Magia – Produção de atos extraordinários e sobrenaturais. [Figurado] Encanto; fascinação.

Os seus praticantes encantam-nos, seduzem-nos, iludem-nos com os seus truques e fazem-nos sonhar, levando-nos por vezes a acreditar no impossível. Diria que no futebol, onde a emoção palpita nos relvados, não é diferente. Esses predestinados, donos dessa magia, reúnem-na nos seus pés e espalham-na pelos relvados, sem qualquer pudor ou misericórdia.

Ah, os acarinhados “magos”. Aqueles que mais nos fascinam e que a cada toque na bola nos recordam o motivo desta ter sido a nossa primeira grande paixão. Aqueles seres semi-divinos que todos nós procurávamos emular no duro asfalto da rua ou no recreio repleto da escola. Aqueles futebolistas extraordinários que dão vontade de aplaudir porque “valem o preço do bilhete”. Aqueles que, por tudo isto, eram eternizados no lugar mais especial que nos ocorria: retratados num póster colado na parede do nosso quarto. São também aqueles dos quais sentimos mais falta.

Podiam não ser os que mais golos acumulavam ou os que mais títulos alçavam aos céus, porém tudo o que faziam no relvado tinha uma outra magia. É verdade que os golos e os títulos se eternizam mais facilmente, mas estes jogadores também. O motivo talvez seja o mesmo: o sentimento que ambos provocam em nós, essa espécie de magia inexplicável.

Anúncio Publicitário

A sua postura é distinta, transpiram elegância e até a forma como acarinham a bola antes de uma bola parada… Enfim, um perfume especial que só eles desprendem. No entanto, o sol não brilha incessantemente lá no alto, especialmente no repentino mundo do futebol. Umas vezes venerados e elevados ao mais alto olimpo futebolístico, noutras perpetuam-se como génios incompreendidos. Ninguém lhes ousa negar o bom trato à redondinha mas isso é muitas vezes varrido para debaixo da relva ou porque “não têm intensidade”, “são lentos” ou “correm pouco”, como se diz por aí.

No dicionário futebolístico, estes fantásticos seres são os denominados «dez», cujo papel é ligar o meio campo ao ataque (se possível com uma pegajosa fantasia, dizemos nós). Indivíduos que suportam esse número tão adorado, dois dígitos que representam o expoente máximo de algo, a pontuação mais alta, a perfeição e, por isso, o objeto de maior desejo. Será uma coincidência?

Suponho eu que, ao longo desta introdução, são vários os nomes que já lhe invadiram a mente, caro leitor. Diferentes jogadores, de várias gerações e nacionalidades, uns mais e outros menos próximos das suas cores clubísticas, mas todos eles se encontram nesse lugar comum: a magia.

Nestes dias, com a notícia da sua transferência (que receção em Barranquilla!) aliada à pertinência da eliminatória entre o Sporting CP e o Villareal CF, é somente um o nome que me faz esboçar um sorriso saudoso: Matías Ariel Fernández, “el crá” chileno. Um executante diferente dos demais, cujo nome acaba inclusive em “dez” (outra coincidência?). Porém, até nisso o chileno é diferente, Mati é o «dez» que vestia a “14”.

Aos 32 anos, foi e é ainda magia. Agora, deixa o México e junta-se ao Junior Barranquilla, formação colombiana onde irá continuar a escrever os últimos atos deste espetáculo que tem sido a sua carreira. Pelo que prometeu nos seus inícios no Colo Colo, suspira-se ainda por uma carreira superior que nunca atingiu. Contudo, Matigol conseguiu vestir as camisolas de Villareal CF, Sporting CP, ACF Fiorentina, AC Milan e posteriormente a de alguns clubes sul-americanos.

Por cá, em Alvalade, o encanto e fascinação com que nos presenteou sabem já a nostalgia. Matías é um protagonista no nosso teatro íntimo e, pessoalmente, será sempre um dos futebolistas que perdurará na minha memória. Mergulhados nela, há um parágrafo na prosa que exalta a história do Sporting CP que tem muito de Matías. Liga Europa: Sporting CP vs Manchester City. Escusado será dizer mais alguma coisa, na nossa mente os seus memoráveis lances já se repetem vezes sem conta. Este seria o caminho mais fácil, mas Matías é muito mais do que isso.

Foi um dos principais obreiros numa das mais memoráveis eliminatórias europeias do Sporting CP
Fonte: UEFA

A 15 de Maio de 1986 nasce em Buenos Aires, Argentina, mas desde cedo preferiu representar “La Roja” da América Latina (internacional por 74 vezes, somando 14 golos, 15 assistências e presença no Mundial de 2010). Também desde cedo, teve uma relação estreita com a bola, incrivelmente mais estreita que o próprio território chileno, diria.

Matías sempre transpareceu ser um rapaz humilde e acanhado fora dos relvados, mas quando contactava com a bola atraía a si todas as atenções. Ainda assim, as características tão sul-americanas de jogador da bola estão todas presentes no criativo chileno. Desde a arrogância e irreverência, passando pelo atrevimento e uma certa malandrice também, tudo aquando em posse de uma bola, claro.

No entanto, a tudo isto, Mati misturava-lhe a calma e a tranquilidade que também o caracterizam. O resultado desta mescla antitética? Um jogador com sangue latino, sim, mas morninho, alguém que só cerrava os dentes para sorrir; um rebelde silencioso ou um bom malandro, daqueles que nos arrancam sorrisos depois das suas traquinices; alguém com um descaramento tão educado, que só lhe falta pedir desculpa aos adversários depois das suas malévolas habilidades. Sim, Matías Fernández é diferente dos demais.

Quem pode esquecer-se do seu frágil figurino, de pernas arqueadas e desajeitadas, cabelo desarrumado e de sinal no canto da boca? Eis o menino bonito do Chile, pertencente à casta dos “últimos dez”, uma espécie em vias de extinção, vítimas do futebol moderno, talvez.