a norte de alvalade

Existe um projecto para o futebol do Sporting? Quais são as suas linhas orientadoras? Que tipo de planeamento é feito? Atende-se apenas ao imediato, cujo horizonte é a época a decorrer ou procura-se fazer uma projecção a curto/médio-prazo?

Estas são algumas das muitas questões que por vezes ocorrem a um adepto que, de longe, vai observando as decisões tomadas, procurando percebê-las, em particular as motivações que as regem e os resultados que com elas se pretende obter.

Antes de escrever este post estive a reler algumas das comunicações mais recentes do presidente Bruno de Carvalho, nomeadamente as que foram proferidas por ocasião do segundo ano de mandato, não tendo encontrado nelas linhas orientadoras que respondessem a este tipo de perguntas. Nada é dito sobre questões estruturantes como, por exemplo, o número de jogadores nos plantéis, a escolha das equipas técnicas, respectivos critérios e objectivos, etc, etc.

Assim, procurei fazer a minha própria interpretação, deixando para a caixa de comentários a possibilidade de cada um aduzir os seus argumentos à discussão. Nela incluirei os temas que me parecem ser os mais importantes para esta análise, feita de forma breve e não tão aprofundada como deveria ocorrer: O treinador, o plantel e a formação.

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O treinador

A escolha do treinador não é apenas a escolha de um homem só, mas de uma equipa técnica multidisciplinar, bem como das respectivas ideias, organização e metodologia. Por isso considero uma questão estruturante.

Tendo esse aspecto em conta, bem como “politização” que a questão atingiu, é difícil que o tema não se arraste pela próxima época, especialmente se a decisão for a do afastamento e a este não sucedam melhorias evidentes na performance desportiva. Assim, considerada a importância do cargo e o facto acrescido da próxima época ter inicio cedo e aparentar particular exigência, é muito mau sinal se os rumores da decisão estar a ser protelada forem verdadeiros.

Ora só o facto de se começar a discutir a permanência do treinador, que foi contratado por quatro anos, ao fim de quase o mesmo número de meses de permanência, é razão suficiente para questionar  o planeamento feito. É também importante saber se, no momento da celebração do contrato, a permanência do treinador ficou indexada a algum “serviço mínimo” que não está a ser cumprido, como por exemplo a conquista de um troféu ou uma determinada posição na tabela.

Considerando, para avaliação do trabalho do treinador, três parâmetros – resultados/classificação nas competições, performance exibicional e liderança – a minha avaliação é favorável. É sempre possível melhorar mesmo até quando se triunfa mas, numa avaliação genérica, e atendendo a todas as circunstâncias e limitações que nos são próprias, não só me parece que o trabalho desenvolvido está a ser aceitável, como não me parece haver razões que demonstrem ou indiciem que evoluir para nível superior não é possível.

Quanto aos resultados/classificação nas competições considero que se cumprirão os objectivos mínimos. Na Champions League foram vários os factores a oporem-se a melhor destino, o que, de certa forma, também se aplicará à Liga Europa. Neste capítulo, não me parece que não tenhamos feito melhor por culpa do treinador. No campeonato, apesar de considerar que podíamos ter conquistado mais pontos, parece-me que estamos demasiado dependentes das falhas alheias, quase tanto como obrigados a performances irrepreensíveis para alcançar melhor. Isto é o mesmo que dizer que fazer melhor é possível mas, nas actuais circunstâncias, terá carácter excepcional.

A conquista da Taça merece tratamento próprio. Dadas as características da competição, não me parece que a sua conquista ou perda devessem ser determinantes para a continuidade do treinador. Olhe-se para o exemplo de Sá Pinto, quando perdeu a Taça com a Académica, levando um voto de confiança, para depois se verificar a hecatombe que se seguiu. Na outra face da moeda o exemplo de JJ, numa época em que perdeu tudo, para no ano seguinte ganhar com relativa facilidade o campeonato.

O trabalho de um treinador deve ser avaliado de forma muito mais abrangente que o resultado de um jogo de uma final de uma competição como a Taça de Portugal.

qualidade das exibições deixa-me sentimentos mistos. Não sendo de estranhar numa época longa, foi precisamente com os adversários tidos como mais fracos que coleccionamos reveses mais difíceis de suportar. Mas nem por isso mais difícil de percepcionar. Ser campeão em Portugal tem a ver precisamente precisamente com a capacidade de somar o maior número de pontos com os não-candidatos ao título, que por norma joga com blocos muito baixos ou genericamente em acentuada posição defensiva.

Quanto à liderança do treinador, parece-me a adequada, como parecem indicar quer a ausência de casos de indisciplina – O caso Jefferson não é da sua esfera – quer mesmo, de uma forma geral, as indicações dadas pelos jogadores.

marco silva autorizado
Marco Silva ajudou a garantir o acesso do Sporting à final da Taça de Portugal
Fonte: Sporting CP

O plantel

O trabalho de um treinador está dependente da qualidade dos jogadores que compõem um plantel. A responsabilidade da sua formação tem estado a cargo da SAD, pelo que esta não se pode excluir das responsabilidades nos êxitos ou dos fracassos.

É meu entendimento, como anteriormente aqui afirmei, que a composição do plantel principal deveria estar sempre articulada com o da equipa B. E que o número devia ser reduzido, de forma a que os jogadores não estejam privados de competir por largos períodos. A dispensa de vários jogadores a meio da época é a admissão tácita desse facto e poderia ter ido até mais longe.

Ao número excessivo de jogadores que potencie uma maior rotação, acresce ainda um número considerável de jogadores cujo valor e mérito para fazerem parte dos quadros de um clube com as ambições e estatuto do Sporting é muito duvidoso. Nesse sentido, o planeamento da próxima época constitui um enorme desafio, atendendo ao número de excedentes que vai ser necessário colocar, aos que são importante manter, bem como a quantidade e valor dos jogadores a ingressar. Será determinante não cometer os mesmos género de erros que se observaram nas duas épocas anteriores.

A formação

Não tem sido um ano bom para a formação. Não tem sido bom quer pelos resultados, onde parece muito difícil a possibilidade de alcançar títulos, quer pelo nível das exibições. E as prestações internacionais foram deprimentes, em contraste com o passado recente e com o que os nossos adversários/rivais alcançaram.

Ao contrário do que parece agora ser conveniente dizer, o Sporting não tem tido resultados apenas na formação de jogadores. O Sporting construiu também uma hegemonia de títulos sobre os seus rivais, como testemunham quinze títulos na “era Academia”. O FCP alcançou nove e o SLB oito. Há vários sinais perturbadores a indiciar a perda de competitividade, quando a hegemonia recente parece já uma miragem. Dois exemplos aleatórios:

1- Na recente convocatória para a selecção sub-19 o Sporting contou apenas com três convocados, mas este número ascenderia a nove se jogadores que recentemente faziam parte dos nossos quadros – Alexandre Silva (Guimarães), Flávio Silva (SLB), Gilson Costa (SLB), Dálcio (CFB), Gil Dias (Mónaco) José Turbo (Inter Milão) –  ainda estivessem entre nós. Se se aceita com naturalidade que alguns optem por seguir as suas carreiras noutros clubes, já se torna mais difícil de entender como tantos o fazem quase em simultâneo, especialmente considerando o estatuto que tanto se invoca para a nossa formação.

2- Os resultados comparativos de alguns escalões, mais nuns que noutros, indiciam uma abrupta perda de competitividade face ao que conseguiam ainda recentemente face aos mesmos adversários, a que se soma uma inédita ausência de uma fase final.

Um ano é muito pouco para deliberar sobre fim dessa hegemonia, mas os sinais são no mínimo inquietantes.

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