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Perdidos no Tempo: Os últimos truques de Matigol

Xavier Costa · 9 min

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Magia – Produção de atos extraordinários e sobrenaturais. [Figurado] Encanto; fascinação.

Os seus praticantes encantam-nos, seduzem-nos, iludem-nos com os seus truques e fazem-nos sonhar, levando-nos por vezes a acreditar no impossível. Diria que no futebol, onde a emoção palpita nos relvados, não é diferente. Esses predestinados, donos dessa magia, reúnem-na nos seus pés e espalham-na pelos relvados, sem qualquer pudor ou misericórdia.

Ah, os acarinhados “magos”. Aqueles que mais nos fascinam e que a cada toque na bola nos recordam o motivo desta ter sido a nossa primeira grande paixão. Aqueles seres semi-divinos que todos nós procurávamos emular no duro asfalto da rua ou no recreio repleto da escola. Aqueles futebolistas extraordinários que dão vontade de aplaudir porque “valem o preço do bilhete”. Aqueles que, por tudo isto, eram eternizados no lugar mais especial que nos ocorria: retratados num póster colado na parede do nosso quarto. São também aqueles dos quais sentimos mais falta.

Podiam não ser os que mais golos acumulavam ou os que mais títulos alçavam aos céus, porém tudo o que faziam no relvado tinha uma outra magia. É verdade que os golos e os títulos se eternizam mais facilmente, mas estes jogadores também. O motivo talvez seja o mesmo: o sentimento que ambos provocam em nós, essa espécie de magia inexplicável.

A sua postura é distinta, transpiram elegância e até a forma como acarinham a bola antes de uma bola parada… Enfim, um perfume especial que só eles desprendem. No entanto, o sol não brilha incessantemente lá no alto, especialmente no repentino mundo do futebol. Umas vezes venerados e elevados ao mais alto olimpo futebolístico, noutras perpetuam-se como génios incompreendidos. Ninguém lhes ousa negar o bom trato à redondinha mas isso é muitas vezes varrido para debaixo da relva ou porque “não têm intensidade”, “são lentos” ou “correm pouco”, como se diz por aí.

No dicionário futebolístico, estes fantásticos seres são os denominados «dez», cujo papel é ligar o meio campo ao ataque (se possível com uma pegajosa fantasia, dizemos nós). Indivíduos que suportam esse número tão adorado, dois dígitos que representam o expoente máximo de algo, a pontuação mais alta, a perfeição e, por isso, o objeto de maior desejo. Será uma coincidência?

Suponho eu que, ao longo desta introdução, são vários os nomes que já lhe invadiram a mente, caro leitor. Diferentes jogadores, de várias gerações e nacionalidades, uns mais e outros menos próximos das suas cores clubísticas, mas todos eles se encontram nesse lugar comum: a magia.

Nestes dias, com a notícia da sua transferência (que receção em Barranquilla!) aliada à pertinência da eliminatória entre o Sporting CP e o Villareal CF, é somente um o nome que me faz esboçar um sorriso saudoso: Matías Ariel Fernández, “el crá” chileno. Um executante diferente dos demais, cujo nome acaba inclusive em “dez” (outra coincidência?). Porém, até nisso o chileno é diferente, Mati é o «dez» que vestia a “14”.

Aos 32 anos, foi e é ainda magia. Agora, deixa o México e junta-se ao Junior Barranquilla, formação colombiana onde irá continuar a escrever os últimos atos deste espetáculo que tem sido a sua carreira. Pelo que prometeu nos seus inícios no Colo Colo, suspira-se ainda por uma carreira superior que nunca atingiu. Contudo, Matigol conseguiu vestir as camisolas de Villareal CF, Sporting CP, ACF Fiorentina, AC Milan e posteriormente a de alguns clubes sul-americanos.

Por cá, em Alvalade, o encanto e fascinação com que nos presenteou sabem já a nostalgia. Matías é um protagonista no nosso teatro íntimo e, pessoalmente, será sempre um dos futebolistas que perdurará na minha memória. Mergulhados nela, há um parágrafo na prosa que exalta a história do Sporting CP que tem muito de Matías. Liga Europa: Sporting CP vs Manchester City. Escusado será dizer mais alguma coisa, na nossa mente os seus memoráveis lances já se repetem vezes sem conta. Este seria o caminho mais fácil, mas Matías é muito mais do que isso.

Foi um dos principais obreiros numa das mais memoráveis eliminatórias europeias do Sporting CP
Fonte: UEFA

A 15 de Maio de 1986 nasce em Buenos Aires, Argentina, mas desde cedo preferiu representar “La Roja” da América Latina (internacional por 74 vezes, somando 14 golos, 15 assistências e presença no Mundial de 2010). Também desde cedo, teve uma relação estreita com a bola, incrivelmente mais estreita que o próprio território chileno, diria.

Matías sempre transpareceu ser um rapaz humilde e acanhado fora dos relvados, mas quando contactava com a bola atraía a si todas as atenções. Ainda assim, as características tão sul-americanas de jogador da bola estão todas presentes no criativo chileno. Desde a arrogância e irreverência, passando pelo atrevimento e uma certa malandrice também, tudo aquando em posse de uma bola, claro.

No entanto, a tudo isto, Mati misturava-lhe a calma e a tranquilidade que também o caracterizam. O resultado desta mescla antitética? Um jogador com sangue latino, sim, mas morninho, alguém que só cerrava os dentes para sorrir; um rebelde silencioso ou um bom malandro, daqueles que nos arrancam sorrisos depois das suas traquinices; alguém com um descaramento tão educado, que só lhe falta pedir desculpa aos adversários depois das suas malévolas habilidades. Sim, Matías Fernández é diferente dos demais.

Quem pode esquecer-se do seu frágil figurino, de pernas arqueadas e desajeitadas, cabelo desarrumado e de sinal no canto da boca? Eis o menino bonito do Chile, pertencente à casta dos “últimos dez”, uma espécie em vias de extinção, vítimas do futebol moderno, talvez.

No Colo Colo, Matías corria como o vento, galopava e tirava adversários da frente como quem respirava. Transportava a bola com carinho e frenesim e desde cedo embasbacou a América do Sul com o seu futebol. Foi aplaudido em direto por um comentador e nas palavras de um outro: “el 14 de los blancos és un crá” e assim se imortalizou uma daquelas alcunhas a que todos os jogadores sul-americanos têm direito. Tinha o continente a seus mágicos pés.

Foi nomeado o melhor futebolista da América em 2006 e 112 jogos, 57 golos e 28 assistências depois, o “velho continente” chamou por Mati, como é carinhosamente tratado. Aqui já com honras de Matigol, um nome muito mais futbolero. O internacional chileno rumou assim ao Villareal CF. A mudança para a Europa e as constantes lesões – que não o iriam largar ao longo da sua carreira – ofereceram-nos um Matías que pôs de parte as corridas desenfreadas para ser um «dez» cerebral, com mais pausa, mas que mantinha a sua cristalina técnica intacta. Tal e qual como se deu a conhecer também em Alvalade.

O chileno não andava, não corria, tinha uma marcha própria e cambaleava de forma estranha. Porém, esse seu andar desengonçado desaparecia quando tinha a bola em seus pés. Com ela, Matías transformava-se num bailarino gracioso, de passada elegante e movimentos de fino recorte técnico. A bola é a sua cara metade, com ela e dando bom uso às suas arqueadas “canetas”, Matías escrevia os mais apaixonantes e musicados versos à flor da relva, dignos de um Pablo Neruda, também ele um extraordinário poeta chileno.

Esse dueto com a bola principiava uma série de movimentos hipnotizantes, tanto para a bancada como para os adversários. Desde a mudança de ritmo e o drible enleante ao esguio serpentear sem pressa mas eficaz. São vários os recursos técnicos na algibeira do chileno e todos eles se unem pelas suas execuções exímias. A ligação pensamento-ação de Mati está somente ao alcance dos predestinados dignos de ostentar um dez imaginário nas costas. A maior agilidade e rapidez do chileno acontece sobre os seus ombros, os pés são só meras ferramentas.

A bola é que deve correr pelo relvado fora, não é? E como corria a danada com Matías… Visão de jogo, capacidade de decisão, assistências em catadupa… Um mestre na arte do último passe, aquele que assina a sentença dos adversários. Esse é Matías Fernández. Geralmente, generoso mas não raras vezes exercia o auto-passe como um dos seus recursos preferidos.

Como muitos outros criativos, ofereceu à expressão brasileira “passe de mágica” um significado mais futebolístico, sem necessidade de envergar qualquer cartola ou varinha mágica para além do seu respetivo equipamento. A forma como pausava ou acelerava o jogo, consoante a sua real gana, mostra que não é por acaso que os sul-americanos denominam essa função como “volante creativo” e Mati sabia, sem dúvida, o que fazer quando ao volante de qualquer equipa.

Sob a batuta destes “magos”, os passes e as fintas também se festejam e o futebol eleva-se a uma das mais belas artes. “El crá” deixa-nos uma extensa videoteca repleta de magia, onde o seu toque destro faz a bola desaparecer e reaparecer a seu bel-prazer e para regozijo da plateia. O leque de truques é vasto: aos, aparentemente, simples domínios, receções e primeiros toques, Matías acrescenta-lhes bamboleantes fintas de corpo que iludem os adversários sem que tenha de aconchegar a redondinha com o seu carinhoso toque.

Ainda assim, o espetáculo não acaba por aí. A antologia de exímias letras ou rabonas, a coleção das sempre sublimes roletas e ainda os túneis, a milenar arte e máxima humilhação permitida com uma bola, todas são especialidades de Mati. O chileno sempre foi difícil de parar para os seus adversários, para nós, simples admiradores de bancada, o difícil é não gostar de Matías Fernández.

Curiosamente, mesmo quando a bola e Matigol – aqui mais do que nunca – estão parados, o alerta de perigo iminente continua elevado. Seja em que zona do relvado, sabemos que a bola sairá ainda mais redonda do pé abençoado do chileno. A sua meia distância já ofereceu vários golos para emoldurar, sobretudo quando falamos de livres diretos. Quando em jeito, a bola chega a descrever curvas tão perfeitas só equivalentes às suas imperfeitas pernas arqueadas. Quando é necessário chutar “a romper”, Matías troca o veludo pela potência, já a classe, essa não é negociável.

A última vez que Matías pisou Alvalade representava o conjunto viola da ACF Fiorentina
Fonte: Sporting CP

A faceta de lesionado crónico também é difícil de descolar do espetacular médio, o que muitas vezes lhe retirou espaço e regularidade nas várias equipas que representou. No Villareal CF, somou 91 jogos, sete golos e 15 assistências; na ACF Fiorentina totalizou 131 jogos, sete golos e 20 assistências e na sua passagem fugaz pelo AC Milan, perfez 13 partidas, nas quais marcou um único golo e fez duas assistências. A tudo isso, acrescenta-se o seu desvanecimento contínuo, ao longo dos anos, para longe dos grandes palcos europeus.

Ainda assim, Portugal foi testemunha de uma das melhores versões do chileno, tanto a nível de regularidade como de números: 116 partidas de leão ao peito, entre as quais balançou as redes por 19 vezes e distribuiu 18 assistências. No Sporting CP ficou, desde logo, gravado nos verdes corações, ainda que tenha feito parte do clube num período estruturalmente muito complicado, o que por sua vez enaltece de sobremaneira o seu impacto positivo.

Depois do ato vil e imperdoável de vender Matías ao desbarato, paira então, em Alvalade, a tão nossa saudade do seu talento e as simples recordações de todos os lances que nos fizeram levantar da cadeira para o aplaudir, porque nós sabemos que a magia não tem preço. Todavia, torna-se inevitável não fazer a amarga pergunta: até onde poderia ter chegado o talento do chileno?

No fundo, “el crá” personifica todo aquele romantismo lamechas que nós, os adoradores da bola, não dispensamos, porque verdade seja dita, o futebol desperta as paixões mais sinceras, duradouras, fiéis e enfim, loucas e desviadas da Razão, tal como são as verdadeiras paixões. As relações quase platónicas que entrelaçam a bancada e os onze que carregam o símbolo ao peito, são uma evidência e Matías é alvo de uma dessas ardentes paixões coletivas.

Infelizmente, esta é uma relação com o prazo de validade à vista, o qual se aproxima a passos agigantados. Quiçá por isso, ao longo do texto, não me decido entre o uso do passado ou do presente, talvez numa egoísta e vã tentativa de fazer com que a magia de Matías Fernández dure um pouco mais…

Doravante, resta-nos aproveitar, atentamente, os últimos truques do mago chileno, já bem longe daqui, e posteriormente vê-lo a sair de cena bem à sua maneira: silenciosamente mas de sorriso nos lábios, com certeza.

Foto de Capa: Junior Barranquilla

Xavier Costa

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