O Sporting CP visto sob vários ângulos mortos

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“O preço da memória
É o seu cruel sabor
Que o tempo escreve a história
Com o braço vencedor”
– Benjamim, em Ângulo Morto

A estrofe que se eleva merece atenção redobrada por parte do leitor, seja no Sporting CP ou não. Estou há um ano – sensivelmente – a intrometer o meu nariz naquelas quatro linhas, mas a porta está cerrada. O intérprete pegou na – aparente – densidade reduzida daquele conjunto de palavras e embrulhou-as num esquema rimático cruzado ao qual ainda não fui capaz de atribuir o ABAB (ou bêàbá, se preferirem).

Pior! Assisti ao concerto de Benjamim e sua respetiva banda no Vodafone Paredes de Coura 2022 e, assomado pela esperança de desvendar a escrita, aguardei a chegada da canção. Ângulo Morto encerrou o recital e todo o papiro harmonioso cuidadosamente preparado. Tentei, ao máximo, vestir o fato do estoicismo emocional, aprontar o bloco de notas e a caneta e equacionar o momento. Acabei preso ao uníssono e ao abraço amigo de conhecidos. Jurei vingança quando o voltasse a ouvir, a menos que pronto. “A menos que pronto” também está na lista de temas para ensaio e discussão.

Contudo, convoquei os meus botões para inúmeras reuniões nas derradeiras semanas. Eles questionaram-me sobre a frequência com que eu tinha sintomas ligados à imbecilidade. Respondi “cinco vezes por semana” e passamos o diapositivo do PowerPoint para o slide dos assuntos sérios. Aí, construí a minha teoria.

O Sporting Clube de Portugal pode estar metaforizado no refrão da música de Benjamim. Na época desportiva em curso, tendo por base os jogos realizados até à data, já ouvi:

Adepto Petrarca: “O Rúben Amorim já deu o que tinha a dar. As equipas adversárias já conhecem o sistema tático e as dinâmicas empregadas pela equipa. Em sete jogos, a equipa perdeu 11 pontos e está completamente fora das contas do título.”

Adepto mais Petrarca que Petrarca: ”Já tinha avisado na pré-época. Quem preparou a época, esqueceu-se de que o clube competia interna e externamente. Vamos com Moritas e Rochinhas para a UEFA Champions League? Isso cabe na cabeça de alguma alma que queira o sucesso desportivo do seu clube? E só de pensar que rejeitaram o Ronaldo para que se garantisse a continuidade de Rúben Amorim… até me dá um raminho. Para o ano pode haver mais, se tudo for revertido”.

Adeptos que nunca leram Wuthering Heights e se depararam fúria de Heathcliff: “Este ano, o SL Benfica vai cilindrar tudo e todos. O Roger Schimdt foi buscar muitos craques e pôs a equipa a jogar como há muito não se via. Quando jogarem contra o Sporting CP, vai ser um pesadelo. Estamos no fim de setembro e ainda não perderam! Vai ser um passeio… O Sporting CP devia olhar mais para o outro lado da Segunda Circular…”

Adeptos que identificam facilmente o Dâmaso Salcede do plantel: “Pá, já ouvi muita coisa sobre o momento e a crise que a imprensa quer agrafar ao dossiê Sporting CP. Para mim, a culpa do lugar que ocupamos pertence ao Ricardo Esgaio. Fez m**** em Braga, fez m**** no Bessa, fez um jogo deplorável contra o GD Chaves. Não tem qualidade para jogar com aquela camisola. Pesa-lhe e muito. Era preferível jogar sem lateral direito. De resto, não encontro problemas. Estamos por cima em todos os jogos. Pecámos na finalização”.

Adeptos que obrigam os outros a experimentar o cruel sabor do preço da memória: O ano do título de campeão nacional foi utópico a todos os sentidos e as provas parecem estar à vista de cada um. Não tarda muito, o Sporting CP volta ao que foi durante anos a fio. No fundo, Rúben Amorim teve a sorte e a estrelinha do seu lado. Correu-lhe tudo bem. Mesmo no ano transato, perdemos o campeonato porque fomos completamente imaturos no virar do calendário. Este plantel está ao nível de um liderado por Vercauteren, Domingos Paciência, José Couceiro ou Paulo Sérgio. No fim, fazem-se as contas. Esperemos que haja cachet para a Europa.

Quarta-feira, na cerimónia de entrega dos emblemas a adeptos com 50 anos de sócios, Frederico Varandas recordou que “ser cinquentenário é muito mais do que usar este emblema na lapela do casaco, é ter a responsabilidade de transmitir às novas gerações o que é ser Sporting. É dizer presente nos momentos-chave da vida do clube, faça chuva ou sol, na vitória e na derrota”.

Persiste a sensação de que alguns adeptos não aguentam uma escapadinha ao deserto ou um saltinho ao Alasca, desconhecendo ter passado por tornados, maremotos e nevões do tamanho talento do Benjamim.

Para estes, o tempo escreveu a história com o braço pessimista e irá escrever as estórias futuras com o braço (vencedor) decepado.

Romão Rodrigues
Romão Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
Em primeira mão, a informação que considera útil: cruza pensamentos, cabeceia análises sobre futebol e tenta marcar opiniões sobre o universo que o rege. Depois, o que considera acessório: Romão Rodrigues, estudante universitário e apaixonado pelas Letras.                                                                                                                                                 O Romão escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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