Jorge Jesus é o novo selecionador de Portugal. Técnico de 71 anos deu uma entrevista ao Canal 11 e falou sobre vários temas.
Jorge Jesus deu uma entrevista ao Canal 11, na qual falou sobre vários temas. O técnico de 71 anos sucedeu a Roberto Martínez como novo selecionador de Portugal, com contrato válido de quatro anos até 2030. Podes recordar a apresentação do mesmo.
«Queria dar o pontapé de saída com uma entrevista da Seleção Nacional e só podia ser na casa. Na casa do futebol, da Seleção. E tenho todo o prazer em estar aqui a partilhar tudo o que me queiram perguntar. O meu primeiro dia, depois da minha apresentação, foi conhecer os cantos à casa. Já os conhecia por fora, por dentro não conhecia. Perceber quais as dinâmicas, a estrutura desportiva. Olho para a Seleção exatamente da mesma maneira que olho para um clube: há uma estrutura e administração que representa o clube, e depois há uma desportiva, que é aquilo que vou tentar, junto do doutor Lourenço Coelho, implantar para que todos nós possamos saber quem reporta a quem. Não se ganham jogos só dentro do campo. É preciso ter estrutura, qualidade, caráter e tudo isso dentro de campo, mas fora, se não conseguires ter uma estrutura que te identifique com o processo, as coisas são mais difíceis», começou por dizer Jorge Jesus.
Jorge Jesus falou sobre as primeiras sensações:
«Mais no primeiro dia porque estive, novamente, a confrontar-me, entre aspas, com vários jornalistas que ao longo da minha vida me habituaram. Estou há cinco ou seis anos fora de Portugal. E além de ficar motivado, senti um bocadinho o carinho das pessoas. E senti-me muito bem. Em relação ao primeiro dia, é uma casa muito grande. Não conhecia muitas das pessoas. Quero identificar-me com elas, mesmo que não tenham diretamente nada a ver comigo. Porque no fundo todos temos [a ver uns com os outros], porque isto é a mesma casa. Desde que cheguei, estou todos os dias aqui. Oito ou nove horas da manhã, saio às cinco, seis… ‘Ah, mas o que é que andas a fazer se não há treino?’. Há muita coisa para fazer. E é isso que estou a fazer neste momento».
Jorge Jesus ainda não começou a conversar com os jogadores:
«Não. Acho que eles ainda devem estar de férias e, portanto, ainda não comecei. Quando for a primeira convocatória, neste caso o primeiro jogo, que é dia 24 de setembro, quero, dentro do que é uma pré-convocatória, ter falado com a grande maioria. Não sei se vou ter tempo de falar com todos, mas com o tempo vou fazê-lo».
«Tenho uma vantagem entre aspas: destes jogadores que estavam no Mundial, 12 já tinham trabalhado comigo. Há uma ligação. Claro que passaram alguns anos, mas eles já me conhecem, eu a eles… É igual. O que eu era há uns anos, hoje não sou completamente diferente, mas sou um bocadinho diferente…», disse ainda Jorge Jesus.
Jorge Jesus falou sobre o Mundial 2026:
«A primeira qualidade de uma equipa é saber defender bem, não é saber atacar. Essa é a primeira qualidade. Estamos a falar do Campeonato do Mundo. França contra Espanha. Espanha ganhou porquê? Porque soube defender melhor. Soube parar aquela qualidade dos jogadores franceses. E esse é o primeiro princípio. Passo muito isto aos meus jogadores quando estou nas minhas equipas, neste caso na Seleção. Para conquistares títulos, tens de saber defender bem. Se não defenderes bem, vais ganhando jogos, mas nunca ganhas títulos».
Jorge Jesus foi questionado sobre o que os portugueses podem esperar da Seleção Nacional:
«Tenho uma ideia diferente. Cada treinador tem as suas ideias. E o que é isso? Não há sistemas melhores ou piores, 4x3x3, 4x4x2, 3x5x2… Não há nenhum treinador que diga ‘este meu sistema é o melhor’. Mas o futebol para mim é criatividade, não é uma ciência exata. Tem tudo muito a ver com a criatividade do jogador e do treinador. E o que passo aos jogadores é a ideia defensiva, como defender, e como atacar. São dois princípios que parecem fáceis, mas depois na prática… Saber ensinar… Não ensino os jogadores a jogar, mas ensino os jogadores a ter as ideias da equipa na qual trabalho. E isso é fundamental».
Jorge Jesus voltou a falar sobre o Mundial e destacou a Espanha:
«No França x Espanha vimos uma Espanha a defender muito bem, com uma estratégia bem definida. É verdade que houve jogadores da seleção espanhola que neste jogo subiram, caso do Rodri. Que foi o melhor jogador. E penso que a mudança do Pedri pelo Fabián Ruiz foi fundamental para que aquele meio-campo fosse melhor a defender e mais criativo a atacar. Isso, na minha opinião, fez a diferença no jogo. E partilhando a mesma ideia, o conceito de sistema tático é dentro do que penso que vai ser a Seleção portuguesa. Como normalmente são as minhas equipas. Mas os jogadores é que também me vão dizer o que vou ter de fazer. A ideia será sempre minha e partilhada com os jogadores, mas não vou ter uma ideia que veja que não serve para as caraterísticas dos jogadores».
Jorge Jesus falou sobre o meio-campo de Portugal:
«Tem potencial para ser o melhor, tem tendência para ser um dos melhores. Dizer que o meio-campo é melhor porque a qualidade individual está lá… Depois temos de transportar isso para a prática, provar que somos os melhores. Do Mundial, direi que o meio-campo da Espanha foi perfeito. Na Seleção Nacional há muita qualidade e quantidade para esses setores. Se jogares com três médios, o leque abre, mas jogar com dois… Um mais posicional, que nas minhas equipas é difícil não ter, e depois um segundo com caraterísticas mais ofensivas… O leque começa a reduzir para a quantidade e qualidade que tens de jogadores nessa posição».
Jorge Jesus quer Portugal a jogar mais:
«É a lógica. Se a Seleção não jogar mais do que jogou no Mundial, não vou fazer melhor. Temos que jogar mais. Se não jogarmos mais, continuamos todos aqui a alimentar um sonho. Há vários anos… Não foi só neste Mundial. Temos grandes jogadores, mas não ganhamos muita coisa. Já fomos campeões europeus, já é ganhar. Claro que já foi há 10 anos, mas já ganhámos duas Ligas das Nações, que é uma competição que todos achamos não ser a mais importante. Não é, o mais importante é o Mundial e o Europeu, mas é a competição mais difícil, porque normalmente é onde chegam sempre as melhores equipas europeias. Portugal, Espanha, Alemanha e França no ano passado».
Jorge Jesus coloca o grande foco no Mundial 2030:
«O grande foco é o Mundial’2030 em Portugal, também é o meu foco. Tenho um grande orgulho ser treinador da seleção do meu país, mas também havia no horizonte o facto de, em 2030, o Mundial ser em Portugal. E sonhar com essa possibilidade. Temos todas as condições para o fazer. E nas equipas onde trabalho, normalmente não tenho outra saída. Flamengo, Benfica, mesmo no Sporting… Os treinadores que estão nessas equipas não podem dizer ‘vamos jogar para ser campeões’. Vamos jogar não. O clube exige que seja assim. E a Seleção exige o mesmo, que a ideia seja essa, sair vencedor. Depois se sais ou não sais, isso já é o jogo…».
Jorge Jesus falou sobre o formato da Liga das Nações:
«O que é que me dá jeito? O facto de a calendarização este ano ser diferente. Vamos fazer quatro ou cinco jogos seguidos. E isso ajuda-me. Não é como normalmente acontecia, jogar um ou dois jogos, os jogadores voltavam aos campeonatos, e depois novamente às seleções. Agora há quatro ou cinco jogos consecutivos onde posso partilhar [informação] com eles. Agora dizem-me ‘mas os jogos são de três em três dias’. Está bem, mas há jogadores que jogam, outros que não jogam. Vamos ter vários treinos para trabalhar e crescer para o futuro».
Jorge Jesus foi questionado sobre se os portugueses podem esperar convocatórias mais fixas ou convocatórias que se foquem mais no momento dos jogadores:
«Ao momento, sim. A próxima vai ser em setembro. O facto de termos ficado nos oitavos-de-final… ‘Ah, o novo selecionador vai chegar e mudar n jogadores’. Não, não vai ser. Não sou burro… Ainda por cima não há tanto tempo assim para mudar vários jogadores. E também não há assim um leque tão grande de jogadores neste momento. Ao longo dos quatro anos vão aparecer jogadores novos, não tenho dúvida nenhuma. Mas de um mês para o outro… Não vai fugir muito daqueles que foram convocados. Dois ou três novos, algo assim do género. Mas não vai fugir muito disso».
«Se não estiverem a 100%, não os posso convocar. Só os convoco e meto a jogar se estiverem a 100%. Numa seleção, como tens mais quantidade… Nos clubes faço isso, sabendo que um jogador não está a 100% em relação a outro… Mas se sei que os 100% de um são melhores do que os do outro, então é nele que confio. Numa seleção, neste caso Portugal, onde a qualidade é muito nivelada, tem a ver com o momento e com a forma do jogador», referiu também Jorge Jesus.
Jorge Jesus destacou o Amora:
«Todos os clubes que me deram a oportunidade e fizeram de mim treinador devem estar orgulhosos de eu hoje ser selecionador português. Não vamos falar de Benfica, Braga, Vitória SC, etc… Onde eu comecei. O Amora. As pessoas do Amora devem estar orgulhosas. ‘O mister da Seleção já treinou o Amora…’. Como disse e bem, treinei e joguei em várias equipas em Portugal. E acho que essa aproximação do povo ao selecionador é boa. Acho eu…».
Pensa falar com os presidentes e treinadores desses clubes:
«Com os presidentes não, mas com os treinadores sim. Nos clubes onde treinei, muitas vezes os selecionadores vinham [falar comigo]. O [Roberto] Martínez, por exemplo, agora quando estava no Al Hilal. No Al Nassr também, mas não tanto. Foi à Arábia Saudita falar comigo. No Al Hilal mais por causa do Rúben Neves. Acho que ainda não tinha o Cancelo. E agora no Al Nassr por causa do João [Félix] e do Cristiano [Ronaldo]».
«Acredito na qualidade dos jogadores e na minha como treinador. A minha preocupação é tentar colocar a equipa a jogar ao nível que eu acho que os jogadores têm. Talvez isso esteja a preocupar. Mas se tenho dúvidas que vou fazer? Não. Tenho mais certezas do que dúvidas. Mas dúvidas temos sempre, como é óbvio. Quando trabalhas pelo excesso de qualidade, ainda pode criar mais dúvidas…», disse Jorge Jesus mais à frente.
Jorge Jesus falou sobre ter referência da Seleção na sua equipa técnica:
«Em todas as equipas onde trabalhei, mesmo no estrangeiro, escolho sempre um elemento da minha equipa técnica um antigo jogador. Caso do Luisão no Benfica, no Al Hilal também fui buscar, no Fenerbahçe… Faço isso em todas as equipas onde estou. E na Seleção a ideia é essa, encontrar alguém que tenha sido jogador da Seleção, que possa fazer parte da minha equipa técnica. Dentro das ideias que vai, entre aspas, aprender, porque as ideias são minhas, e que depois seja importante. Não vou buscar um elemento destes para estar ao pé de mim e ir, entre aspas, meter os pinos e marcar o campo. Nada disso. É para fazer parte do trabalho».
Jorge Jesus falou sobre a evolução do futebol:
«O futebol está sempre a evoluir. Quem pensa que o futebol estagnou, que não há nada para aprender, engana-se. No futebol não há direitos de autor. Se houvesse, era muito complicado para alguns treinadores. Há treinadores criadores e outros que copiam, não é? Não sei se no Europeu vai acontecer a mesma coisa, mas o facto de o Mundial ter dois time-outs… Na 1.ª parte tem um, na 2.ª parte tem outro. Tem o intervalo, e depois três partes do jogo partidas. Vocês às vezes dizem ‘ah, o jogo está partido’. O jogo não se parte, as equipas é que se partem. Nas outras modalidades coletivas também há time-outs. Entras com uma ideia e um sistema, e nesse espaço podes mudar se souberes trabalhar a equipa e os jogadores. Partir para outra ideia, estratégia. E isso vai permitir às equipas fazerem isso. E os treinadores que perceberem isso, vão ter vantagem».
Jorge Jesus falou sobre haver cinco substituições:
«Mudou. Quando lanças cinco jogadores, é metade da equipa. Não contando o guarda-redes. E podes não só substituir o jogador por não estar a render tecnicamente, mas também por estar lesionado, por quereres mudar um pouco da estratégia do que está a acontecer. Tens cinco jogadores para o fazer. Tanto defensivamente como ofensivamente. E é uma defesa do treinador, poder gerir o grupo. São cinco que também jogam. É verdade que há treinadores que não gostam muito de fazer todas as substituições. Por exemplo, o Pep [Guardiola] não gosta. Mas cada jogo tem a sua história. E eu, quando posso fazer, faço. E quando tens um grupo com qualidade, ainda é mais fácil. Mas quando o grupo é reduzido, fazes uma ou duas e pensas ‘não posso fazer mais porque depois a diferença vai ser muito grande’. Mas ajuda».
Jorge Jesus foi questionado sobre o que faltou ao Brasil no Mundial:
«Eu digo que Portugal é o Brasil da Europa… Muita qualidade individual, mas depois quando chegam aos Mundiais. O Brasil não é campeão há 22 anos. Eles dizem ‘ah, mas somos o país com mais títulos’. É verdade. É o passado, há 22 anos que não ganham. E têm sempre grandes jogadores. Mas depois não conseguem fazer uma grande seleção».
«Posso confessar aqui. Acabei por não ir treinar a seleção do Brasil, mas já tinha indicações para fazer a pré-convocatória para o jogo que havia em março, depois de terem perdido 4-1 com a Argentina. O que teria feito? O jogador brasileiro nasceu para jogar, no campeonato do Brasil há muita qualidade. Fazia uma convocatória diferente daquela do Ancelotti? Claro que num ou outro jogador sim. Acho que, neste momento, o melhor ponta-de-lança do futebol brasileiro é o Pedro. Talvez seja um bocadinho tendencioso por ter sido meu jogador no Flamengo. Mas acho que, na maioria, concordava com o que ele [Ancelotti] fez. Mas depois no cunho pessoal, na forma de olhar para o jogo, de treinar. Essas é que são as diferenças. As formas de cada treinador olhar para o jogo e colocar as suas ideias… E volto a dizer que isso envolve muita coisa. É atacar, é defender, é a estratégia… É muita coisa. O processo é que faz a diferença», disse ainda Jorge Jesus.