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A fábula da rã e do escorpião, cuja autoria é atribuída a Esopo, é o exemplo perfeito para abordar o ainda curto historial de Pedro Proença como presidente da Liga. Para quem não a conhece, vou resumi-la de forma abreviada, numa das suas versões, porque há várias:

Um escorpião, por força de um incêndio de enormes proporções, tem a sua existência ameaçada e vê, no atravessamento de um rio para outra margem, a sua salvação. Mas, após rápida observação, e depois de constatar o afogamento de outros animais imprevidentes, verifica não o poder fazer por meios próprios. Estava prestes a abandonar a ideia, quando avista uma rã, a quem propõe que o ajude a salvar a sua vida, atravessando o rio no dorso do batráquio.

Esta, conhecedora do carácter pérfido do artrópode, recusa liminarmente a associação, por recear que em qualquer momento aquele lhe injectasse o veneno letal que usava indiscriminadamente. Após juras de fidelidade e gratidão do escorpião, a rã assente em conceder-lhe uma oportunidade para refazer a reputação que o precedia. Já no meio da travessia o escorpião acaba por não resistir a ser quem sempre foi e ferra a pobre e incauta rã. Esta, atónita, pergunta ao escorpião:

– És louco, porque fazes isto? Vamos morrer os dois!

– Desculpa-me, rã, mas não consegui evitar, está na minha natureza.

Como é sabido, Pedro Proença foi eleito para o cargo de presidente da Liga com o apoio do Sporting e com o empenho directo e pessoal do presidente Bruno de Carvalho, que incluiu também homenagem institucional. Na ocasião Bruno de Carvalho afiançava que Pedro Proença era “o candidato de um novo caminho“, que representava a possibilidade da impreterível “mudança no futebol, novas ideias, alguém que trouxesse novos paradigmas e modernização“.

Acontece que o Sporting não era o único apoiante de Pedro Proença. Entre outros, partilhou o apoio com o FC Porto de Pinto da Costa. Ora as relações pessoais do actual presidente da Liga e Pinto da Costa confundem-se, entre pródigos e públicos elogios, com as relações institucionais, tendo o clube da Invicta homenageado várias vezes o antigo árbitro. E, mesmo sendo conhecidas as ligações afectivas do árbitro ao SL Benfica, o histórico regista, em momentos determinantes de alguns campeonatos, decisões polémicas em favor dos azuis-e-brancos.

A relação de Pedro Proença e Bruno de Carvalho já conheceu dias melhores Fonte: Facebook Oficial de Pedro Proença
A relação de Pedro Proença e Bruno de Carvalho já conheceu dias melhores
Fonte: Facebook Oficial de Pedro Proença

Com este histórico, o apoio do Sporting a Pedro Proença parecia um equívoco. Até porque, enquanto árbitro, sempre fez questão de exibir distanciamento, pelo menos… Das frases de apoio à candidatura em Julho à discórdia agora em Dezembro distam apenas parcos seis meses, prefaciando um divórcio mais do que expectável. Este, a acontecer, foi no entanto precedido de uma rápida dissensão entre as linhas orientadoras preconizadas pelo presidente do Sporting e o já presidente da Liga. Vejamos:

– Foi tema incontornável na campanha o desejo do Sporting de que os árbitros deixassem de ser nomeados, passando a ser sorteados. Enquanto candidato Pedro Proença evitou o assunto, como quem tenta passar pelos pingos de uma chuva incómoda. Ele que sempre defendeu o sorteio sob o argumento de que “não há nenhuma liga evoluída” que use o sorteio.

–  Se a possibilidade de Pedro Proença intervir na matéria das nomeações/sorteio era remota, por ser da competência da F.P.F., havia muitas matérias em que poderia intervir directamente. A centralização dos direitos televisivos era uma delas. Não tendo feito nada de muito visível em prol da solução, acaba por elogiar o acordo conseguido por Luís Filipe Vieira. Este pode ser muito bom para o respectivo clube, mas estamos muito longe de vislumbrar benefícios evidentes para a generalidade do futebol português.

Mas talvez o maior equívoco de todos tenha sido a própria candidatura ao actual cargo e, por consequência, o apoio expresso dado pelo Sporting. Como presidente da Liga não faltariam candidatos que poderiam desempenhar o mesmo papel que Pedro Proença. A aridez do seu mandato só faz aumentar o leque de possibilidades. Mas a sua eleição acabou por obrigá-lo a saltar do cargo que desempenhava na Comissão de Arbitragem da UEFA, onde era residente e podia ser de facto útil ao futebol português, por incompatibilidade com o exercício do cargo de presidente da Liga.

Não creio que Pedro Proença fosse conhecedor dessa incompatibilidade. Ou mesmo Bruno de Carvalho, tendo em conta que a presença na UEFA era então vista por ele como mais um factor de recomendação. As consequências do afastamento do cargo europeu são agora mais evidentes, com os árbitros portugueses a terem que ver o Europeu na televisão, de pouco adiantando as exclamações de espanto e os lamentos. O mesmo se aplica aos erros grosseiros que afectam amiúde o percurso das equipas portuguesas nas provas da UEFA. As vantagens da sua presença na Liga é um longo caminho marítimo ainda por conhecer, onde certamente não faltam muitos adamastores por dobrar.

O Sporting acha-se agora prejudicado pelo facto de não poder inscrever nenhum jogador antes do dia quatro de Janeiro, ficando assim impedido de juntar algum dos jogadores entretanto adquiridos ao leque de opções de Jesus para o clássico com o FC Porto, no dia dois de Janeiro.

Era importante saber se o Sporting aprovou os regulamentos em vigor. Mas, antes de o sabermos, e olhando para os interesses dos clubes, alguém fica surpreendido com o facto de esta decisão prejudicar sobretudo o Sporting? Isto porque, dos três grandes, é, pelo menos até ao momento, o que mais poderia beneficiar da inscrição de jogadores. Em particular de Bruno César, que é quem estaria mais apto para poder dar o contributo imediato à equipa.

Talvez seja excessivo considerar que Pedro Proença esteja trair o apoio prestado por Bruno de Carvalho aquando da sua eleição. Talvez esteja apenas a ser coerente com o seu trajecto, sempre muito próximo de Pinto da Costa. Mas Bruno de Carvalho pode-lhe sempre perguntar: “Porque fazes isto?”. Não deverá estranhar se a resposta for: “Desculpa lá, está na minha natureza.”.

Afinal Pedro Proença cresceu e caminhou sempre ao lado do famigerado “sistema”, de que beneficiou e com que se confundiu. Apesar da valorosa carreira e da notoriedade internacional, não se lhe conhece qualquer frase ou atitude de oposição ou afrontamento. E, como sabemos, quem cala pelo menos consente. Fica sempre por saber se, nesse interim, também retira dividendos.

Foto de Capa: Sporting CP

 

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