A atualidade inquieta qualquer habitante do globo. O cidadão comum encontra-se à beira de um poço sem fundo que agrega e acumula tragédias, rebeliões constantes e atentados sucessivos à dignidade humana. A América do Sul, embebida no seu temperamento tropical e enraizada no exotismo que a distingue das outras comunidades, está fundida e enclausurada no espírito reacionário, confluindo-se num clima que incita à revolução, à alteração do paradigma precário que é mediatizado e à imposição de uma postura rija e desinibida face às politiquices do dia-a-dia.

Hoje, enfatizo o Chile. Aquilo que começou por ser uma mera manifestação devido à elevação da tarifa dos bilhetes do metro transfigurou-se num protesto contínuo no qual se reivindicou, com todo o ímpeto, melhorias nos sistemas de saúde e educação e aumento das pensões. A mudança na Constituição do país constitui um tema vigente no panorama político bem como a carga policial que aterroriza as ruas, fortemente criticada por Sebastián Piñera, presidente chileno. No fundo, um presidencialismo com preocupações marxistas no combate às desigualdades e posterior detonação social em prol da estabilidade e harmonia.

E o Sporting Clube de Portugal vive disto mesmo: de contestação, da mais pura das instabilidades, do clima anestesiado pela guerrilha interna e da frequente usurpação da própria identidade. Contudo, ingressando num paradoxo que tende a confundir os mais distraídos, dormita na mesma pasmaceira da qual não se desvincula há anos a fio, motivada inicialmente por uma razão que olvida o seu paradeiro e que agora se tornou uma normalidade, impingindo os milhões de súbditos a recorrer às técnicas mais eficazes de modo a prevenir doenças cardiovasculares.

Matías Fernandez continua a ser um nome acarinhado pelos adeptos do Sporting CP até aos dias de hoje
Fonte: UEFA

Matías Fernandez, ex-internacional chileno, nos vulgarmente designados dias “sim”, era o rosto da insubmissão. Um ditador querido, um totalitarista apreciado por adeptos e respetivos adversários, que impunha termos, condições e referendos mesmo que o acordo e o entendimento não tivessem fim à vista. Uma espécie de Pinochet amado e respeitado pelos líderes democratas do globo. Um Pablo Neruda metaforizado, que compôs versos futebolísticos e os adornou com rimas distendidas ao longo de todos os relvados.

Inúmeras manifestações e protestos liderou na demanda do aumento do passe mínimo e máximo, na reivindicação de uma melhor visão de jogo que pudesse ser interiorizada por todos os seus colegas de equipa e na tentativa de redução de desaires, contribuindo com golos para um Estado de cariz mercenário que bradava desinteresse ao quadrado. Preocupações geográficas guiaram-no desde o primeiro momento, mostrando-se sempre o representante de um proletariado à deriva, de uma classe que, de trabalhadora, pouco ou nada tinha e de uma equipa que fazia da esmola o seu ideal. Um Bruno Fernandes à altura, embora sem algumas especificidades trazidas pelas alterações frequentes no paradigma desportivo.

A sensação de levantar um troféu, em Alvalade, não se vislumbrou. Ficou somente pelos rasgos de genialidade, pelo ludibriar de adversários e pela paixão que o agrilhoava. Como adepto, apercebi-me de que, apesar de todas as contrariedades do seu tempo, o trato da redondinha o preenchia e que era mais um filho que tinha para criar. A balança pende para o lado do amor, as despesas são secundárias.

Obrigado, “Matigol”. Pertenceste ao clube do meu coração e, por isso, também me pertences!

Foto de Capa: Sporting CP

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

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