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Um leão embruxado

Ricardo Figueiredo · 5 min

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Estamos muito próximos de mais um encontro europeu do Sporting, desta feita diante do Legia de Varsóvia, e ainda no rescaldo da traumatizante derrota da primeira jornada, diante do Real Madrid, isto num jogo em que os verde-e-brancos estiveram a ganhar por 1-0 até ao minuto 88, mas que acabariam por perder por 2-1, fruto dos golos tardios de Cristiano Ronaldo e Morata.

É certo que, no futebol, não são raras as vezes em que um clube sofre reviravoltas ou perde nos momentos finais de um jogo, mas é igualmente verdade que, na história mais ou menos recente do Sporting, esta tem sido uma sina quase constante. Para tentarem contrapor este desígnio, é certo que muitos se lembrarão do tardio golo de Miguel Garcia, em Alkmaar, que valeu o apuramento para uma final da Taça UEFA; do autogolo de Wisgerhof, que valeu um dramático apuramento diante do Twente; ou mesmo do espectacular chapéu de Yannick Djaló, num histórico triunfo e consequente apuramento no recinto do Brondby (3-0).

A verdade, contudo, é que esses são escassos momentos de felicidade para contraporem todas as desilusões que os adeptos verde-e-brancos têm sofrido, na Europa, em momentos em que tudo já parecia terminado. Rectas finais de pesadelo que quase fazem acreditar que o leão está embruxado quando joga em provas da UEFA.

Prolongamentos que raramente correm bem

Comecei a seguir futebol com maior atenção na longínqua época de 1989/90, quando Fernando Gomes, Luisinho, Douglas e Oceano eram algumas das principais figuras do Sporting, sendo que fiquei logo “avisado” de que jogos do Sporting que seguem para prolongamento acabam quase invariavelmente por redundar na eliminação dos verde-e-brancos.

Miguel Garcia foi o protagonista de um raro prolongamento risonho Fonte: Sporting CP
Miguel Garcia foi o protagonista de um raro prolongamento risonho
Fonte: Sporting CP

Nessa época, e logo na primeira eliminatória da Taça UEFA, foi o Nápoles a afastar o Sporting, isto no seguimento de dois jogos disputadíssimos e que terminaram sem golos, sendo que a eliminação verde-e-branca se deu nas grandes penalidades, isto apesar de Tomislav Ivkovic ter conseguido defender o disparo daquele que seria o melhor jogador do Mundo da altura, o argentino Diego Maradona.

Desde essa data, e mesmo que exista o tal histórico apuramento de Alkmaar para contrapor, são incontáveis os jogos que o Sporting perdeu no tempo extra e tantas vezes com equipas que, à partida, seriam presa fácil para o leão, nomeadamente o Dínamo Bucareste (1991/92), Grasshoppers (1992/93), Casino Salzburgo (1993/94), Rapid Viena (1995/96), Partizan (2002/03), Halmstads (2005/06). Ou seja, desde 1989/90, o Sporting foi oito vezes a prolongamento em jogos europeus e apenas por uma vez seguiu em frente.

Um pesadelo austríaco em dois actos

É preciso ainda lembrar que em muitos destes casos o Sporting foi obrigado a jogar esses prolongamentos de forma verdadeiramente dramática, sendo emblemáticos os dois jogos a papel químico diante dos austríacos: Casino Salzburgo e Rapid Viena, quando os leões ganharam por 2-0 em casa e sofreram o 2-0 na Áustria já nos últimos instantes de ambas as partidas, sempre com falhas inacreditáveis do guarda-redes Costinha.

Situação talvez ainda mais inexplicável foi a que aconteceu com o Grasshoppers e também com o Halmstads, uma vez que o Sporting, aí, acabou eliminado depois de vencer fora, por 2-1, perdendo em Alvalade pelo mesmo resultado e baqueando posteriormente no prolongamento (1-3 diante dos helvéticos; 2-3 diante dos suecos). E não podemos esquecer que o 1-2, que garantiu o prolongamento ao Halmstads, surgiu no último suspiro do tempo regulamentar e na sequência de mais um frango monumental, desta feita de Nélson.

Menos dramáticas, por outro lado, foram as eliminações com Dínamo de Bucareste e Partizan, ainda que o duelo com o emblema de Belgrado tenha sido também algo cruel para os leões, que haviam perdido em casa por 3-1, mas que conseguiram, de forma heroica, inverter o resultado na capital sérvia. Posteriormente, lembre-se, o Sporting não resistiria no prolongamento, acabando vergado a um empate a três bolas, mas os adeptos com melhor memória lembrarão que Marius Niculae, nos últimos instantes do tempo regulamentar, desperdiçou com um remate ao poste aquele que podia ser o 4-1 do apuramento leonino.

Este foi o protagonista da triste derrota de Gelsenkirchen Fonte: Sporting CP
Este foi o protagonista da triste derrota de Gelsenkirchen
Fonte: Sporting CP

Últimos minutos tantas vezes cruéis

No início do texto lembrei três ocasiões em que o Sporting foi feliz nos últimos suspiros de encontros europeus, mas uma vez mais há que reforçar que são muito mais os casos em que os verde-e-brancos sofreram verdadeiros baldes de água fria nesses momentos cruciais, isto numa epopeia de má memória.

Em 1997/98, diante do Mónaco, em jogo da fase de grupos da Liga dos Campeões, o Sporting viu uma vantagem de 2-0 transformar-se num desaire por 3-2. Em comum com tantas histórias já descritas, foi o golo sofrido aos 90 minutos e a exibição infeliz do guarda-redes Tiago, que nem começou o jogo, mas que acabaria por entrar a meio do mesmo para substituir o lesionado Filip de Wilde. Nessa mesma fase de grupos, na deslocação à Bélgica para defrontar o Lierse, o Sporting haveria de dominar o jogo com clareza do primeiro ao último minuto, altura em que a magra vantagem de 1-0 se esfumou com um golo apontado por Huistra.

Mas esta é uma história que continuou ao longo dos tempos: Manchester United (2007/08 – Fase de grupos da Liga dos Campeões – 1-2 sofrido nos descontos); Glasgow Rangers (2010/11 – 16/final da Taça UEFA – 2-2 sofrido nos descontos, isto depois do 1-1 obtido na Escócia); Maribor (2014/15 – Fase de Grupos da Liga dos Campeões – 1-1 sofrido nos descontos); Schalke 04 (2014/15 – Fase de Grupos da Liga dos Campeões – 3-4 sofrido nos descontos).

Por esta viagem, portanto, percebe-se que o recente drama de Madrid é apenas mais um capítulo de tantos outros que têm acompanhado o Sporting nos seus últimos 27 anos de vida e que me levam a questionar se haverá algum clube na Europa com a mesma sucessão constante de “azares” que vêm minando os verde-e-brancos. É que para se construir um novo Sporting na UEFA também será preciso um pouco de sorte e, por mais que se mude de presidente, treinadores ou jogadores, a má sina vai-se eternizando…

Ricardo Figueiredo

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