O Sexto Violino

No dia seguinte ao apuramento de Portugal para mais um Mundial – campanha na qual a formação leonina desempenhou, para não fugir à regra, um papel decisivo, com um hat-trick do sócio 100 000 do clube –, é tempo de nos voltarmos a concentrar no futebol nacional e naquilo que pessoalmente me interessa mais do que qualquer selecção: o Sporting.

Findas as primeiras nove jornadas da Liga, e ainda que tenhamos sido eliminados da taça, o balanço é positivo. É certo que realizar uma época ainda pior do que a anterior seria quase impossível, mas poucos esperariam que o Sporting conseguisse, em tão pouco tempo e com recursos escassos, montar uma equipa competitiva que “mordesse os calcanhares” ao Porto e ao Benfica. A prudência leva-me a dizer que ainda conseguimos muito pouco, até porque há dois anos também estávamos numa óptima forma em Novembro e depois quebrámos quase do dia para a noite. No entanto, as circunstâncias também são diferentes, com claro benefício para o Sporting actual. O clube é hoje mais estável e há a sensação de que finalmente todos remam para o mesmo lado, tendo o mérito de ser em larga medida atribuído ao novo presidente.

Anúncio Publicitário
A união no balneário do Sporting salta à vista e contrasta com a realidade das últimas épocas Fonte: http://rr.sapo.pt/
A união no balneário do Sporting salta à vista e contrasta com a realidade das últimas épocas
Fonte: http://rr.sapo.pt/

O trabalho de Leonardo Jardim, contudo, não pode ser desprezado, porque constitui a prova de que as coisas não acontecem por acaso. O treinador madeirense sabia a difícil tarefa que o esperava: pegou num clube em cacos, animicamente destruído depois da pior época da sua História, com rumores de salários em atraso e com uma mudança directiva recente. O projecto consistia em começar praticamente do zero, e a verdade é que para já os sportinguistas não se podem queixar: a equipa joga um futebol atractivo, os jogadores sabem as suas funções em campo, o ataque concretiza, e a defesa, apesar dos golos encaixados nos últimos encontros, também parece ter estabilizado. O estilo de jogo está bem definido, assim como o plano B, com dois avançados sempre que as coisas não estão a correr bem, e que já rendeu dois golos importantes. O ritmo de jogo é muito superior ao dos últimos anos, a equipa pressiona o adversário no seu meio-campo e não tem medo de assumir o controlo contra equipas mais fechadas, os laterais ajudam o ataque (não me canso de elogiar as exibições de Jefferson até à lesão) e os extremos não se limitam a causar desequilíbrios nas alas, aparecendo bastantes vezes em zona de finalização (Wilson, Capel e Carrillo já valeram 8 golos, fora as assistências, apesar de a forma do peruano não ser a melhor). Por último, não podia deixar de referir aqueles que, para mim, são duas pedras fulcrais deste Sporting: Montero, que para além da veia goleadora trabalha muito e inventa espaços para ele ou os colegas explorarem, e William Carvalho, que subiu a pulso desde o semi-anonimato até à conquista do lugar de âncora do meio-campo que agora ocupa. Neste último caso, o mérito de apostar neste jogador e de sentar o capitão Rinaudo (jogador que também aprecio, mas que nunca mais foi o mesmo depois da lesão) recai todo sobre Jardim.

Porém, não podemos perder de vista que esta equipa tem, como é normal, algumas limitações. O eixo da defesa era o sector que me deixava mais dúvidas, e os jogos já disputados contra os grandes levam-me a concluir que esta posição deve ser reforçada. Sobretudo Rojo parece-me ser um jogador que, embora tecnicista, treme bastante e erra na abordagem a alguns lances. Julgo que o Sporting podia aguentá-lo até ao fim da época e depois tirar proveito da sua mais que provável ida ao Mundial, indo de seguida buscar alguém mais “batido” para um lugar onde a experiência ainda é um posto.

No meio-campo, não é novidade para ninguém que André Martins está em sub-rendimento. Não creio que ele seja o jogador mais talhado para criar desequilíbrios e fazer a ligação com o avançado, uma vez que não se trata de um número 10 puro, mas sim de um médio de transição. A sua baixa estatura também pode ser um entrave em certos jogos, embora não me pareça o problema essencial. Salta à vista a necessidade de um jogador mais criativo, e dou por mim a suspirar pelo regresso de Matías Fernández. O chileno encaixaria aqui como uma luva, agora que o Sporting tem equipa para acompanhar o seu génio… De resto, Adrien também cresceu bastante e confere agora ao onze uma sobriedade, maturidade e visão de jogo importantes num plantel jovem, ainda que não seja um jogador rápido. Por último, a verticalidade do jogo de Carrillo, aliada ao facto de o peruano tardar em explodir definitivamente, faz com que me interrogue sobre a necessidade de comprarmos um extremo com créditos firmados e maior capacidade finalizadora – por exemplo Pizzi, que chegou a ser equacionado no Verão e que tinha a vantagem de bater bolas paradas.

Seja como for, o Sporting é hoje uma equipa mais adulta e equilibrada, cuja forma tem surpreendido tanto os adeptos como os rivais. Que este rumo seja para continuar e que no final da época, fruto de um crescimento sustentado e com os pés sempre assentes na terra, continuemos a ter razões para acreditar que o futuro vai ser ainda mais risonho.