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Aqui ao lado (leia-se para os lados da Luz) os efeitos do resultado esmagador do derby ainda perduram. A discussão centra-se no trabalho da agora tão invocada “estrutura” e no treinador. Nestas matérias, quando os resultados não aparecem as consequências são sempre as mesmas: a última e a mais pesada das facturas tende a ser paga pelo treinador, entretendo-se a estrutura em estratégias de sobrevivência, leia-se sacudir a água do capote.

Numa organização saudável os resultados deveriam ser da responsabilidade de todos, quaisquer que eles fossem, mas o mundo aproxima-se mais da perfeição para quem detém o poder. Porém, bem vistas as coisas, o trabalho da estrutura não passa, na maioria dos casos, de manobras de diversão; uma vez que é ela a primeira e a última responsável pela escolha do treinador. No caso concreto –  a com escolha de Rui Vitória – são manobras de grande dificuldade, pois o que agora está a acontecer só espanta os mais distraídos.

É fácil de perceber que a substituição de Jorge Jesus, pelo tempo e pelo êxito obtidos, seria sempre difícil. No entanto, quando a opção recaiu no ex-treinador do Vitória de Guimarães, a opção foi pelo risco e pela ruptura, tantas são as diferenças entre ambos. Estas vão desde factores secundários, mas não negligenciáveis, como a personalidade – será que o discurso de Rui Vitória está a ser facilmente assimilado pelos adeptos benfiquistas? – mas que se centram sobretudo no modelo de jogo que o treinador trazia consigo. O que foi quase perfeito para um Vitória de Guimarães em recuperação financeira pode não ser para um clube com a responsabilidade do SLB e a viver um período de reafirmação. Algo que nós já tínhamos percebido quando fomos buscar Paulo Sérgio à mesma origem, com os resultados que sabemos.

Não é por acaso que a anteriormente tão incensada “estrutura” desferiu quase de imediato um forte ataque ao seu ex-treinador e ao Sporting: percebeu que dificilmente deixaria de ser imputada a responsabilidade da saída de JJ e que esta significava duas derrotas em simultâneo: enquanto saía mas fraco da perda, o rival de sempre, nós, encurtávamos distâncias de forma drástica. Talvez o equivalente mesmo a queimar uma série de etapas que uma aposta sustentada de crescimento mas mais demorada poderia proporcionar.

Apesar da rivalidade que nos separa, não me custa reconhecer que o trabalho desenvolvido por LFV na recuperação do SLB é sem dúvida notável, atendendo sobretudo ao ponto de partida. Os meios postos à disposição do clube, nomeadamente na aquisição de jogadores,  foram determinantes para o sucesso obtido. Mas a saída de JJ e a respectiva substituição demonstra que uma importante parte dos factores que conduziram o clube ao êxito já não moram lá e se transferiram para o lado do Sporting: Jorge Jesus. De tal forma que se pode perguntar se com Rui Vitória alguma vez o mundo futebolístico conheceria hoje os nomes de Gaitan, David Luiz, Ramirez, Di Maria, Enzo Perez, Witsel, Matic, Markovic ou Coentrão, mais as somas astronómicas das respectivas transferências.

A cultura de exigência e as qualidade de Jesus permitiram ao Sporting um salto qualitativo notável Fonte: Sporting Clube de Portugal.
A cultura de exigência e as qualidade de Jesus permitiram ao Sporting um salto qualitativo notável
Fonte: Sporting Clube de Portugal.

Como sabemos, o Sporting passa por um período de paulatina recuperação. Se há mérito indiscutível a assinalar na liderança de Bruno de Carvalho é a da escolha dos treinadores. Todos os escolhidos têm uma responsabilidade indiscutível na recuperação desportiva do clube, conseguindo obter pelo menos os “mínimos olímpicos” no que a resultados diz respeito.

A recuperação desportiva está indubitavelmente relacionada com a recuperação financeira e com a taxa de aprovação de Bruno de Carvalho entre os associados. Porque o que um clube como o Sporting tem que oferecer aos seus sócios e adeptos são as emoções – a relação com o clube é 99,9% emocional – que só as vitórias proporcionam.

A chegada de Jorge Jesus pode representar uma rápida mudança de era no futebol do Sporting. mesmo considerando de forma responsável que vivemos uma era de vacas magras e incerteza, que não permite investimentos avultados como os que teve no clube anterior. Este momento tem porém pelo menos uma virtude: obriga o treinador a olhar para “o que a casa dá”, isto é, a formação. É isso que tem acontecido, com jogadores como Gélson, Matheus, Mané e Esgaio a acumularem minutos. O mesmo se pode dizer com os progressos que se registam no jogo de Adrien, Slimani, e sobretudo de João Mário.

Isto não invalida que recaem sobre a administração pesadas responsabilidades. Tais como a de aportar mais e melhores meios – financeiros e de carácter organizacional – que permitam sustentar o crescimento e de forma a prever e acautelar atempadamente as saídas de jogadores-chave que a inevitável cobiça alheia tenderá a provocar.  E que, de igual modo, permitam sustentar a indisfarçável ambição do nosso actual treinador, rentabilizando-a como um factor de crescimento.

Fonte da foto de capa: Sporting Clube de Portugal

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