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Desculpem-me a ousadia: vou extravasar os limites dos noventa minutos de hoje em Alvalade para falar sobre o Sporting vs Paços de Ferreira. Assim o exige o contexto. É que no campeonato aquilo que se passa nos terrenos alheios onde jogam Benfica e Porto não é indiferente ao Sporting, tal como também não o é o contrário. E se quem aterrasse hoje de Marte não conseguiria ver nada de estranho na partida de Alvalade, quem cá está a acompanhar o que foram as dez primeiras jornadas só não vê aquilo que não quer.

“Os campeonatos perdem-se nas primeiras oito jornadas e ganham-se nas últimas oito”
Munique, 13 de Setembro de 2013 – Pep Guardiola

Justificava Guardiola esta sua opinião com a ideia de que quem cede mais de quatro/cinco pontos nas primeiras oito jornadas entra em campo sempre sob uma pressão que lhe dificulta a conquista dos seguintes pontos e que pode gerar um ciclo vicioso negativo. Ora, o contrário também se aplica: quem entra com uma vantagem confortável para determinada jornada tem sempre um maior à vontade para enfrentar os seus adversários. O que se deve questionar, olhando para o nosso campeonato, é como é que uma equipa como o Benfica – com dificuldades notórias nos mais variados níveis futebolísticos – está oito (!!) pontos à frente de outra que, também tendo os seus defeitos, se mostra superior naquilo que é possível às equipas trabalhar: o seu futebol. A resposta está na própria pergunta – o Benfica tem oito pontos de avanço mesmo praticando pior futebol do que o Sporting porque tem beneficiado de factores extra-futebol. São sucessivas as “coincidências”: em lances de maior ou menor dúvida, a decisão é sempre para o mesmo sentido.

No fim-de-semana passado, com a equipa de Jesus a vencer por um, foi anulado (e bem!) um golo ao Rio Ave por posição irregular, ainda que milimétrica e ainda que o fiscal de linha em questão não tivesse quaisquer condições para assinalar tal lance devido ao seu péssimo posicionamento. Um dia depois, em Guimarães, o Sporting sofreu um golo também irregular mas que seria validado. E, imagine-se, o fiscal estava muito bem posicionado e tinha todas as condições para anular o golo. Perspectivas, coincidências, chamaram-lhe. Hoje, na Madeira, o Nacional sofreu um golo (que viria a valer os três pontos) quando Jonas está novamente numa posição de limite entre o fora-de-jogo e o não fora-de-jogo. Novamente a decisão foi benéfica aos encarnados. Na segunda parte, a equipa da casa viu-lhe ser muito mal anulado um lance que seria de potencial perigo e que poderia valer o empate. O mesmo fiscal que validou o golo de Jonas decidiu anular o lance.

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Neste lance, Montero marca e vê o golo anulado. Slimani, numa posição de limite, não tem interferência no lance.
Neste lance, Montero marca e vê o golo anulado. Slimani, numa posição de limite, não tem interferência no lance.

Mais tarde, em Alvalade, eis que Montero volta a ver um golo completamente legal ser-lhe anulado, tal como se vê na imagem em cima. Não há posição de dúvida nem perspectiva que justifique o erro. O que seria o segundo golo do Sporting no jogo foi mal anulado e, pela segunda semana consecutiva, a equipa viu-se prejudicada por aquilo que não pode controlar.

Só assim se explica uma diferença futebolística onde ela não existe! 

E com estes fenómenos extra-futebolísticos acabamos quase sempre por deixar a alguns a falta de atenção que não merecem: o Paços de Ferreira teve o dom de saber complicar a vida aos verde-e-brancos e não alterou uma vírgula naquilo que é a sua identidade. Paulo Fonseca está a provar que o sucesso não é ocasional e que, perante as suas boas ideias e convicções, conseguirá bons trabalhos em quase todos os seus desafios. Na primeira parte, o Paços dividiu o jogo com o Sporting e procurou sempre ter a bola tanto quanto possível, saindo da pressão alta com qualidade. Ao intervalo, o resultado aceitava-se. No futebol o demérito do adversário nunca é independente do nosso mérito e o contrário também é verdade – por isso, o Paços foi o principal culpado dos 45′ leoninos menos conseguidos.

Na segunda parte, Marco Silva mexeu (bem) no jogo e, mesmo arriscando, conseguiu encontrar um maior equilíbrio. João Mário desceu no campo para jogar sempre de frente e potenciar o momento em que é mais forte: o da construcção (e não na definição); Montero soube aproveitar os espaços entre linhas e tornar mais difícil à defesa do Paços a ocupação dos mesmos; Mané entrou com intensidade e conseguiu, principalmente através de investidas individuais, desequilibrar a defensiva contrária. A partir daí, o Sporting tornou-se dono e senhor do encontro, chegou à igualdade e também à superioridade, que posteriormente foi anulada. Pelo avalanche ofensivo do segundo tempo, os três pontos deveriam ter sido conquistados pelo clube de Alvalade. Apesar disso, o Paços fez por merecer o ponto que conseguiu e em nada deve alterar aquilo que o tem levado ao sucesso recente. No fim, nota para o tempo de compensação peremptoriamente escasso que existiu depois de tantas paragens. E aqui não há questões de perspectiva associadas. Mas assobiemos para o lado, ou não fossemos portugueses.

A Figura

Fredy Montero – O avançado colombiano apontou um golão e, mais do que isso, foi quem mais e melhor encontrou os espaços que viriam a virar o jogo, embora não o marcador. Ainda apontou o segundo, mas já se sabe o que aconteceu.

O Fora de Jogo

Islam Slimani – O outro avançado do Sporting teve uma noite para esquecer: golos falhados com os pés e até com a cabeça com a qual costuma ser letal.