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Em finais do século XIX, um jornal era basicamente umas quantas folhas, cheias de palavras cujas letras tinham um tamanho uniformizado, sem destaques ou títulos. Era destinado aos mais abastados, e servia apenas para propaganda política.
O ardina que falei no início deste texto chamava-se Joseph Pulitzer (não sei se já ouviram falar dele), e pensava que os jornais podiam ser o veículo perfeito para dar voz às massas, aos mais desfavorecidos, o que até ali não acontecia. Pulitzer consegue, com sangue, e muito suor, crescer dentro do jornal que depois se tornaria seu, podendo assim idealizar o seu tipo de jornalismo. Notícias que informassem sobre os mais variados temas, e capas com manchetes.

Fonte: Canal História
Esta nova forma de fazer jornalismo, tornou o jornal de Pulitzer um sucesso, e em poucos anos conseguia ser o periódico com mais tiragem. Esse sucesso chamou a atenção de muita gente, e arrastou muitos fãs para a doutrina desta nova visão.
Um desses fãs era William Hearst, filho de famílias ricas que via em Pulitzer um visionário e queria seguir-lhe as pisadas. Para isso pediu à sua família que lhe comprasse um jornal local a partir do qual, com o modelo do seu “mestre”, conseguiu crescer ao ponto de decidir expandir-se, também ele para Nova Iorque e fazer concorrência a Pulitzer. Com o dinheiro infindável da sua família conseguiu roubar as estrelas do seu mestre, e vender as suas publicações a um preço mais baixo. Para ultrapassar definitivamente Pulitzer, Hearst decide publicar notícias sensacionalistas que ajudam o seu jornal a ter a maior tiragem da cidade.
Hearst queria, no entanto, retirar Pulitzer do mercado, e decide aproveitar a história de uma activista cubana contra a ocupação espanhola, tornando-a uma novela com vários capítulos a publicar em várias edições. Isto fez com que Hearst conseguisse ter o jornal com maior tiragem da época. E para perceber o seu poder, e de como o seu jornal chegava a todo o lado, a activista cubana iria tornar-se uma heroína nos Estados Unidos.
O seu modelo sensacionalista iria depois ter o seu auge quando decide aproveitar a explosão do USS Maine, um navio americano ancorado em Cuba. Hearst decide escrever que esse episódio seria um ataque dos espanhóis aos Estados Unidos, por apoiarem Cuba. Sem qualquer prova, mas conseguindo influenciar milhares de americanos, haveria de conseguir que os Estados Unidos da América declarassem guerra a Espanha.

Fonte: slideshare.net
Pulitzer via assim a sua visão de um jornalismo de causas nobres ser aproveitada politicamente para influenciar a opinião pública, manietar o conhecimento dos acontecimentos, e levar a um fim que serviu apenas para vender mais jornais (têm visto disto em algum lado?). Para entendermos as motivações de cada um precisamos apenas de saber que depois das suas carreiras no jornalismo, Hearst decidiu enveredar pela politica e ainda fez alguns guiões para Hollywood, já Pulitzer investiu parte da sua fortuna em ajudar a desenvolver uma academia de jornalismo, e criou um prémio com o seu nome para premiar os que faziam trabalhos de jornalismo como o que ele havia idealizado.
A perceber pelo estado actual do jornalismo em Portugal, conseguimos descortinar qual a visão que predominou desde aí. E infelizmente aqui o melhor não ganhou. O jornalismo actual decidiu seguir o menos ético por ser o mais fácil, lucrativo e sem necessidade de investigação. Apenas precisam de se sentar e imaginar uma novela a partir de um acontecimento banal.
Para ilustrar tudo isso, alguém se lembra de uma “Napachacha Sellevava” que se tornou a informação fidedigna de um qualquer programa televisivo? Pois, porque hoje o jornalismo de investigação faz-se sentado à frente de um computador a fazer “scroll” nas redes sociais.
No que toca ao Sporting, Octávio Machado é o novo acontecimento que a imprensa precisava para atacar o seu alvo preferencial, Bruno de Carvalho. Aliás, não é apenas a comunicação social, mas toda a organização do futebol português. Não quero com isto ilibar Octávio Machado, uma vez que não é já a primeira vez que se aproveita desta sede do sensacionalismo dos meios de comunicação para “lavar roupa suja”, mas acontece apenas porque o “palmelense” sabe como funciona, e o que move as instituições que rodeiam o futebol. Foi uma estratégia “win-win”, em que o ex-treinador pôde atacar no que se havia agora tornado um inimigo comum.
Os ataques a Bruno de Carvalho, e histórias sobre os seus usos e costumes já fizeram mais manchetes que dez apitos dourados ou casos de e-mails.

Fonte: Camarote Leonino
Tudo isto serve para tentar matar vários coelhos de uma cajadada. Ou seja, com o ataque ao presidente do Sporting, tentam descredibilizar quem começou a desmascarar o sistema montado (e depois daquela frase do director de comunicação do norte a referir o portátil de Jorge Jesus, poderemos ter ficado a perceber ainda melhor o ataque que este sofreu quando veio para o Sporting), aproveitado para desviar atenções de assuntos mais graves que se passam no futebol português e que já ninguém duvida existirem, havendo agora a única preocupação de tornar o email uma não prova. Ou seja, existem, e são verdadeiros como o próprio clube de origem admite e não desmente, mas tenta que não seja possível usar como prova. Ora isso de pouco importa para o futebol em Portugal. O que importa é que Bruno de Carvalho é um passarinho, gatinho, e mais umas quantas comparações zoológicas do agricultor de Palmela.
Aqui está, portanto, o jornalismo que conseguiu, do nada, criar uma guerra entre dois países, a trabalhar para um sistema instalado, e os interesses de quem manda. Depois de tanto trabalho, Pulitzer tem apenas a satisfação de saber que este tipo de jornalista nunca conseguiria ganhar um prémio de jornalismo por si criado.
E sai um Pulitzer para o jornalismo português? Não, não me parece. Nem que fossemos uma região do país onde esse prémio se atribui.
Fonte de capa: icebookcream.wordpress.com







