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Relata Angel Cappa, no livro “E o futebol onde está?”, que, quando Tano Rizzo, velho colega e amigo, o veio visitar nos anos 90, houve uma noite, na hora do jantar, em que parecia ter visto algo fora deste mundo. – “Amigo, estive esta tarde na Cidade Desportiva do Real Madrid, e nem vais acreditar, vi Panucci sair do treino… num Porsche!”, disse ainda incrédulo. – “Sim, e depois?”, perguntaram todos. – “E depois? Se até os laterais já têm Porsches, então o futebol está mesmo perdido!”, exclamou.

Mais do que terras e países diferentes, o velho Rizzo vinha de outro tempo. Quando o futebol eram dos homens da frente, “dos que fazem golos”, no tempo em que os jogos eram decididos só quando se tinha a bola e atacava. A defesa, isso… bem, ajudava quando era preciso. Entretanto o futebol mudou, e o pensamento dele também. O jogo tornou-se, seja de um modo instintivo ou premeditado, mais defensivo. A arte de se saber defender tornou-se tão imperativa como a de atacar e, no contexto tático, originou o nascimento dos extremos. Por consequência lógica, surgiram também os laterais ofensivos. Dentro desse processo posicional, a palavra “lateral” e “defesa” tornou-se cada vez mais distinta no seu significado. A um lateral exige-se qualidade técnica, velocidade e precisão no cruzamento, enquanto um defesa significa um jogador que saiba mesmo os processos defensivos. Veja-se o caso de Roberto Carlos, por exemplo. Pela sua acutilância a atacar, para não falar do remate, tornou-se, sem sombra de dúvida, um dos melhores laterais da história, se não o melhor. Mas seria errático retratá-lo como um dos melhores defesas de sempre.

Piccini esteve em bom plano no jogo em Turim, para a Liga dos Campeões Fonte: Sporting Clube de Portugal
Piccini esteve em bom plano no jogo em Turim, para a Liga dos Campeões
Fonte: Sporting Clube de Portugal

Numa galáxia bem distante, mas onde a bola continua a ser o centro de tudo, observo Piccini a jogar. Com um nome que, de início, assustou e muito os adeptos sportinguistas – foneticamente complexo, pelo que teve automaticamente alguma semelhança com Schelotto – e, depois de uns primeiros jogos tremidos (vinha também de uma longa lesão, onde é normal que a bola “queime” no início), eram muitas as dúvidas na posição de lateral direito, onde Jesus tinha ainda algumas dificuldades em encontrar alguém do seu perfil. A verdade é que, passado sensivelmente dois meses, o italiano ganhou confiança e índices físicos que o fazem ser hoje um jogador em quem Jesus pode confiar. Não é um lateral que pegue a bola e faça o corredor todo, nem faz de falso extremo nos jogos com equipas mais pequenas, mas é, sim… um defesa, no seu verdadeiro valor da palavra. Concentrado, sabe bem tapar os caminhos da bola e raramente se deixa ultrapassar no um contra um, seja em drible ou em velocidade. Depois, as cavalgadas para a baliza, a nota artística… essa fica para outros.

O golo de Mandzukic, nos últimos minutos do jogo em Turim, salientou bem qual a diferença entre um lateral (Jonathan Silva)… e um defesa. Parece a mesma coisa, mas não é. Independentemente do carro que usam.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

Artigo revisto por: Beatriz Silva

 

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