força da tática

Actualmente, pensar em Bayern Munique e Real Madrid é pensar em dois estilos, ideias e modelos de jogo distintos. Esta eliminatória, das meias-finais da Liga dos Campeões, é um confronto de ideais. Para nosso bem – dos adeptos da modalidade – não só estão frente a frente duas formas de entender o futebol diferentes como também estão alguns dos melhores executantes do mundo. Pelo lado do Bayern, é justo recordar um dos que ajudaram a desenvolver e sustentar o futebol de posse que a equipa bávara adopta como seu: Tito Vilanova. Não foi a principal, mas foi uma das caras que fizeram erguer esta luta pelo querer contínuo da bola. Infelizmente, uma outra luta levou-o e impossibilitou-o de ver a evolução do seu estilo e do futebol mundial. Cabe aos que cá ficam respeitar e recordar a herança que o ex-treinador deixou a todos os amantes do desporto rei.

Na última quarta-feira, o Real Madrid venceu por 1-0 o Bayern Munique, muito embora tenha tido bastante menos posse de bola (72 % – 28% a favor dos alemães). A equipa de Ancelotti optou por um jogo de transições rápidas sustentadas pela velocidade de Ronaldo (depois Bale), Di María e Benzema, aproveitando o alto balanceamento ofensivo do Bayern. O que falhou na estratégia de Guardiola? Será a aposta na organização defensiva e transições ofensivas a mais segura neste nível tão alto? Ou o modelo de posse, levado ao topo pelo mesmo Guardiola mas no Barcelona, continua a ser aquele que mais aproxima as equipas do triunfo? 

Anúncio Publicitário

Tentarmos responder às questões acima colocadas apenas com base num jogo é por certo demasiado redutor. Tratam-se de duas equipas que, apesar de representarem fielmente dois estilos opostos, não podem servir de argumento único a favor ou contra nenhum dos dois modelos de jogo mencionados. Acredito que o Real Madrid já atingiu um nível mais próximo do pretendido por Ancelotti quando delineou as suas matrizes de jogo comparativamente com o Bayern de Guardiola. O conjunto alemão, apesar dos resultados até agora excelentes e de algumas exibições muito boas, está mais longe de atingir o potencial que Pep Guardiola ambiciona com o seu modelo de jogo. É mais fácil colocar uma equipa com alto rendimento no processo defensivo do que no processo ofensivo, já dizia Jorge Jesus. E o Bayern está bem mais tempo a atacar do que o Real, pelo que a dificuldade em atingir um nível perto da perfeição é maior para o conjunto bávaro.

As setas azuis escuras são o passe completado; as vermelhas são o passe errado e as azuis claras representam os passes que antecederam um remate
Gráfico de passes do Bayern frente ao Real
As setas azuis escuras são o passe completado; as vermelhas são o passe errado e as azuis claras representam os passes que antecederam um remate

O gráfico que em cima disponibilizamos pode, à primeira vista, parecer confuso, mas é revelador num aspecto fulcral que falhou no jogo do Bayern: o último passe. Se verificarmos, apesar da grande quantidade de passes efectuados (711, dos quais 636 foram correctos), na zona frontal do último terço do terreno do Real não entrou practicamente nenhum passe feito com sucesso. O ter a bola é um princípio básico do jogo de Guardiola não só por aspectos ofensivos como também porque, quando com bola, a equipa não está susceptível a sofrer. Mas, apesar disso, se no último terço não existir uma movimentação eficiente e a agressividade necessária do portador da bola, e se a isto juntarmos uma equipa adversária compacta e bem organizada defensivamente, a equipa que mais bola tem passa por dificuldades apesar da alta percentagem de posse. Dito isto, considero que houve dois erros principais na montagem da equipa do Bayern, talvez a esperar um Real mais desinibido e com uma outra vontade para jogar em todo o terreno.

    1. A presença de Mandzukic – Muito embora Guardiola nos tenha habituado a dispensar do seu modelo de jogo o típico e poderoso ponta-de-lança, o certo é que o avançado croata tem sido aposta na presenta época. Mandzukic tem garantido capacidade de pressão alta sem bola, importante nomeadamente no momento em que o adversário tenta sair a jogar, e uma solução a nível de jogo mais largo se o adversário dificultar a primeira fase de construcção. O internacional croata encosta-se regularmente a uma das linhas e disputa muitas bolas junto ao lateral adversário, que por norma sente muitas dificuldades em vencer os duelos individuais (vídeo em baixo). Desta forma, o Bayern ganha uma solução simples e eficiente para a saída de jogo. Mas se o adversário não pressionar alto este efeito perde-se. Depois, Mandzukic torna-se pouco útil ao jogo quando os centrais que o marcam são igualmente poderosos do ponto de vista físico. Se houver pouco espaço, o avançado do Bayern é incapaz de procurar o melhor espaço, proporcionar tabelas ou superioridades numéricas longe do meio onde está mais confortável: a área. Assim sendo, Thomas Müller poderia ter sido uma solução mais interessante para o jogo anterior.

    2. O tridente do meio-campo: Lahm, Kroos e Schweinsteiger – A inclusão de Rafinha na direita e de Lahm no meio-campo foi talvez a principal surpresa no 11 de Guardiola. O objectivo do técnico catalão (que só perdeu pela primeira vez no Bernabéu no seu 8º jogo!!) pode ter passado por dar à sua equipa uma maior capacidade de pressão alta face à capacidade técnica e criatividade que Modric e Xabi Alonso detêm. Assim, caso o Real pretendesse assumir o jogo e sair a jogar desde trás, a equipa do Bayern estava precavida com três homens no meio-campo capazes de dificultar essa saída. O problema foi que o Real nunca procurou ter mais bola nem jogar mais tempo em organização ofensiva. Tanto Guardiola como alguns dos seus jogadores (Robben, por exemplo) demonstraram-se surpreendidos na conferência de imprensa por terem conseguido controlar e impor o seu jogo com tanta facilidade, o que parece confirmar que esperavam um Real com outras intenções. Desta forma, com muito mais bola e menos espaço no último terço ofensivo, faltou um elemento capaz de jogar entre linhas e desequilibrar o esquema de Ancelotti. Lahm, Kroos e Schweinsteiger são todos belíssimos médios-centro, mas nenhum deles é um verdadeiro perito na condução de bola, no drible ou simplesmente na ocupação de espaços entre a linha média e a linha defensiva do adversário. Só Lahm e Kroos trocaram, entre si, 44 passes! Götze ou, de novo, Müller poderiam ter dado outras soluções à equipa de Guardiola. Foram exactamente eles os donos das duas melhores ocasiões de golo (Müller com um remate ao lado e G]otze a proporcionar a defesa mais complicada de Casillas).

Por outro lado, Ancelotti voltou a usar um desenho táctico alternativo, que já havia colocado em prática (com sucesso) diante do Barcelona na final da Taça do Rei. O Real Madrid apresentou-se, principalmente quando sem bola – na maior parte do jogo -, num 4x4x2, deixando o 4x3x3 que mais sistematicamente usou ao longo da época. Com quatro no meio, o treinador merengue procurou evitar inferioridades numéricas na parte central do campo e estancar os possíveis espaços que o Bayern criasse. Xabi Alonso, Modric, Isco e Di Maria foram irreprensíveis na ocupação dos espaços na zona média-baixa do terreno, apesar de todos eles serem jogadores de características mais ofensivas do que defensivas. Ronaldo e Benzema acabaram por ser os dois mais avançados, tendo sido o lado esquerdo do ataque (de Ronaldo primeiro, e depois de Bale) o mais solicitado. Para isto também contribuiu a presença de Fábio Coentrão, que, das poucas vezes em que se envolveu no ataque o fez com muito critério. Carvajal, por seu lado, quase nunca passou do meio-campo.

Foi esta a disposição inicial dos 11, com o Real Madrid a apresentar um 4x4x2
Foi esta a disposição inicial dos 11, com o Real Madrid a apresentar um 4x4x2

Quanto à estratégia delineada, Ancelotti preferiu fechar bem os espaços no momento defensivo sem nunca abdicar das transições ofensivas rápidas e verticais (no vídeo em baixo) em detrimento de um jogo “cara-a-cara” com um Bayern que se sabe ser dominador quando os adversários tentam jogar em todo o terreno. Entregou a bola ao adversário desde cedo, estancou o jogo de Ribéry e Robben ao garantir que havia sempre superioridade numérica sobre os dois extremos (Di Maria e Isco foram importantes neste aspecto) e fechou os espaços no meio, tendo também beneficiado da pouca dinâmica de Mandzukic e da falta de um médio mais ofensivo como seria Müller ou Götze, conforme mencionado anteriormente. No processo ofensivo, Modric foi o elemento mais importante do meio-campo madridista. Foi quase sempre ele a ligar a zona defensiva à zona ofensiva, ora por temporizações importantes quando não havia soluções para sair em velocidade, ora por passes rápidos para os homens mais avançados. A capacidade técnica muito acima da média em conjunto com uma leitura de jogo e sabedoria no momento da decisão assinaláveis foram essenciais para que o croata se tornasse tão influente na partida.

Tendo o primeiro jogo corrido de feição ao Real, que surpreendeu o Bayern com uma postura pragmática mesmo jogando em casa, o que esperar da segunda mão de amanhã? Na minha visão, e sem querer entrar no campo da futurologia, há dois cenários prováveis:

  1. Que o Bayern altere os elementos do seu meio-campo, colocando no 11 inicial, pelo menos, Thomas Müller. A partir daqui, é provável que a equipa se apresente mais dinâmica, até porque houve algum tempo para tentar corrigir os erros da primeira mão. É mais expectável a saída de Rafinha (e a passagem de Lahm para a direita, até porque Ronaldo já vai estar em melhores condições físicas e Lahm é mais forte defensivamente do que o brasileiro) do que a saída de Schweinsteiger, mas a segunda hipótese também é possível dado o baixo rendimento do internacional alemão no primeiro encontro.
  2. Que o Real não mude a sua táctica, mantendo Bale no banco e começando com os quatro que iniciaram o jogo no Santiago Bernabéu. Ancelotti terá noção de que se marcar estará muito mais perto da final, mas deve privilegiar a segurança defensiva, visto que se espera um Bayern ainda mais ofensivo, com mais soluções e com outra preparação para perfurar a linha defensiva contrária.

O mundo do futebol terá amanhã mais um magnífico embate entre dois estilos opostos e dos quais só pode beneficiar o adepto, privilegiado por poder assistir a duas equipas tão fortes como os actuais Real Madrid e Bayern Munique. Seja qual for, o vencedor desta eliminatória será sempre o favorito a levantar o troféu no Estádio da Luz. Até lá, que toque o hino…