sexto violino

A menos que o leitor ande muito distraído, a resposta à pergunta lançada no título deste texto só pode ser “não”. Desse modo, como se explica a constante presença de Fredy Montero no banco? Mais grave ainda, como se explica que, nos últimos três jogos, o segundo melhor marcador do Sporting no campeonato, com 7 golos, nem sequer tenha entrado em campo? Esse facto só seria compreensível em virtude ou de uma extraordinária abundância de qualidade no plantel ou de uma lesão do jogador. Uma vez que a primeira hipótese não se verifica e que tudo indica que Montero não esteja condicionado, torna-se difícil perceber a sua ausência recente. Marco Silva está a desperdiçar um dos melhores jogadores de que o Sporting dispõe.

De seguida, apresentam-se cinco motivos que me levam a defender a titularidade deste jogador no apoio a Slimani:

1) MAIOR VOLUME OFENSIVO: em 90% dos jogos em casa e em grande parte dos jogos fora justifica-se que o Sporting retire um elemento do meio-campo para tentar sobrecarregar a baliza contrária. Esta época, o clube raramente faz golos cedo e anda constantemente “com o credo na boca” para conseguir marcar aos adversários. Uma vez que a defesa tem sido tudo menos sólida, os leões já se viram inúmeras vezes a ter de correr atrás do prejuízo e, nos jogos contra Paços de Ferreira, Belenenses (em casa e fora) e Moreirense não conseguiram reverter completamente a desvantagem inicial.

Ora, se assumirmos que, contra adversários inferiores, o mais difícil é fazer o primeiro golo, faz sentido promover um “assalto” à baliza contrária desde o apito inicial até se chegar ao 1-0, de forma a poder depois gerir com bola, procurando calmamente o segundo golo e obrigando o adversário a abrir-se e a abandonar a sua estratégia de “jogar com o relógio”. O excesso de jogadores no meio-campo não será alheio ao facto de o Sporting dar constantemente uma parte de avanço aos adversários. É verdade que colocar mais avançados em campo não significa necessariamente fazer mais golos, uma vez que a dinâmica da equipa também importa. Mas Montero e Slimani são perfeitamente compatíveis e, mais do que isso, a presença de ambos no onze é benéfica.

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2) MONTERO E SLIMANI COMPLETAM-SE, A EQUIPA MELHORA: Não é preciso ver muitos jogos do Sporting para concluir que o colombiano e o argelino são futebolistas completamente diferentes. O primeiro pode funcionar como construtor, enquanto o segundo é sobretudo um finalizador. O “problema” de Montero foi ter iniciado a sua carreira no Sporting com números “jardélicos”. 13 golos em 10 jogos é obra, e os adeptos leoninos ficaram mal habituados. Pior: na minha opinião, essa óptima mas irrepetível fase de El Avioncito levou a que muitos Sportinguistas tenham analisado de forma errada o jogador que ele é e o que pode e não pode oferecer à equipa.

Fredy Montero nunca será um ponta-de-lança puro, um goleador, mas é perfeito para jogar no acompanhamento a um homem de área. Embora menos repentista e definitivamente menos artista, encontro-lhe algumas semelhanças com Matías Fernández (um futebolista de encher o olho que, infelizmente, chegou ao Sporting na pior fase da História do clube) ao nível da visão de jogo, do último passe e da capacidade de jogar entre linhas e abrir espaços para os colegas. Deste modo, o Sporting iria deixar de estar dependente das bolas despejadas para a área pelos extremos, numa procura desesperada de Slimani (mesmo quando ele não está lá), e passaria a poder variar entre o jogo lateral e o jogo interior. O resultado seria uma equipa com uma maior variedade de recursos e, portanto, mais imprevisível e difícil de anular.

slimani montero
Contra a maioria das equipas portuguesas, justifica-se colocar Montero no apoio a Slimani. O Sporting não pode ter medo de o fazer

3) MENOS PRESSÃO SOBRE O JOGADOR: ao verem Montero como ponta-de-lança puro, os adeptos do Sporting esperam sempre que ele faça golos. Mas, como o ex-Millonarios não é nem nunca foi um homem de área – falta-lhe capacidade física, melhor jogo aéreo, melhor capacidade de desmarcação e mais frieza na hora de finalizar – é natural que não se sinta seguro nesse papel. O período de vários meses sem marcar um único golo terá sido certamente fruto da ansiedade de cumprir uma função que não pode ser a sua. Jogando no apoio a Slimani, Montero não só passaria finalmente a alinhar na sua posição natural como se libertaria da pressão de ter de fazer o gosto ao pé em todas as partidas. Como tal, em virtude dessa descompressão, não seria de estranhar que o seu rendimento em frente às balizas subisse. E o de Slimani, mais acompanhado, também.

4) QUALIDADE NAS BOLAS PARADAS: Com a melhoria das condições de treino e da vertente táctica, hoje em dia não é surpresa que uma equipa humilde possa estragar os planos de um clube grande. Como tal, as bolas paradas – momento completamente à parte do jogo – têm vindo a desempenhar um papel cada vez mais importante na decisão de certos resultados. O Sporting, contudo, parece ainda não se ter apercebido disto, já que, época após época, os plantéis não incluem nenhum especialista em cantos e livres. Há uns anos, chegou-se ao cúmulo de colocar Polga a bater os penáltis (!) e Abel os livres directos (!!).

Nesta temporada Jéfferson continua sem justificar a alcunha de “Roberto Carlos da Amoreira”, Tanaka fez um golão em Braga (cá está um exemplo de 2 pontos que fugiriam se não fossem os livres…) mas nunca mais bateu um lance do género, e os pontapés de Nani só passam relativamente perto da baliza devido às inegáveis qualidades técnicas do jogador. Contudo, custa-me perceber como é que um futebolista que nunca deve ter feito um golo de livre na carreira seja designado para o tentar agora que está no Sporting. Fredy Montero, por seu turno, tem algum historial na marcação bem-sucedida de livres directos (como contra o Dallas, o Toronto e o Portland, ao serviço do Seattle, ou frente ao Santa Fé já pelo Millonarios, num jogo que tive a oportunidade de ver porque já se falava na vinda deste jogador para Alvalade).

5) MAIS REMATES DE LONGE: a capacidade de Montero nos livres directos estende-se aos lances de bola corrida. A boa meia-distância do colombiano deve ser tida em conta e, no Sporting, já garantiu golos à Fiorentina, ao Paços de Ferreira e ao V. Setúbal, para além do “tiro” frente aos LA Galaxy quando jogava nos EUA e que merece ser visto. Recuando um pouco no terreno, o 17 leonino não só ficaria mais liberto da marcação dos centrais, preocupados com Slimani, como poderia dispor de mais tempo e espaço para tentar o pontapé de longe. É que, no actual meio-campo do Sporting, conta-se pelos dedos de uma mão o número de remates de longe por época…

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William e João Mário são suficientes para aguentar o meio-campo do Sporting. Enquanto equipa grande, os leões não podem recear jogar ao ataque

Em suma, onde encaixaria Montero? Sendo ele um jogador diferente de João Mário e de André Martins, não se lhe pode exigir que desempenhe exactamente o mesmo papel dos médios leoninos. A sua convivência com Slimani no onze teria o objectivo de munir a equipa de mais opções atacantes, tornando-a mais agressiva na frente. Não se espere, pois, que o colombiano se destaque na recuperação defensiva. Este texto assenta na ideia de que, contra a maioria das equipas, William e João Mário são suficientes para desempenhar as funções do meio-campo, com Montero a jogar mais entre linhas. No papel, o sistema que defendo estaria mais próximo do 4-4-2 do que do 4-3-3, um pouco à semelhança do que acontece no Benfica com Jonas e Lima.

Fredy Montero é ainda hoje vítima da óptima fase por que passou quando chegou ao Sporting, e que levou a que alguns adeptos pensassem que o clube tinha contratado um novo Jardel. Montero não podia estar mais longe desse perfil, mas não é isso que faz dele um jogador dispensável. Longe disso, aliás. Em forma, o colombiano pode tornar-se facilmente num dos melhores jogadores em Portugal. Para tal, contudo, é preciso que o coloquem na posição certa. A equipa técnica tem de conhecer os jogadores que tem. Há uns anos, o Sporting teve Matías Fernández e desperdiçou-o. Que a História não se repita agora com Fredy Montero.

 

Fotos: Sporting Clube de Portugal

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O João Sousa anseia pelo dia em que os sportinguistas materializem o orgulho que têm no ecletismo do clube numa afluência massiva às modalidades. Porque, segundo ele, elas são uma parte importantíssima da identidade do clube. Deseja ardentemente a construção de um pavilhão e defende a aposta nos futebolistas da casa, enquadrados por 2 ou 3 jogadores de nível internacional que permitam lutar por títulos. Bate-se por um Sporting sério, organizado e vencedor.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.