Permitam-me um ponto prévio: o jornalista, agente activo no fulcral meio que é a comunicação social, tem a responsabilidade de relatar o sucedido sem omitir fracções essenciais ao desenvolvimento da história que conta, não é? Pois bem, assim será. Ouve-se muito dizer que os jornalistas e/ou comentadores desportivos devem centrar-se no ocorrido dentro das quatro linhas, nomeadamente no que os jogadores das duas equipas fazem. E era, de facto, assim que devia ser. Se o futebol se centrasse no que se passa nas quatro linhas e se fosse exclusivamente o trabalho dos jogadores que influencia o resultado. Hoje, não foi. Hoje, é impossível escrever sobre o Setúbal vs Sporting sem nos centrarmos no trabalho da terceira equipa, que provavelmente não o sabe, mas é mesmo a terceira. Aos consagrados e acomodados jornalistas que escrevem sobre o futebol sob o romântico lema de que apenas as tácticas influenciam os resultados finais: cabe a nós este exercício de denúncia, sempre que ele se justifica.

O Sporting não fez o melhor dos seus jogos. Que daqui não se retire que não merecia ganhar. Porque quem faz três golos legais e não sofre nenhum passível dessa legalidade, nunca merece qualquer outro resultado que não a vitória. Entrou com algumas surpresas no 11; entrou, diria eu, com um grito de igualdade e confiança de Leonardo Jardim para com dois substitutos que justificaram esta titularidade com uma exibição sólida na anterior partida. Falo, claro está, de Slimani e Gerson Magrão, titulares nos lugares de Montero e André Martins. Slimani tem justificado esta titularidade quase sempre que é chamado, tendo a desvantagem de existir uma outra boa e diferente opção para o seu lugar. Gerson beneficiou da descida gradual de rendimento de André Martins.

Slimani respondeu com mais um golo à titularidade  Fonte: Zerozero
Slimani respondeu com mais um golo à titularidade
Fonte: Zerozero

No jogo, o Setúbal apresentou, através dos seus dinâmicos e jovens jogadores, um futebol fluído e que dificultou ao Sporting a imposição do seu tipo de jogo habitual. Quando com bola, João Mário – o melhor em campo, para mim -, Zequinha e Ricardo Horta deram muitas dores de cabeça aos jogadores leoninos. Sem ela, toda a equipa orientada por Couceiro exerceu uma pressão assinalável, nomeadamente na primeira fase de construcção que passa muito, como se sabe, por William Carvalho. Assim, o Sporting foi forçado a optar por um jogo mais directo que, no fim de contas, até beneficia as características de Islam Slimani, mas que impossibilita o controlo que por certo Leonardo Jardim esperaria.

Muito embora o rendimento do Setúbal estivesse a ser bastante positivo, foi o Sporting o primeiro a chegar ao golo. Heldon cruzou, muito bem, para a área onde Slimani respondeu com um excelente cabeceamento defendido por Kieszek que, no entanto, largou a bola e possibilitou a Adrien a recarga para o fundo das redes. Foi ridiculamente invalidado um golo onde Adrien está bem atrás do último defesa no momento do remate de Slimani. Primeiro erro gravíssimo da equipa de arbitragem a prejudicar os leões.

Pareceu ser, ainda assim, esse o momento de viragem na primeira parte. O Sporting acordou e, pouquíssimo tempo depois, foi a vez de Cédric executar um cruzamento milimétrico de pé esquerdo a que Slimani respondeu com mais um grande remate de cabeça. Foi novamente defendido pelo guardião contrário, mas o fiscal de linha entendeu que já o fez dentro da baliza. As imagens impossibilitam quaisquer certezas pelo que tem de ser dado o benefício da dúvida. 0-1, mas devia estar 0-2.

João Mário,emprestado pelo Sporting, foi um dos melhores em campo  Fonte: Zerozero
João Mário,emprestado pelo Sporting, foi um dos melhores em campo
Fonte: Zerozero

Com o intervalo pouco mudou. Slimani voltou a estar perto do golo, depois de um canto batido por Adrien, mas foi a equipa de José Couceiro quem chegou ao golo, através de Rafael Martins. O avançado estava em fora-de-jogo aquando do passe e, por isso, o golo deveria ter sido anulado… pelo mesmo fiscal que anulou mal o tento de Adrien na primeira parte. 1-1, mas devia estar 0-2. O encontro prosseguiu dividido, com muito recurso ao jogo aéreo e directo, que me parece beneficiar pouco a formação leonina excepto quando nos últimos 30 metros, onde Slimani faz a diferença. Talvez por isso, considero que a junção de Montero e Slimani, se bem trabalhada, pode ser uma solução a ter em conta no futuro.

Leonardo Jardim não demorou a reagir e colocou o avançado colombiano em campo. Talvez por consequência directa ou não, o Sporting esteve perto do golo por várias vezes. Foi ele próprio, Montero, quem quase marcou um golaço depois de um chapéu ao guarda-redes polaco do Setúbal e, mais tarde, Capel que proporcionou uma grande intervenção ao mesmo Kieszek. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, e o Sporting acabou por chegar ao 1-2, depois de Adrien converter uma grande penalidade bem assinalada sobre Capel. 1-2, mas devia estar 0-3.

O jogo parecia terminado, mas a equipa de arbitragem considerou ter ainda pernas para o que restava dos 90 minutos. Só assim se explica a marcação do penalty de Cédric depois de um mergulho de Zequinha, mesmo em frente ao árbitro principal. Na conversão, Ricardo Horta não tremeu e bateu Rui Patrício. 2-2, mas devia estar… 0-3. Dito isto, que mais há a dizer?

A Figura – João Mário: O jovem médio da formação leonina esteve em grande frente ao clube com o qual tem contracto. De capacidade técnica bem acima da média e com uma mobilidade e poder de choque muito assinaláveis para quem tem tão pouco tempo de primeira liga, foi ele quem pautou todo o jogo do Vitória de Setúbal. Para o ano ficará no plantel do Sporting e será uma forte possibilidade para o 11.

O Fora-de-jogo – Equipa de arbitragem: Nem sequer é justo individualizar o árbitro principal ou qualquer dos fiscais de linha porque houve tantos erros que é fácil dividi-los por todos eles. O Sporting tem várias partidas em que é justo o seu direito à indignação, mas esta foi aquela em que existiram mais lances que merecem críticas.

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