Podemos ver a atual campanha do Sporting CP no campeonato de diversas formas: a equipa de Rúben Amorim está a realmente ser muito mais competente em comparação aos anos anteriores, está com um mindset diferente ou que está a ter a sorte (conhecida popularmente como ‘’estrelinha’’) que lhe faltou nos últimos 19 anos. Posto isto, nada no futebol é linear e, portanto, a turma leonina beneficia, evidentemente, de um pouco de cada um destes fatores.

Já aqui se falou das várias vezes em que o líder do campeonato resolveu jogos já perto do final do jogo ou até mesmo em período de descontos – e não foram uma ou duas vezes – pelo que, como se costuma dizer, ‘’a sorte protege audazes’’. E a equipa do Sporting CP é audaz, persistente, valente. O próprio treinador já admitiu que os Leões já tiveram equipas melhores e que praticavam um futebol bem mais atrativo, tendo como referências equipas na década de 90 que contavam com craques como Figo e Balakov, bem como a primeira época de Jorge Jesus em Alvalade, mas que os seus jogadores sabem muito bem contornar as suas limitações.

No entanto, torna-se redutor e de certa forma injusto justificar os números incríveis da turma verde e branca no campeonato com sorte e a tão falada ‘’estrelinha’’. Já são 22 jornadas sem perder, um recorde em toda a história centenária do Sporting CP. O contexto pandémico ajudou a relaxar a equipa e a evitar um ambiente mais pesado? A eliminação precoce na Liga Europa ‘’livrou’’ os Leões de uma maior sobrecarga de jogos? Sim, é incontornável que existiram situações benéficas num contexto muito particular, mas o mérito existe e é inquestionável.

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Recuemos a temporadas transatas: a última época em que existiu a hipótese de título em Alvalade foi em 2017/18, e muito embora o Sporting CP tenha ficado ‘’arrumado’’ dessa possibilidade entre fevereiro e março, a realidade é que o plantel era muito superior ao atual, quiçá o mais completo que o clube possuiu desde a década de 90, para além de um treinador muito capaz que, como se sabe, acabou por não triunfar no clube. No fim dessa temporada, aconteceu o que aconteceu, mas tratava-se de uma equipa que era capaz de muito mais.

Na época 2015/16, a expectativa era grande, dado que o Sporting CP tinha ‘’roubado’’ o treinador bicampeão ao eterno rival, para além de ter reforçado a equipa com jogadores de qualidade inquestionável como Bryan Ruiz ou Teo Gutiérrez, para além de Coates em janeiro. Foram segurados também ativos importantes como Rui Patrício, William Carvalho, Adrien Silva, João Mário ou Slimani. Tinha tudo para correr bem, e mesmo que para muitos os Leões tenham sido a equipa a praticar o futebol mais atrativo daquele campeonato, a realidade é que não foi campeão e a razão é que faltou muita coisa: uma comunicação correta, humildade e provavelmente sorte em certos jogos. E claro, como é sabido, o futebol em Portugal é muito jogado fora das quatro linhas, mas é um campo no qual não vale a pena entrar neste momento.

Por fim, foquemo-nos no essencial: a comunicação nessa época foi péssima. Um trio formado por Bruno de Carvalho, Jorge Jesus e Octávio Machado nunca poderia ser saudável para o futebol. Declarações inflamadas, exageradas e que, de certa forma, acabaram por motivar o Benfica, que se lançou para o tricampeonato. Sou um feroz crítico de Frederico Varandas e sempre serei, mesmo que ganhe este campeonato e mais uns quantos, por tudo o resto, mas parece que estará a aprender com os erros do passado e a evitar criar polémicas, depois do próprio as ter criado nos últimos dois anos – assumo que já entendeu que é uma ‘’guerra’’ que não poderá ganhar e que assim nunca poderia ‘’unir’’ o clube, como havia prometido.

A prestação de Rúben Amorim ao serviço do comando técnico do Sporting CP está a surpreender tudo e todos
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

A história do Sporting CP é feita de glórias e grandes conquistas, mas também de tiros nos pés. Esperemos que esta possível conquista do campeonato, após longos 19 anos de jejum, seja precursora de um futuro mais risonho para o clube, baseado na racionalidade e inteligência, sem os erros históricos que ao longo de mais de cem anos foram cometidos, passando pelos anos de ouro dos Cinco Violinos, em que o Sporting CP não ganhou oito (!) campeonatos seguidos porque não ‘’quis’’, no final da década de 70 e início de 80, em que se verificou a ‘’emancipação nacional’’ do FC Porto, com uma má abordagem no combate a Pinto da Costa por parte do saudoso João Rocha, as últimas duas conquistas do campeonato em 2000 e 2002, em que o clube poderia ter apostado no futuro, beneficiando num suposto ‘’fim de ciclo’’ do FC Porto e na profunda crise do SL Benfica, a não vinda de Jorge Jesus em 2009, que acabou por fazer história no eterno rival e mais recentemente a era Bruno de Carvalho, marcada por diversos erros – tendo como o principal a contratação milionária de Jorge Jesus e a sua permanência.

Admito que esta renovação de Rúben Amorim me pareceu precoce, apesar do grande trabalho que tem realizado ao comando da equipa. O ‘’fantasma’’ Jorge Jesus ainda paira em Alvalade, mas esperemos que não se repita e que se trate de uma total rotura com o passado recente.

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