Desceu a cortina da sétima jornada e esta paragem para seleções não podia ter vindo em melhor altura para o Sporting CP e para José Peseiro. Depois de um “passo atrás” em Portimão, palavras de Peseiro, onde uma exibição paupérrima resultou numa estrondosa derrota por 4-2, o técnico leonino tem agora um período, de sensivelmente duas semanas, para “recarregar baterias” e apontar aos jogos que se avizinham, entre eles destaque para a exigente receção ao Arsenal FC. Mas, afinal de contas, que relevância pode assumir esta pausa para o futuro da formação leonina?

Primeiramente, José Peseiro e a sua equipa técnica terão que recuperar a equipa animicamente, direcionar-lhes o foco para o que está para vir e, acima de tudo, aprender com os erros cometidos até à data. Neste aspeto, José Peseiro também terá que fazer uma introspeção e dotar-se de mais e melhores “armas” para o resto da época.

Esta paragem para o futebol internacional pode beneficiar o Sporting CP de uma forma direta, permitindo que vários jogadores descansem depois de um período recheado de jogos, não só ao fim de semana mas também com jogos europeus a meio da semana e respetivas deslocações desgastantes. Para além da fadiga notória em algumas individualidades leoninas, estas duas semanas serão também benéficas no aspeto em que jogadores importantes no “xadrez” leonino poderão aproveitar para recuperar de forma mais eficaz das suas lesões e sem perder tantos jogos. Nomes sonantes como Mathieu e Bas Dost têm sido uma constante no boletim clínico tal como Wendel e Sturaro, por exemplo, que pouco ou nada têm conseguido oferecer à equipa neste início de época.

Para além destas ausências que têm prejudicado a equipa, é também verdade que Peseiro não conta com um plantel que lhe ofereça totais garantias, pois têm sido várias as lacunas evidentes. No entanto, o técnico coruchense tem em mãos um grupo de jogadores com qualidade suficiente e indubitavelmente superior quando comparado à grande maioria das equipas que teve como adversários até à data. Contudo, se os resultados não têm deslumbrado, as exibições leoninas têm sido uma tremenda desilusão.

Chego assim, ao ponto principal que penso que deve ser rebatido por Peseiro nesta pausa no futebol nacional: aprimorar o modelo de jogo da sua equipa e de forma urgente. É verdade que muitos internacionais deixarão o grupo de trabalho nesta pausa, mas mesmo assim há muito trabalho a ser desenvolvido. Há jogadores que ainda não estão entrosados a 100% na equipa, como, por exemplo, Gudelj que ainda passa muito ao lado do jogo e parece um corpo estranho à equipa.

Estas duas semanas de treino podem também funcionar como montra para os jogadores menos utilizados e para encontrar soluções internamente. Porém, o mais importante seria mesmo reformular ou operacionalizar de forma mais eficaz o modelo de jogo de José Peseiro porque o futebol praticado chega a ser confrangedor e está muito longe do aceitável para uma equipa com a dimensão do Sporting CP.

As bolas longas sem sentido na frente para um ataque onde Montero é a única referência, a pouca ligação de jogo e entre setores, a deficiente chegada conjunta ao ataque, a inexistência de jogo posicional e a permeabilidade defensiva têm sido “só” alguns dos rasgos no jogar verde e branco que deixam antever o muito trabalho que há para ser feito. Assim, este período de paragem nas competições nacionais permite a Peseiro e ao plantel que se “fechem” em Alcochete para se focarem exclusivamente nas unidades de treino, podendo trabalhar sem a pressão dos jogos e sob menor escrutínio dos adeptos para dar a resposta adequada já nos jogos para a Taça de Portugal e da Liga Europa que se avizinham.

A derrota em Portimão foi um golpe duro no clube de Alvalade
Fonte: Sporting Clube de Portugal

Era sabido que José Peseiro iria ter uma tarefa complicada, quase hercúlea até, para, debaixo de um clima de grande instabilidade, transformar a equipa em cacos que transitou da época passada numa equipa equilibrada, com mentalidade renovada e capaz de mostrar um futebol atrativo, algo que ele próprio prometeu e, até agora, não tem cumprido. Porém, todos sabemos que para aliar vitórias com um futebol aprazível é necessário um ingrediente que não está à venda na janela de transferências e que, aliás, sempre escasseia neste mundo do futebol: o tempo.

Em forma de retrospetiva, podemos observar que o Sporting CP tem feito uma temporada aquém do exigido, principalmente, graças aos últimos resultados negativos. A favor da equipa leonina está, principalmente, o pleno na Liga Europa e o bom início de campeonato, embora esses resultados tenham sido conseguidos de forma sôfrega e órfã de qualquer brilhantismo ou espetacularidade.

Essas vitórias têm sido um pouco enganadoras visto que o futebol praticado nunca transpareceu qualquer domínio ou segurança, estando sempre reféns da qualidade de individualidades como Raphinha, Jovane, Bruno Fernandes ou Nani, porém isto ia sendo suficiente para atingir o mais importante: somar os três pontos.

No entanto, com tão pobres exibições, era só uma questão de tempo até essa “estrelinha” deixar de brilhar favoravelmente aos pupilos de Peseiro. E quando esses rasgos individuais não apareciam, o Sporting CP desvanecia-se no relvado e nunca foi capaz de dar uma resposta cabal como equipa. Nos últimos encontros isso foi evidente e as insípidas exibições originaram dois duros golpes nas aspirações do Sporting CP, com a agravante de os leões deixarem fugir a hipótese de se colocarem perto do topo da liga.

Peseiro prometeu um futebol ofensivo mas o observável tem sido um conservadorismo angustiante. E isto é algo que tem desagradado a massa adepta, pois os adeptos leoninos preferem um bom espetáculo no vulcão de Alvalade a qualquer outro espetáculo noutra sala de entretenimento da capital portuguesa, porque o futebol nunca poderá deixar de ser espetáculo sob pena de perder a sua mais pura essência.

Parece-me assim relevante recuperar as declarações de Jurgen Klopp a esse respeito, proferidas no último fim de semana, e que fariam corar de vergonha certos agentes intervenientes do futebol português: “acredito mesmo que o mais importante no futebol é entreter as pessoas. Não salvamos vidas, não criamos nada, não somos bons em cirurgias médicas, só somos bons a jogar futebol. Se não jogamos para entreter as pessoas, então para que é que jogamos?” e quanta razão tem o extravagante treinador germânico.

Outra questão que pode ser levantada, essencialmente, porque começa a ganhar alguma força no seio da massa adepta leonina é o despedimento de José Peseiro. Analisando friamente e tendo em conta que: nunca foi uma escolha consensual no universo leonino, o seu discurso pouco ambicioso, o futebol conservador apresentado e o somar de várias opções questionáveis, todas estas observações convergem numa questão: será a continuidade de Peseiro a melhor solução para o futuro imediato do Sporting CP?

Assim, Frederico Varandas também poderá ter aqui uma “cartada” importante para jogar e tomar assim, talvez, a sua primeira grande decisão como presidente do clube de Alvalade. Peseiro não foi o treinador que Varandas escolheu, aliás já tinha contrato quando ele assumiu a presidência, logo tem toda a legitimidade para o despedir se assim achar por bem e se analisarmos o timing, esta pausa no futebol nacional pode também ser a melhor altura para mudar de treinador, principalmente, porque esta é a última pausa até ao mercado de inverno, um mês decisivo para o resto da temporada no qual se deve entrar com as ideias bem claras e com estabilidade a todos os níveis.

O jogo em Poltava ilustra bem as exibições apresentadas pelo Sporting neste início de época
Fonte: Sporting Clube de Portugal

Contudo, nos últimos dias, Beto Severo, team manager dos leões, já veio a público dar a cara pelo plantel e pela equipa técnica, apelando à união da família sportinguista e deixando bem claro que as preocupações dos adeptos são prematuras. Portanto, preve-se que nada mude em termos estruturais no banco leonino e por isso pensar nas alternativas disponíveis e existentes no mercado será, simplesmente, um exercício feito em vão.

Esta paragem chegou quando o clube verde e branco mais a precisava mas é conveniente que se transforme esta pausa num ponto de inflexão para catapultar o Sporting CP para o patamar a que pertence. Este é o momento de pôr os contadores a zero e daqui para a frente exige-se que seja sempre a somar, em todos os níveis.

Para concluir, esta pausa assume-se como um período decisivo para o futuro da formação leonina mas também para o futuro de José Peseiro. Agora a bola está do lado do técnico de 58 anos e do seu plantel, esperemos que a partir de agora esta seja tratada como bem merece.

Foto de Capa: Sporting CP

artigo revisto por: Ana Ferreira

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