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Escrever sobre o que se passa fora das quatro linhas do relvado – ou pelo menos fazê-lo sem o fácil resvalo para o cliché – está longe de ser o mais fácil dos labores. A narrativa das incidências do jogo é subtancialemente mais fácil de reproduzir. Com maior ou menor conhecimento técnico-táctico do redactor, é sempre possível garantir o essencial: a descrição dos lances, das sortes e dos azares de parte a parte, do critério do árbitro, do estado do terreno e, por fim, do impacto que o resultado teve para as aspirações das equipas.

Escrever sobre o que se passa fora das quatro linhas do relvado começa por ter o problema da delimitação do objecto. E, a título pessoal, da quase impossível garantia de imparcialidade.

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O primeiro Vitória vs Braga a que assisti – ou, pelo menos, aquele de que me recordo ter assistido – ainda tinha vitórias a valer dois pontos. Da zona envolvente do estádio, irreconhecível por comparação com a actualidade, lembro-me nitidamente de uma estreita porta negra ao fundo no acesso ao actual topo sul. “Ao fundo”, porque furar por aquele acantonamento de adeptos em ebulição parecia praticamente impossível; numa atmosfera típica do futebol do início dos anos 90, todos queriam entrar por aquela brecha com a maior celeridade e a todo o custo, sem revistas nem objectos proibidos ou torniquetes electrónicos. Acabei por entrar ao colo do meu pai, no meio de exclamações do género “olha aí que está aqui uma criança”, apenas assim beneficiando de um pouco de ar respirável. O medo sentido naquele momento, contudo, foi de imediato contrabalançado por um artefacto que hoje não me seria permitido levar para o interior de qualquer recinto desportivo: a minha primeira bandeira com o escudo do Rei, com cabo de madeira e com um tecido que hoje já não se encontra. O Vitória vencera por quatro bolas a duas, golos de Tanta, Gilmar, (o grande) Zahovic e Emerson Almeida, e terminara essa época na quarta posição. Estávamos no auge da era do carismático e polémico Pimenta Machado. Os vitorianos podiam arrogar-se de, sucessivamente, época após época, serem melhores desportivamente do que o rival do outro lado da Morreira.

Prevê-se um encontro de grande nível Guimarães Fonte: Vitória Sport Clube
Prevê-se um encontro de grande nível Guimarães
Fonte: Vitória Sport Clube

A viragem do século traria consigo uma realidade substancialmente diferente. O Vitória “mandão”, de presença assídua nas competições da UEFA, começava dentro do campo a dar sinais de fraqueza; em 2000/01 garantiu a manutenção apenas na última jornada, cenário que se voltaria a repetir em 2003/04. Não obstante, a quebra de rendimento não afectou a paixão vitoriana, potenciando-a até nos momentos de maior aperto. Nesse ano de 2004, estou seguro de que qualquer vitoriano há-de ter gritado e festejado mais o golo do Rogério Matias no dérbi – que deu o mote para a manutenção no principal escalão – do que o penalty decisivo do Ricardo contra a Inglaterra. Fui literalmente projectado no meio dos festejos, mas, honestamente, pouco me ralei com as pisaduras.

Na época de 2010/11, fui sucessivamente do Lech Poznan, do Liverpool, do Dinamo de Kiev e até do Benfica e do Porto. Não tenho qualquer pudor em assumi-lo, do mesmo modo que ninguém do Braga terá celebrado a nossa conquista da Taça de Portugal; seguramente ninguém veria com agrado o inimigo visceral ter sucesso numa competição europeia. Ou nacional. Ou mesmo amigável. Nesse aspecto, a transparência é absoluta: sem prejuízo do respeito pela instituição, nenhum vitoriano gosta de ver o Braga a ganhar. E o sentimento é recíproco.

Em Guimarães há uma sobejamente conhecida identidade do clube com a cidade, numa relação quase umbilical sem par a nível nacional. E nos dias de confronto, como o de hoje à noite, o ambiente é invadido por uma tensão positiva, que tolhe a concentração em todo o resto nas horas que o antecedem. Todos os jogos são para ganhar, mas nestes em particular exige-se que a equipa deixe a pele em campo. E em Guimarães a exigência é a nota dominante. Os vitorianos terão em Soudani e Ricardo as referências de maior no que à conquista da Taça de Portugal diz respeito, mas jamais se esquecerão do bis de Barrientos naquela épica noite de Janeiro de 2013.

Infelizmente, e não raras vezes, estes encontros são sinónimo de conflitualidade acima do aceitável. O jogo entre equipas B de há dois anos foi o exemplo acabado de como o ambiente é facilmente inflamável, corporizando o que de mais negativo há no futebol, o que acarreta consequências para os próprios clubes. São longos os relatos de confrontos físicos, tanto num estádio como no outro, que fazem do dérbi minhoto um jogo de alto risco. Ai do infeliz que tenha a ideia de se aventurar por zonas não policiadas com a camisola do adversário…

É por isso que se torna difícil escrever sobre o que se passa fora das quatro linhas do relvado. Porque o futebol passa frequentemente para segundo plano, sucumbido à ideia de superiorização ao rival seja de que maneira for. Na liga, à boleia de uma excelente segunda volta, os arsenalistas cavaram um fosso de dez pontos para os conquistadores. Mas isso não significa que hoje à noite não nos desloquemos ao estádio em massa, com o mesmo fervor irracional que teríamos se estivéssemos em primeiro lugar ou até na segunda divisão.

Esteja em campo o Zahovic, o Pedro Barbosa, o Capucho, o Meira, o Mendes, o Romeu, o Assis, o Desmarets, o Soudani ou o André André, a verdade é apenas uma: mudam os intervenientes, muda o estádio, mudam as gerações, mas a paixão não muda. Pessoalmente, resta-me deixar votos de que “espanhóis” e “marroquinos” dêem um bom espectáculo. Que ninguém se magoe. Mas que os três pontos fiquem no castelo.

Foto de Capa: Vitória Sport Clube