Queria poder ser tendencioso

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Não vos vou mentir: aguardava com grande expectativa este jogo da Liga Europa, o embate do Sporting com o Leverkusen. Pensei que ia ser um grande jogo, com um Sporting dominador mas sempre atento às investidas alemãs, até porque todos nós sabemos como carbura a máquina germânica. Tinha esperanças de que, nesta minha primeira contribuição para o Bola na Rede, pudesse escrever um texto em cima de uma vitória, mas não é esse o caso.

Contudo, a minha maior desilusão foi assistir a 90 minutos de um Sporting irreconhecível. Não sou um profeta da desgraça, nem digo que esta exibição é o início de um descalabro porque não acredito que assim seja. Jorge Jesus deixou bem claro que a prioridade é o campeonato, o que sinceramente acho bem, mas daí a oferecer o jogo como prenda aos alemães vai uma ligeira diferença.

A capacidade de passar a bola ao primeiro toque, a mobilidade dos jogadores, o jogo em equipa, saber que o todo é superior ao individual, a garra e a entrega de cada um em campo, todos esses atributos que caracterizam esta equipa do Sporting, não foram vistos ontem no relvado. E com isto não quero dizer que não se tenham aplicado, mas parece-me que a frustração de nada estar a correr bem se sobrepôs à noção daquilo que era preciso fazer perante um adversário como o Leverkusen. Na defesa complicavam-se os cortes e as saídas para o ataque, e no ataque tentavam resolver-se as coisas individualmente.

Queria poder ser tendencioso, e descobrir formas de justificar um Sporting superior, mesmo que derrotado, mas não consigo. Raramente ganhámos as segundas bolas, e deixámo-nos cair num jogo tão morno que foi fácil para os alemães controlarem-no.

Aos 90 minutos, creio que faltou Gelson Martins. Irrequieto como é, podia ser ele a solução para quebrar a lentidão e a falta de ideias com que o Sporting estava em campo. Penso até que seria essa a intenção de Jorge Jesus, não fosse a lesão inesperada de Coates. No entanto a eliminatória continua em aberto, e acredito que o Sporting possa ir à Alemanha surpreender o Bayer, como fez com o Lokomotiv na Rússia.

Bryan Ruiz foi um dos exemplos de quem tentou remar sozinho contra a maré alemã. Fonte: Sporting CP
Bryan Ruiz foi um dos exemplos de quem tentou remar sozinho contra a maré alemã
Fonte: Sporting CP

Acredito que possa começar o jogo com Gelson Martins e Matheus Pereira nas alas e a dinâmica da equipa mudar completamente, porque são jogadores que a qualquer momento podem desestabilizar uma defesa. Quem sabe até se Hernán Barcos poderá ser uma surpresa na frente de ataque? Comparado a Teo, oferece mais poder físico para jogar entre os defesas.

Mas aquilo a que eu como adepto não gostaria de assistir, e creio que outros concordarão comigo, é que, mesmo dizendo que a Liga Europa não é uma prioridade, isso sirva como uma desculpa para não dar o máximo. Principalmente quando é claríssimo que o Bayer Leverkusen está ao alcance do Sporting, porque quando era aplicada velocidade nos processos de transição percebia-se que a segurança defensiva da equipa alemã tremia. O problema é que essa velocidade muito raramente foi aplicada, e quando assim foi acabou em iniciativas individuais que não deram em nada, como o Mané ou o João Mário a remarem contra uma defesa inteira, ou o Ruiz a fintar um adversário mas sem apoio para dar seguimento às jogadas.

Se o intuito é poupar os jogadores titulares, normalmente mais influentes na equipa, e visto que as competições europeias não são prioridade, então que a opção passe por uma equipa declaradamente suplente, que possa dessa forma aplicar-se a 100%, correr ao máximo, demonstrar todas as características que devem ser vistas nos relvados pisados pelo Sporting, esforço, dedicação, devoção e glória.

Não quero ser injusto para jogadores que desde o início da época têm mostrado todas essas características em campo, nem com isto dizer que não se esforçaram, mas não foi o suficiente, não foi aquilo a que nos habituaram, e não acredito que ninguém, adepto, jogador, equipa técnica ou presidente, possa ter ficado feliz, não só com o resultado: acima de tudo com a exibição.

Queria poder ser tendencioso, mas não posso. Mal que está feito não pode ser refeito, por isso, o Boavista é o próximo adversário, e aí já conta como prioridade. Tem de sentir a carga do leão.

Foto de Capa: Sporting CP

António Ramos
António Ramoshttp://www.bolanarede.pt
Em criança, viu a avó oferecer uma carteira do Sporting a um primo, e disse que também queria uma. "Mas tu não és do Sporting" respondeu-lhe a avó. Sou sim! contrariou o miúdo. E aí foi criado um pacto, Sporting, até que a morte nos separe.                                                                                                                                                 O António não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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