O Sexto Violino

1) Voltaram as vitórias, mas não está tudo bem

Depois de algum azar e muita tremideira na defesa, o Sporting está de regresso às vitórias. Mas, se a goleada (0-4) contra o Gil Vicente pode ter servido para afastar fantasmas e para ganhar confiança em vésperas de clássico, desenganem-se aqueles que pensam que os problemas já pertencem ao passado. Primeiro, porque é preciso ganhar ao FC Porto para continuarmos a aproximação aos primeiros lugares do campeonato. Segundo, porque o Gil tem mostrado ser uma das equipas mais fracas da liga. Se o Sporting teve, em Barcelos, o mérito de rematar sem medos à baliza contrária (marcando dois golos de rajada que praticamente resolveram o jogo), a verdade é que a má organização gilista também não ofereceu grande luta. Ainda assim, num ou noutro lance tanto Maurício como Sarr voltaram a mostrar que dificilmente poderão fazer dupla na defesa durante a totalidade de uma temporada que se adivinha exigente. O próximo jogo, contra o FC Porto, será um teste muito mais exigente do que o de Barcelos, e ambos os centrais já esgotaram os créditos de erros de principiante. Paulo Oliveira tem qualidade e está à espreita, resta saber se terá a maturidade suficiente para se afirmar na equipa do Sporting…

2) Sporting- FC Porto: duas lutas num jogo só

Jogar contra o FC Porto não é apenas disputar mais um clássico do nosso futebol. É, para além da vontade habitual de conquistar os três pontos, ter a ânsia de derrotar um clube que já tanto prejudicou quer o Sporting quer o próprio futebol português. E como, para utilizar um jargão bem conhecido do desporto-rei a nível nacional, “vocês sabem do que eu estou a falar”, não me alongo mais nos pormenores – o espaço é curto e os episódios são mais do que muitos. Mas deixo aqui uma notícia do Record, escrita em 2007 e relativa à época 2003/2004, que dá conta dos jogos “em que o Sporting era o clube para «martelar»”. O artigo refere que “o Relatório Final da Polícia Judiciária entendeu que os jogos Sporting-Moreirense e Gil Vicente-Sporting tinham indícios de manipulação de resultados praticada pelo FC Porto, mas de tal não resultou qualquer acusação”. Alguns verão estas linhas como uma inútil revisitação do passado; eu vejo-as como algo necessário para compreender o presente e prevenir o futuro. Só a memória impede que tudo o que de mau se passou no nosso futebol seja esquecido, e que o grande protagonista desta e de muitas outras páginas negras lave por completo a sua imagem.

pedroto sporting
Em jeito de lançamento do SCP-FCP: O jornalista Neves de Sousa escreveu um dia sobre a razão pela qual Pedroto nunca treinou o Sporting, como chegou a estar próximo de acontecer: “Está tudo certo, tanto em relação aos meus prémios, como aos meus vencimentos (…), mas o senhor presidente esqueceu-se de que eu lhe tinha dito logo no primeiro encontro: só vou para um clube que dê garantia de contar com os árbitros”

Sobre o jogo em si, não estou confiante: não só o Sporting tem uma defesa fraca (a antítese do que aconteceu na época passada), sem Rojo e Dier, com um Sarr que caiu de pára-quedas, um Maurício cujo rendimento depende muito do colega de sector, um Jéfferson que tem estado uma sombra do que foi (vamos ver como se porta Jonathan Silva) e um Cédric que procura a melhor forma depois da lesão, como o FC Porto tem estado a jogar muito bem. O empate contra o Boavista foi fortuito e pode até servir de tónico aos dragões. Lopetegui tem rodado bastante a equipa, mas a tremenda forma de Brahimi e o perigo constante que é Jackson Martínez deverão ser suficientes para pôr a cabeça dos defesas leoninos em água. Pede-se, por isso, um ambiente infernal como só os Sportinguistas sabem dar – por muito que alguns meios de comunicação digam que os aplausos de adeptos benfiquistas no Estádio da Luz após uma derrota foram algo inédito em Portugal.

3) Finalmente, um seleccionador…!

Este último ponto não tem directamente a ver com o Sporting, mas é com agrado que o escrevo. Quando se pensava que o melhor jogador português de sempre e um dos melhores de todos os tempos iria passar os seus melhores anos na selecção sem ser treinado por um técnico à sua altura, eis que Paulo Bento é despedido e se abre um vazio na liderança da equipa nacional. Fernando Santos não é um génio, mas é sem dúvida a opção mais acertada de todas as que se falaram. O seu currículo não está recheado de títulos, é verdade. Ainda assim, foi campeão no FC Porto, levou a equipa aos quartos-de-final da Liga dos Campeões em 99/00 (eliminado nos descontos pelo poderoso Bayern), ganhou uma Taça da Grécia com o PAOK e, mais importante do que isso, fez escola nesse país, como provam os 4 prémios de treinador do ano que por lá ganhou.

Em 2002 só não foi campeão com o AEK por infelicidade (terminou com os mesmos pontos do Olympiakos). Em 2004 era ele o treinador da equipa do Sporting que foi comprovadamente prejudicada pelo FC Porto e impedida de chegar ao título, como diz a notícia a que aludi no ponto 2). Enquanto seleccionador helénico, Fernando Santos foi responsável pela chegada da equipa aos quartos-de-final do Euro 2012, dando dois anos depois aos gregos a primeira vitória de sempre em Mundiais, à qual juntou ainda a presença inédita nos oitavos. As suas equipas são por norma adultas, competentes e organizadas tacticamente – a mesma organização que Portugal nunca esteve sequer perto de apresentar no Mundial do Brasil.

Tudo isto para dizer que a selecção portuguesa mudou para melhor. Fernando Santos é um treinador capaz e parece ser um homem sério. Partindo do princípio de que não cai nas garras do obscuro Jorge Mendes (a propósito, o artigo que o The Guardian escreveu sobre esta figura que tanto mal tem feito ao futebol não pode deixar de ser lido), haverá uma série de jogadores da melhor escola de formação do país e uma das melhores do Mundo – a do Sporting, pois claro – que terão, a curto prazo, oportunidade de mostrar serviço na selecção. Uma oportunidade que jogadores como Adrien e Cédric já merecem há bastante tempo e que João Mário, Carlos Mané e André Martins poderão conquistar a curto/médio prazo. Duvido que Fernando Santos proceda a um corte radical com o legado de Paulo Bento, mas acredito que, na hora de chamar jogadores à selecção, olhe menos a empresários e mais à qualidade, à forma dos atletas e aos minutos por eles disputados. Se isso acontecer, mesmo tendo perdido com a Albânia em casa, o Europeu de França nunca esteve tão perto.

adrien cedric
Caso Fernando Santos não ceda à tentação de entrar na órbita de Jorge Mendes, Cédric e Adrien Silva passarão a ser, a partir de agora, presenças regulares na selecção nacional. Mas há mais produtos da formação do Sporting à espreita…
Fonte: cedric-soares.blogspot.com

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