responsabilidades de luta pelo título e adoptar o discurso de que o Sporting é “candidato à conquista dos próximos 3 pontos”. Nem podia, aliás, ser de outra forma. É verdade que o Sporting, enquanto grande clube, é, ou deveria ser sempre, candidato ao título, mas não é menos verdade que o clube acabou de sair de um período negro de quase duas décadas e que as feridas daí resultantes precisam de mais do que um par de meses para sarar. Não convém, portanto, que queiramos dar um passo maior do que a perna e que percamos de vista que ainda estamos a uma distância considerável do Porto e do Benfica, quer em termos financeiros quer ao nível da qualidade do plantel. Foi, aliás, o nosso excesso de confiança fruto de um bom arranque de campeonato há dois anos que, em boa parte, contribuiu para um entusiasmo excessivo e consequente desastre. O Sporting não estava, em 2011/2012, pronto para competir com Porto e Benfica, como a meu ver também não está agora – e digo isto numa altura em que até estamos à frente de um deles e podemos ultrapassar o outro na próxima jornada.

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Na nossa condição de clube renascido das cinzas, e com o plantel que temos, o objectivo tem de passar por alcançar o terceiro lugar e respectiva qualificação para a Champions. Em condições normais, será isso que vai acontecer em Maio. Mas, da mesma forma que não acho que se possa exigir o campeonato ao Sporting, também não escondo que tudo o que for aquém do pódio será para mim uma enorme frustração. A partir do momento em que uma equipa como o Paços de Ferreira consegue alcançar o terceiro lugar (e digo isto com todo o respeito que o conjunto da Capital do Móvel merece, apesar daquele célebre golo com a mão que nos custou um campeonato…), então será quase inadmissível que o Sporting não o consiga. Porto e Benfica têm mais condições materiais, experiência e estabilidade, o que lhes permite estar alguns passos à frente do Sporting, mas o mesmo se pode dizer do nosso clube relativamente a todas as outras equipas. É por isso que o terceiro lugar é, para mim, simultaneamente o mínimo e o máximo exigível esta época.

Bruno de Carvalho é a face do novo leão / Fonte: SuperSporting
Bruno de Carvalho é a face do novo leão / Fonte: SuperSporting

E por que não sonhar com metas mais ambiciosas? É verdade que a diferença do futebol praticado pela equipa relativamente aos anos anteriores é gritante: a defesa está mais estável e dinâmica (destaco aqui as exibições de Jéfferson, um autêntico dínamo no apoio ao ataque), a afirmação de William Carvalho equilibra a equipa, os extremos chegam mais vezes a zonas de finalização, há uma gestão satisfatória da posse de bola em progressão, a equipa surge mais pressionante e com uma nova atitude e, claro, há ainda Fredy Montero. Mas, por outro lado, é preciso não esquecer que a mesma equipa que nos fez voltar a sentir orgulho no nosso clube tem as suas limitações, e a meu ver precisaria de um ou dois jogadores de nível internacional para poder ombrear com Benfica e Porto – sendo que, para isso, é preciso dinheiro… O Sporting tem um bom conjunto de jovens promissores, que estão agora a despontar para o futebol e que finalmente puderam conquistar o seu espaço. Mas duvido que seja o suficiente para manter a forma inicial ao longo de uma época que ainda vai no início e que trará algumas deslocações complicadas. Com efeito, e apesar das vitórias, nestes últimos jogos já se notou uma certa quebra, visível sobretudo na incapacidade do meio-campo se impor e abrir espaços contra equipas mais defensivas e com aquele sector bem povoado.

Antes de terminar, peço apenas que não se confunda este meu texto com uma vontade encapotada de ver o Sporting falhar, porque nada me faria mais feliz do que ver o meu clube novamente no topo. Mas, uma vez mais, é importante que mantenhamos os pés assentes na terra. Esquecer a realidade e assumir a candidatura ao título é algo sem dúvida tentador, sobretudo quando quase todos os dias alguns sectores da imprensa impelem os responsáveis do Sporting a declararem-se candidatos (a mesma imprensa que depois nos atacaria caso falhássemos o título). O clube pouco ou nada tem a ganhar em seguir por esse caminho. A esta “nova moda” de querer colocar a todo o custo o Sporting a lutar pelo campeonato, porém, contraponho uma outra, advogada pelo treinador Leonardo Jardim: o objectivo para este ano é, com humildade e realismo, “fazer o Sporting crescer”.

Saudações leoninas

P.S.: Pouco me interessa a selecção. Mas o erro de Rui Patrício no último jogo fez com que muitos esfregassem as mãos com a oportunidade de poderem “desancar” simultaneamente nele e no clube que o formou. Lembro apenas que, se Portugal não tivesse empatado jogos que não devia, não estaríamos agora de calculadora na mão. Se Paulo Bento (por quem sempre tive alguma estima mas cuja seriedade começo a pôr em causa) não desse cega primazia aos atletas de um certo traficante, aliás, empresário de futebol, talvez não estivéssemos nesta situação. Se o Nélson Oliveira tivesse dado a bola ao Ronaldo em vez de se pôr a inventar, provavelmente Portugal tinha ganho o jogo. E se o Sporting não fosse o abono de família desta selecção há várias décadas, provavelmente aqueles que apontam o dedo a Patrício e criticam Ronaldo nunca teriam tido a oportunidade de ver o seu país disputar um Europeu ou Mundial, e teriam uma selecção ao nível de uma Albânia ou Macedónia.

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