O período entre o Natal e o fim de ano é sempre caracterizado pela substituição dos constantes anúncios publicitários típicos daquela quadra pelas clássicas reportagens de revista do ano que está a chegar ao fim.

Assim, como escrevemos nestes dias, também nós não podemos fugir à tradição. Contudo, não só pela falta de jeito mas também pela falta de dados, poupar-nos-emos (e poupar-vos-emos) a isso e, em alternativa, faremos o destaque de um momento de reconhecimento do valor desportivo nacional e, quiçá, de mudança no panorama jornalístico português.

Na sequência do que outras entidades já tinham feito, o CNID – Associação dos Jornalistas de Desporto, fez, pela primeira vez, a sua votação de Melhor Atleta Masculino e Melhor Atleta Feminina do ano de 2019. Coincidindo (e, espera-se, não condicionado) com os resultados apresentados pelas outras referidas entidades, o CNID elegeu (e bem) Jorge Fonseca e Fu-Yu como os melhores atletas do ano.

Em Tóquio, Jorge Fonseca, atleta do Sporting CP, conquistou o primeiro lugar e trouxe para Portugal o primeiro campeão do mundo de judo português e, em Minsk, Fu-Yu, a título individual, conquistou a medalha de ouro nos Jogos Europeus.

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A cultura desportiva em Portugal, ou falta dela, é um tema de debate constante
Fonte: Bola na Rede

São estes os resultados desportivos incontornáveis que não passaram despercebidos aos olhos de todos os júris de eleição dos prémios de reconhecimento desportivo. Não passaram despercebidos aos olhos destas entidades mas, com grande probabilidade, são desconhecidos de muitos portugueses.

De facto, este reconhecimento desportivo, que enaltece os resultados independentemente do mediatismo de que os mesmos são alvo, ganha contornos de desenvolvimento quando o mesmo é feito por quem, diariamente, preenche jornais ou noticiários com todos os aspetos e mais alguns de apenas uma modalidade desportiva.

Na verdade, aquilo que reflete e transparece uma agenda e cultura monodesportivas e aquilo que reduz as conquistas desportivas nacionais a pequenas caixas laterais e que, a final, valoriza como sendo merecedor da distinção como atleta do ano, nada mais é que o resultado de uma realidade nacional: o produto que vende em Portugal, jornalisticamente falando, não são as chamadas “modalidades” mas sim o “ópio do povo”.

De facto, constatar que os próprios jornalistas reconhecem o valor desportivo daquilo que usualmente relegam para segundo plano nos seus espaços de comunicação é revelador da manifesta dependência e escassez de recursos por parte dos órgãos de comunicação social para fazer face ao facto de serem reféns “daquilo que conseguem vender”.

Mas tal facto também ganha contornos de preocupação se pensarmos que o desiderato da comunicação social atual passa mais por vender e lucrar do que, efetivamente, informar.

Estamos conscientes das dificuldades que a indústria passa mas as circunstâncias que a envolvem não a podem fazer perder de vista a razão da sua existência que é, justamente, informar. E informar, especialmente em jornais especializados como os desportivos, não pode passar por destacar conjeturas associadas a determinados clubes e deixar para notas de rodapé as conquistas desportivas nacionais de relevo.

Portugal ficou melhor com o reconhecimento que os jornalistas deram a dois atletas de grandes feitos desportivos. Mas Portugal tem muita margem para alcançar um outro patamar e nessa margem encontra-se a necessidade de transportar o reconhecimento feito por distinções para a área da comunicação através dos seus diferentes meios.

A base para a transformação das mentalidades reside na educação e, como é sabido, os meios de comunicação social são um dos seus veículos, pelo que, utilizá-los para combater a monocultura desportiva nacional, fomentando e dando a conhecer, com vontade e qualidade, outras modalidades aos leitores, tem que ser, para as redações, mais do que uma responsabilidade, um privilégio.

Foto de Capa: Bola na Rede

artigo revisto por: Ana Ferreira