O redator/cronista desportivo é, normalmente, uma pessoa vil. Quando tudo é um mar de rosas, os mesmos perfumam-nas antes de as depositar na corrente. Quando tudo é um breu, eles são capazes de caminhar sem qualquer sinal luminoso consigo, conformando-se. Os leitores não devem ser considerados, nem tidos, como sacos de boxe. Pressionar sempre a mesma tecla de uma determinada maquineta vai acabar por desgastá-la. Não digo que não me considere assim, de todo.

Porém, algo se eleva. A paixão palra sempre mais alto, a esperança tenta abraçá-la e apertá-la junto do peito, mas ela nem sequer soluça. O clubismo é um bebé sedento de colo que, quando prestes a adormecer, solta aquela birra assoladora e terna, antiteticamente, capaz de nos enfurecer e embevecer com os gestos polidos, de ter aquela vontade súbita de atirar o imberbe janela fora ou de o quase sufocar de beijos e abraços com o desígnio de cessar o pranto.

Como adepto do Sporting Clube de Portugal, sinto-me exausto ao expoente da loucura. Os dois últimos jogos demonstram a pasmaceira já prevista aquando do começo da pré-época. Onze jogadores impávidos, asmáticos e com preguiça aguda que difundiram na perfeição toda a obra poética de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa: o apogeu da serenidade e a aceitação de uma sina epicurista e estóica na essência.

A imagem de Pedro Mendes em Alvalade poderá ser uma realidade em breve?
Fonte: Sporting CP

Os problemas personificam-se em pessoas lançadas de ribanceiras. Há sempre aquele que nos provoca mais desgaste psíquico e nos apoquenta ao ponto de estarmos rodeados de pacemakers. E o que mais me inquieta é a ausência de um avançado. Pior! É ter um avançado jovem, irreverente e com uma margem de progressão relativamente ampla que nem sequer presencia a convocatória: Pedro Mendes, Sporting CP Sub-23.

Com Luiz Phellype, nada se almejará. Bolasie não é da mesma estirpe que Liedson ou Jardel. Esqueçam aqueles tarjas! Pedro Mendes, fruto do seu desaforo e consciente do seu potencial, vingará de listada verde e branca, certamente. Um ponta de lança moderno, numa mescla de velocidade, técnica e instinto fatal apurado. Possante e combatente ao estilo do soldado Ryan, rejeitando toda e qualquer perda de bola.

Ai, a letargia… não sei de onde provém a repulsa pela formação. E o pior cego é aquele que não quer ver. A paixão é cega. Mas o dirigismo leonino padece de cegueira distinta. O palpite aponta para a cúpula deliberar e decidir qualquer assunto completamente vendada, numa demonstração perfeita do didatismo do jogo da cabra cega.

Quem ama, perdoa sempre. E aqui não reside a exceção. A legião vive e sobrevive do amor àquilo que considera religioso. E a dor subsiste, muitas vezes. Sofremos com o intento de conquistar sem conquistar rigorosamente nada. Por mais que aconteçam birras, por mais talentos incutidos na senda do desperdício, por mais trilhos sem lanterna, nunca pensamos sequer na hipótese de te atirar pela janela.

Foto de Capa: Sporting CP

artigo revisto por: Ana Ferreira

Comentários