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Força da Tática | O que faz do Belenenses SAD uma das melhores defesas do campeonato?

Gabriel Henriques Reis · 6 min

Belenenses SAD
Foto: Isabel Silva / Bola na Rede

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O Belenenses SAD é por esta altura a quarta melhor defesa da Primeira Liga Portuguesa, contando 24 golos sofridos em 26 partidas disputas. Quer isto dizer que o conjunto orientado por Petit surge logo a seguir aos “três grandes”, Sporting CP, SL Benfica e FC Porto. Mas afinal, o que faz com que a defesa do Belenenses SAD seja tão difícil de bater?

A resposta mais lógica seria apontar para a qualidade da linha defensiva, que é inegável. Ainda assim, tem de haver algo mais. A minha aposta seria, muito além de questões táticas, uma marca pouco vista em Portugal: Petit é treinador da equipa Lisboeta desde janeiro de 2020, estando quase a completar ano e meio ao serviço do clube.

Algo pouco visto, até em grandes do futebol português. Só Sérgio Conceição, no FC Porto, e Pepa, no FC Paços de Ferreira, estão há mais tempo nos seus respetivos cargos. A consistência e o “acreditar” num treinador ou por outro lado, numa ideia, pode ser muitas vezes benéfico para as direções, e este parece ser apenas mais um exemplo. Mas, vamos ao que interessa.

Petit tem claramente definido o seu habitual 3-4-3, que se transforma, quando defende, mais propriamente, num 5-2-3 ou 5-3-2, dependendo do posicionamento de um dos extremos (normalmente Silvestre Varela desce para o meio-campo). E diria que tem também um conjunto restrito de jogadores nos quais costuma apostar. Por crença, ou por falta de opções de qualidade, muitas vezes recorre à equipa de sub-23 para se “reforçar”.

CONSTRUÇÃO DO BELENENSES SAD E MOMENTOS OFENSIVOS

Nos momentos de construção a equipa não tem processos complexos, nem eficazes, na verdade. Se defensivamente se revela sólida, ofensivamente o Belenenses SAD é, de longe, a equipa menos concretizadora da Liga Portuguesa (15 golos). Para se perceber, cada um dos dois melhores marcadores da liga, Pedro Gonçalves e Haris Seferović, têm mais golos sozinhos (16).

A equipa procura quase sempre colocar bolas em profundidade, seja pelos defesas-centrais ou médios, priorizando os movimentos de rutura dos alas, extremos e avançado. Miguel Cardoso, Silvestre Varela ou Cassierra costumam combinar e funcionar com trocas para confundir as marcações dos defesas contrários. A maior parte do perigo, e dos golos, nascem na sequência de cruzamentos e bolas para a área, o que pode explicar grande parte do insucesso na frente.

Petit prefere controlar o jogo sem bola e conter o perigo do adversário, esperando pacientemente pelo golo, que espera encontrar em saídas para o ataque baseadas no perigo dos seus avançados. Pode não ser a mais eficaz, mas a verdade é que vai fugindo aos lugares de descida.

QUALIDADE DA LINHA DEFENSIVA (TRÊS CENTRAIS)

A linha defensiva é claramente o seu ponto forte. Os três defesas-centrais (que se podem ver na imagem), Henrique (meio), Tomás Ribeiro (esquerda) e Gonçalo Silva (direita) são recorrentemente escolhidos e consolidam-se como pilares, garantindo conforto na parte de trás.

O primeiro posiciona-se como elemento de chefia e liderança. Destrói a maior parte das jogadas e é também quem tem a maior taxa de bloqueio de remates dos adversários (0.62, segundo o portal WhoScored.com). Gonçalo Silva oferece estabilidade, experiência à direita e não é limitado na saída de bola.

Resta Tomás Ribeiro, que com 21 anos, é um dos centrais com mais potencial da Primeira Liga. Ainda que a maior parte dos ataques da equipa surja pela direita, este é o jogador com melhor critério no passe de todos os elementos do plantel no que aos defesas diz respeito. Segundo o SofaScore, lidera em passes precisos por jogo (76%) e também em passes longos precisos, contabilizando uma média de 5.1 (!) por jogo. Destaque ainda para as interceções, onde também lidera, com duas em média por partida. Tem tudo para chegar a outros patamares num futuro próximo.

A IMPORTÂNCIA DO PAPEL DOS ALAS

Rúben Lima e Tiago Esgaio ficam encarregues das alas (por completo) e, quando defendem, completam a linha de cinco defesas, juntando-se aos três centrais, anteriormente referidos. Pelo contrário, em momentos de construção assumem posições muito avançadas no terreno (como se pode ver na imagem acima) e funcionam como elementos ativos na criação de jogadas de perigo.

E é aqui que reside um dos pontos mais consistente dos “Azuis”. Estes são alas tão competentes a defender, quanto a atacar, e os números também o mostram. Rúben Lima é o homem que mais assiste para golo na equipa (quatro assistências), lidera em passes chave por jogo (em média, 1.4) e de forma destacada, em grandes oportunidades criadas (sete); Tiago Esgaio também já assistiu por uma ocasião e até já fez o gosto ao pé esta temporada. O ala direito é o segundo jogador do Belenenses SAD que mais remates bloqueia por jogo, 0,52, só atrás de Henrique, defesa-central, segundo dados do WhoScored.com. Por fim, depois de Afonso Taira, aparecem ambos em segundo e terceiro lugar na categoria de desarmes por jogo.

A relevância destes dois alas na equipa é inesgotável e podia ficar a apontar mais dados que o comprovassem. Conseguem conter as investidas dos adversários e simultaneamente participar de forma ativa e preponderante nos ataques, como se pode ver, aliás, pelo heatmap de Rúben Lima. Que mais se pode pedir?

ESCASSEZ DE MÉDIOS CRIATIVOS

Os médios são, também eles, defensivos. Diria que dos médios do plantel de Petit, excluindo Afonso Sousa, que joga como extremo, apenas Afonso Taira costuma mesclar-se em rasgos no ataque. Todos os outros, como Sphephelo Sithole, Bruno Ramires ou Thibang Pete, acabam por ter tarefas mais defensivas e de “destruir jogo”.

Todos estes fatores fazem com que a mentalidade defensiva seja claramente reforçada. Fazem com que não se perca o equilíbrio muitas vezes, obrigando o adversário a construir e a ter de trocar a bola para entrar na sua área, como se pode ver na segunda imagem, no jogo frente ao SC Braga. Os minhotos tiveram de procurar o jogo interior, onde até estava em inferioridade, para chegar ao golo. O Belenenses SAD defende com muitos jogadores e sobrecarrega a zona defensiva, tornando difícil a tarefa dos adversários. Não parece complexo, porque não é.

Concluindo, alguns dos treinadores parecem entrar nos jogos para ganhar, Petit parece mais focado em não perder. Não digo que seja uma boa ou má filosofia, a verdade é que tem conseguido almejar os seus objetivos com um plantel que muitos consideram curto para o contexto que vive. Vai passando de obstáculo em obstáculo sem o grau de espetacularidade de outros treinadores.

Costuma-se dizer que “os bons ataques ganham jogos, mas que as boas defesas ganham campeonatos”, e nesta realidade, não podia estar mais de acordo. Estranhamente, e desafiando as leis do jogo, este Belenenses SAD parece sempre mais confortável sem bola do que propriamente com ela.

Gabriel Henriques Reis

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