Cronologia de um grande Amor

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O Sexto Violino

Ao contrário do que acontece com tantas outras áreas da vida, o desporto caracteriza-se por ser vivido não através da razão mas sim com uma grande dose de emoção. Não faltam exemplos de pessoas habitualmente calmas e ponderadas que alteram radicalmente o seu comportamento quando a sua equipa favorita joga. E, se isto é verdade para o desporto em geral, mais verdadeiro se torna quando falamos de futebol, a modalidade que arrasta mais seguidores a nível planetário. Em jeito de apresentação e também como forma de tentar racionalizar o facto de, em criança, ter escolhido apoiar um determinado clube e não outro, neste meu primeiro texto escolhi fazer uma retrospectiva e falar um pouco da minha experiência pessoal e da minha relação com esse espectáculo apaixonante que é o futebol. Claro que uma decisão que se toma de forma inconsciente aos 4 ou 5 anos não pode ser explicada por completo e haverá muitos pormenores de que não me recordo, mas procurarei fazer o meu melhor.

Nasci numa família de benfiquistas – situação que, em condições normais, me deixaria com o destino traçado. No entanto, uns anos antes de eu nascer, a minha mãe conheceu um sportinguista com quem acabou por casar, trazendo a democracia a uma família até então habituada a um regime de “clube único”. Não posso dizer que o meu pai alguma vez me tenha imposto o que quer que seja em termos clubísticos, mas claro que, possivelmente como forma de tornar as discussões futebolísticas em futuros jantares de família um pouco mais toleráveis para o seu lado, me tentou ganhar para a causa sportinguista. Mas não foi uma tarefa fácil – não porque eu estivesse decidido a ser do Benfica, mas sim porque do outro lado tinha tios e primos a fazerem pressão nesse sentido. Contudo, nunca senti nenhuma especial atracção por esse clube, ao contrário do que desde cedo começou a acontecer com o Sporting. O mundo de uma criança é apenas formado pelos locais e pelas pessoas que esta conhece pelo que, para mim, os outros clubes que não o Benfica eram tão desconhecidos e intrigantes como o eram os mares e oceanos para os navegadores portugueses do séc. XV. “Por que será que quase todos os que conheço são do Benfica? Não se pode ser de outro clube? Como é que será?”. Eram estas as perguntas que me ecoavam na cabeça. Também achava curioso o meu pai ser de outro clube, o único na família que não era do Benfica… Por que seria ele do Sporting? Seria diferente de ser do Benfica? Já começava a ter as minhas preferências mas, para não entrar em conflito com a minha mãe nem com o meu pai, a certa altura lembro-me de andar a dizer que o meu clube era o Campomaiorense. Isto não passou de uma fraca tentativa da minha parte de adiar o inadiável, já que, naquela época, o Campomaiorense equipava e tinha um símbolo praticamente igual ao do Sporting…

Também houve outros factores que me foram aproximando do clube de Alvalade, como por exemplo o facto de na altura morar perto do estádio e de ter tido como vizinhos no prédio do lado dois jogadores sportinguistas – primeiro o Fernando Nélson e depois o Vidigal. Da janela da sala avistava-se, ao longe, uma das torres de iluminação do estádio antigo e, nos dias de jogo, para além de a minha rua se encher de pessoas com cachecóis e camisolas verdes e brancas, sempre que havia golo do Sporting conseguia ouvir os gritos dos adeptos. Certo dia, tinha ido tratar de qualquer coisa com o meu pai e depois disso passámos nas imediações do estádio, numa altura em que decorria um jogo. Vejo o meu pai a dirigir-se a um dos porteiros e a perguntar: “Posso entrar com o miúdo?”. A simpática atitude do funcionário, talvez impossível nos dias que correm, fez-me sentir pela primeira vez o ambiente de um jogo de futebol ao vivo. Assisti, de graça, à última meia hora de um Sporting-Gil Vicente, que vi agora ter sido disputado no dia 23 de Dezembro de 1995 – tinha eu quatro anos…! Outra memória que tenho de uma das primeiras vezes que fui a Alvalade é a de estar a voltar do estádio com o meu pai e ele, habitualmente muito reservado, ir a cantar a Marcha do Sporting… Ver o meu pai deixar-se contagiar por uma alegria quase infantil, como só algo que mexe emocionalmente connosco é capaz de fazer, foi um episódio que me marcou e que me empurrou cada vez mais para perto do Sporting.

Pedro Barbosa / Fonte: conversasredondas.blogspot.com
Pedro Barbosa / Fonte: conversasredondas.blogspot.com

À medida que ia consolidando a minha condição de sportinguista, os benfiquistas que me eram próximos faziam as últimas tentativas de me ganharem para o seu lado. Recordo que os anos 90 não foram um período fácil para os adeptos leoninos, e as férias e reuniões de família eram sempre ocasiões difíceis devido às habituais picardias futebolísticas que os miúdos fazem. Era costume dar-me com os meus primos e com amigos deles, todos mais velhos, e numa ocasião em particular senti-me de tal forma achincalhado que, na inocência dos meus 5 ou 6 anos de idade e sem qualquer capacidade de resposta, ponderei mudar para o Benfica apenas para não ter de passar por aquilo. Foi a única vez que a minha fidelidade ao Sporting foi abalada. Porém, nunca me consegui rever naquele clube e, em parte por isso e em parte também por relacionar os benfiquistas que conhecia com uma certa sobranceria (talvez devido ao modo como se dirigiam a mim, por não partilhar do gosto deles), fixei-me permanentemente no Sporting.

Os anos seguintes correram melhor: estive dos 6 aos 15 anos numa turma quase exclusivamente de sportinguistas, e foi nesse período que celebrei os campeonatos ganhos em 2000 e 2002. A incrível chegada de Schmeichel, então o melhor guarda-redes do mundo, a fantástica metamorfose de um certo avançado argentino de “velho” para “El Matador”, a elegância de jogadores como Duscher, De Franceschi, André Cruz ou Beto, a enorme eficácia de Niculae e Jardel, o brilhantismo de Quaresma e João Pinto, tudo isto me fez sentir um enorme orgulho no clube que, contra todas as probabilidades, escolhi para defender durante toda a vida. Nos jogos da escola tentava imitar o Pedro Barbosa, meu ídolo de sempre, cujo nome os meus colegas por vezes me gritavam das (raras) ocasiões em que eu produzia uma jogada tecnicamente empolgante.

Infelizmente, depois de 2002, o Sporting entrou num período crítico em que as vitórias e as boas exibições passaram a ser a excepção e não a regra. Desde oportunidades únicas perdidas para sempre – como a derrota na final da Taça UEFA em 2005 – até momentos de vergonha que me fizeram pensar se alguma vez voltaria a ver o Sporting temível com o qual me identifico – de que é exemplo a hecatombe com o Bayern em 2009 ou o 7º lugar do ano passado – os desaires foram-se sucedendo e a esperança deu lugar ao desencanto, que teimou em persistir até praticamente ao momento em que escrevo. No entanto, durante todo esse tempo (exceptuando a última época, em que prometi não voltar ao estádio enquanto o Sporting não mudasse de rumo) não deixei de apoiar o clube e de ir aos jogos sempre que pude, à semelhança do que acontece com muitos sportinguistas. Não costumo ser uma pessoa particularmente optimista, e muito menos no que toca a futebol, mas ainda assim atrevo-me a dizer que o pior já passou. O Sporting encontra-se em plena mudança de ciclo e enfrenta uma batalha que, em primeiro lugar, tem de ser travada a nível interno. Só depois de arrumada a casa poderemos, tanto no futebol como nas modalidades, recuperar o tempo perdido e consolidar um estatuto que é nosso por direito: o de Maior Potência Desportiva Nacional.

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